Geral

Camisa de força

(*) Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As páginas do noticiário econômico de nossos jornais e os espaços na TV estiveram ocupados nesta semana com os desdobramentos da crise argentina: crise de confiança nos rumos da economia, agravada pelas incertezas de natureza política. A Argentina cumpre um destino cruel, dez anos após meter-se numa camisa-de-força com seu plano de conversibilidade. Reduziu a inflação à custa de resultados medíocres em termos de crescimento do PIB e de um enorme aumento do desemprego. Os problemas sociais se agravaram, desorientando o governo e levando a seguidas trocas do comando da administração econômica. Após a tentativa frustrada de lançar um duro programa de ajuste com o ministro Murphy, o governo De la Rua entregou o comando ao economista Domingo Cavallo, que é o autor do plano de conversibilidade. Trata-se de um profissional competente e bastante obstinado, cuja tarefa será convencer a sociedade argentina de que a saída da crise vai exigir ainda mais sacrifícios. Seu sucesso depende de um aumento de produtividade que não se realiza de uma hora para outra e da queda dos níveis de salários.

Os problemas da economia argentina são conseqüência da escolha de um sistema de câmbio absolutamente inadequado, principalmente para países como a Argentina e também o Brasil. Nós nos livramos da camisa-de-força do câmbio fixo em janeiro de 1999 e encontramos novos caminhos para sair da estagnação econômica, voltar a pensar em crescimento e enfrentar as turbulências externas. Essas turbulências produzem efeitos muito menores do que acontecia no passado recente, pois os choques são absorvidos pela flutuação do câmbio. Na Argentina, os caminhos se estreitaram: ela só pode sair da crise ou desvalorizando - o que não deseja fazer - ou baixando os salários reais, o que leva muito tempo e combinando esse movimento com um forte aumento de produtividade, o que leva mais tempo ainda.

É preciso esperar para ver em que medida o plano anunciado pelo ministro Cavallo será aceito pela sociedade argentina, para se ter uma idéia mais precisa de suas repercussões no comércio com o Brasil e nos mercados financeiros, em geral. As incertezas já produziram alguns sobressaltos em nossos mercados, alimentando o processo de volatilidade que faz a alegria dos operadores. A mídia reflete esse nervosismo, o que favorece o clima de incerteza, potencializando-o. Não é apenas no Brasil que se exagera o alcance desses movimentos. É um fenômeno mundial atribuir-se hoje ao mercado financeiro uma importância que ele não tem, sobrepondo-se ao comportamento da economia real. Ninguém mais se preocupa com os fabricantes de parafusos, de tornos ou de brinquedos que são verdadeiros operadores da economia. Toda a atenção é focada no gênio que inventou derivativos, discutem-se os seus lances no mercado e todos se interessam em saber de que forma é possível ganhar tanto dinheiro com a mínima parcela de trabalho...

O prezado leitor precisa se resguardar contra esse modismo, entendendo que a procura da volatilidade é permanente no mercado financeiro porque é dela que vivem os especuladores, ao contrário dos trabalhadores que labutam na economia real.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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