Geral

Iconoclastas talibãs retornam à caverna

(*) B. Requena
| Tempo de leitura: 3 min

Outros já escreveram, mas o assunto merece muitas opiniões. Os talibãs (palavra que significa estudantes, em persa, no caso estudantes de teologia), que dominaram o Afeganistão, há cerca de cinco anos, em momento de rara inspiração decidiram bombardear os famosos Budas situados na antiga rota da seda, um caminho tão importante na antigüidade que hoje seria difícil fazer uma comparação. Situa-se essa rota, também chamada de passagem Khyber, junto à Cordilheira do Hindu Kush e era por ali que as caravanas de comerciantes conseguiam ir da China à Europa. Rodovia das mais importantes do mundo, se assim pode-se chamar um caminho escarpado entre montanhas e abismos, numa época em que não existia veículo motorizado, a rota era o lugar ideal para os devotos do bondoso príncipe Sidarta, fonte de sabedoria, homenagear e divulgar o divinal ser, que, a exemplo de Jesus Cristo, também foi humano, mas aqui veio mais de meio milênio antes do Menino da Galiléia.

Viajando pelo Japão, no Estado de Gunma, tive a oportunidade de subir, por interminável escadaria interna, em um Buda de 42 metros de altura. Situada num belíssimo parque de terreno elevado, a figura do Buda, que parece estar orando, transmite uma enorme sensação de paz, com certeza, para budistas, xintoístas, católicos, espíritas, muçulmanos e... acreditava eu, também para os talibãs. Na China, há o maior Buda do mundo esculpido numa tora.

Entretanto, voltando à rota da seda, de milhares de quilômetros, os Budas ali esculpidos têm até 55 metros de altura. A decisão de eliminar todos contrariou o próprio Vaticano e quase levou à loucura os especialistas da Unesco, o órgão da ONU encarregado de supervisionar no mundo inteiro as artes, a ciência e a cultura em geral. Antiquíssimas, essas estátuas não pertenciam aos talibãs, mas eram patrimônio de toda a humanidade. Mas o que o diretor-geral da Unesco, Koichine Matsuura, poderia fazer se os vândalos iconoclastas (aqueles que destroem obras de arte, religiosas, etc.) são os próprios governantes do Afeganistão?

Para refrescar a memória do leitor, os Estados Unidos não foram às Olimpíadas de Moscou, há 20 anos, como represália, porque a Rússia havia invadido o Afeganistão. Agora, uma triste constatação: são afegãos os maiores inimigos do Afeganistão... Felizmente, nem todos...

Liderados pelo seu mulá, que foi quem deu a idéia de destruir as estátuas, ministros e os principais líderes miraram seus antigos e rudimentares canhões para as imagens. Vale lembrar que o Buda (o Sábio), também conhecido como Sakya-Muni (Solitário dos Sakyas), na verdade era Sidarta Gautama, filho do chefe da tribo dos Sakyas, na Índia. Pregava que a vida é sofrimento e que o sofrimento resulta da paixão. Ensinou que a renúncia de si mesmo era o único caminho de libertação para o homem atingir o nirvana. Pensem o que quiserem, mas tenham a certeza de que Buda era um bom sujeito.

Os estudantes de teologia que governam o País são cabeças duras e até agora não aprenderam que uma das mais abomináveis intolerâncias é a intolerância religiosa. Imaginando que transformando enormes rochas em cacos e poeira, estariam destruindo o budismo, certamente não atentaram que maior que as estátuas e mais forte do que as rochas é a filosofia impregnada de sabedoria e bondade do príncipe que se tornou humilde. E isto é impossível de destruir! São valores cultivados atualmente por 338 milhões de adeptos mundo afora! Em tempo: no lugar dos Budas esculpidos nas montanhas, ficaram as cavernas. Os talibãs bem que poderiam voltar para elas...

(*) B. Requena é editor de Internacional do JC

Comentários

Comentários