Geral

Negro, cidadão brasileiro

(*) Luiz Alan Barbosa Moreira
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil tem aproximadamente 65% de sua população descendentes de africanos (pardo, moreno, neguinho, jambo, mulato etc.). No entanto, uma boa parte dessa parcela significativa da nossa população vive à margem da sociedade, pois lhe são negados direitos essenciais, sendo que a discriminação racial se destaca como seu maior inimigo.

A discriminação ocorre em razão da falta de conscientização e valorização do negro. Para combatê-la somente através de um trabalho envolvendo toda a sociedade.

Normalmente, escutamos pessoas dizerem que fulano é preto, mas tem a alma branca. Que beltrano não é negro, ele é mulato, moreno, como que ser negro fosse defeito, um mal, vergonha, desonra, isto tudo está aí incrustado no seio da nossa sociedade. E quando algum negro toca no assunto alguém desconversa e o acusa de preconceituoso. Essa prática nutre a mentira de que o preconceito é o próprio negro que faz.

Em uma sociedade onde se construiu o paradigma de que o negro é inferior, uma sub-raça, fica difícil - não impossível - mudar a consciência, posto que sem herança cultural e instrução escolar suficiente, essa falácia vem impregnando e destruindo a auto-estima da população negra de nosso País.

Isso tem impedido os negros de se organizarem em movimentos de luta que realmente os integrem dentro da sociedade como elementos importantes e essenciais. O negro é um ser com direitos iguais ao branco, somente lhe falta livrar-se desse estigma e lutar.

A miscigenação redundou no surgimento do cidadão de cor parda, do mulato, do moreno, negros por excelência, contudo, o que predomina é de que não são negros. No dia-a-dia, todavia, sofrem as mesmas discriminações daqueles que têm a derme mais escura.

Ao longo desses quinhentos anos, o sistema capitalista aniquilou qualquer possibilidade do negro se organizar, destruiu a sua identidade, a sua auto-estima e impôs-lhe a vergonha de ser negro.

O Brasil jamais chegará a alcançar uma estabilidade social se permanecer inerte às discriminações que afloram o seio de nossa sociedade, principalmente a racial. Em Bauru, como nas demais cidades de nosso País, os negros sofrem com a discriminação.

Em uma sociedade que se diz organizada não dá mais para suportar tanta injustiça. Dessa forma, entendo que, somente com a criação de um movimento que efetivamente se coloque na vanguarda, poderemos desarmar, paulatinamente, toda a estrutura que alimenta o preconceito racial em nosso País.

Através de atos concretos e atividades que viabilizem a sua participação em condições iguais ao branco, estará o negro apto a ingressar em uma universidade, a competir no mercado de trabalho, a ocupar lugares de destaque dentro da sociedade.

A comunidade negra local tem a chance de escrever um capítulo na história, pois, se deixar o comodismo, a vaidade e ideologias de lado e resolver unir forças para lutar pelo seus direitos, com seriedade e abnegação, com certeza, em curto espaço de tempo estará colhendo valorosos frutos.

Tudo isso se faz necessário e creio que a participação do branco, como parceiro nessa luta, é de suma importância, pois os resultados advindos dessa mobilização, certamente propiciarão uma vida em sociedade mais digna e com mais justiça social. Dentro desse contexto, necessário conscientizar cada cidadão independente de qual a sua cor, a aderirem à idéia de que somente com a participação do negro nos vários segmentos da sociedade será possível falar em justiça social.

A ajuda do branco, reitero, é de suma importância, pois se realmente queremos viver num Estado de Direito, a sociedade organizada através do Poder Público deverá desarmar-se de todo pré-conceito construído ao longo desses 500 anos, objetivando integrar o negro como elemento partícipe. Edificando, assim, a sua auto-estima.

ET: Dedico esta matéria a Luiz de Souza (in memoriam), um negro, exemplo de cidadão.

(*) Luiz Alan Barbosa Moreira é advogado

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