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OKA TEREZA

Oscar Camaforte
| Tempo de leitura: 3 min

Sexta-feira, rua Virgílio Malta depois da Duque, lá pelas onze e meia da manhã. A feira já no fim, resolvi comer um pastel na banca da Oka (tia) Tereza, uma das poucas que ainda permaneciam montadas.

- É o último, alertou-me a velha nissei, com sua discreta simpatia oriental.

Para pagar a iguaria, tirei do bolso uma moeda.

- Não é nada. O último pastel, não cobramos.

Surpreso e agradecido, fui até uma banca próxima, a do Jorge Hotta, onde sempre é possível encontrar um bom quiabo, além de outros legumes de qualidade. Contei-lhe o ocorrido. Ele comentou.

- Oka Tereza sempre foi assim. É por isso que só de vender pastel ela tem 28 anos de feira. Ao todo são mais de 50 anos. Antes, ela vendia verduras e frutas. Criou 12 filhos, todos estudaram, um deles é gerente de banco. Até o marido formou-se advogado, já bem maduro. E ela, mesmo com seus 70 anos de idade, faz questão de continuar trabalhando na feira.

No caminho de casa minha memória remeteu-me de volta ao passado, coisa de dez ou onze lustros, quando, às vezes, eu acompanhava meu pai nas viagens que ele fazia, toda semana, no seu fordinho quatro marchas para as bandas de Santa Isabel e Água do Veado, onde ele comprava frangos, queijos e ovos para revender na feira aqui em Bauru. Naquelas paragens, em um sítio modesto, num casarão que tinha aquele tom cinza que o sol do velho oeste paulista com o tempo sempre acaba imprimindo às casas de madeira, vivia uma família de imigrantes japoneses da qual fazia parte uma pequenina e velhíssima batchan (avó) que mesmo não falando a nossa língua, conhecia muito bem a linguagem do amor, a que Deus sempre usa para se manifestar através dos Seus filhos e filhas. Pois foi ela quem, certa vez, estampando no rosto um doce sorriso e gesticulando para que eu esperasse, entrou em casa e de lá voltou trazendo em suas mãos enrugadas uma cestinha de vime, que me entregou. Dentro estavam alguns ovos de pata e mais três grandes, de gansa, estes os maiores que os meus olhos de criança até então haviam visto. Eu já estou quase naquela idade em que o motorista de ônibus, para permitir a saída pela porta dianteira, não faz questão de conferir se o passageiro está portando o Passe do Idoso, uma cédula de identidade cuja cor, laranja choque, é mais chamativa que o amarelo da estrela de Davi que todo judeu era obrigado a ostentar na Alemanha nazista.

Todavia, até hoje, não tenho registrado em minha memória nenhuma decepção maior vinda de alguém que tivesse um daqueles sonoros sobrenomes, tipo: Uehara, Iutaka, Nakamura, Komono, Fujimori etc. Posso, sim, facilmente, relacionar alguns leais amigos dentre aquelas pessoas de olhos pequenos e de grande coração. Porém, não sou ingênuo, sei que o ser humano, independente de sua raça ou origem pode ser bom, mas freqüentemente chega a ser muito ruim. No entanto, a esta altura de minha vida, devo me curvar em reverência e homenagem a essa gente de gestos e atitudes discretas, alma generosa e muito, muito dedicada ao trabalho. (Oscar Camaforte - RG. 3.640.92)

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