Idéia motivou campanha dos evangélicos por doação de livros. Intenção é promover cursos supletivos aos presos
Ipaussu - Liberte-se através da leitura é o nome de um projeto da Secretaria de Educação e Cultura de Ipaussu que está levando livros, jornais e revistas para dentro da cadeia pública. Há cerca de dois meses, os 28 detentos da cidade têm a oportunidade de manterem-se bem informados sobre no mundo.
A iniciativa foi da diretora municipal de cultura, Jorgete Macarios, que assumiu o cargo em janeiro deste ano. Ela afirma que vai pessoalmente à cadeia todas as segundas-feiras conversar com os presos, relacionar suas preferências e fazer a troca do material.
Trabalhei muito tempo no Conselho Tutelar, acompanhando as carências de jovens e adolescentes. Desta vez, eu queria levar alguma coisa para os presos. Então, pedi autorização ao delegado para fazer contato com eles e, na primeira entrevista, quis saber se eles tinham alcance a algum tipo de leitura ou notícia. Fiquei penalizada quando soube que eles não tinham acesso a nada, porque, numa época em que muitos têm acesso à Internet, em que as coisas acontecem tão depressa aqui fora, 28 homens estavam isolados do mundo. Ao sair da prisão, vários anos depois, como eles encarariam as mudanças do mundo?, contou a diretora.
Depois de confirmar se eles gostariam de receber o material para leitura, ela providenciou uma ficha com o nome e a idade de cada detento e fez uma listagem das coisas que eles gostariam de ler. O material seria emprestado da Biblioteca Municipal. Porém, além dos livros de geografia, história, matemática, desenho e inglês, muitos deles pediram livros evangélicos.
Foi interessante, porque acabou envolvendo outra comunidade no projeto. O pastor da Igreja Quadrangular soube que não havia livros evangélicos na biblioteca e promoveu o 1.º Encontro do Livro Evangélico, que resultou na doação de aproximadamente 40 exemplares.
Artesanato
De acordo com Jorgete Macarios, paralelamente ao projeto de leitura, os detentos estão sendo incentivados a desenvolver trabalhos manuais. Ela levou material para eles, como papéis, palitos de sorvete, linha e se disse abismada com a quantidade e a qualidade dos trabalhos. Saíram coisas lindíssimas, inclusive em crochê. Eles fizeram cinzeiros, caixas de música, porta-jóias e até barcos com o distintivo do time predileto.
A diretora afirmou que a intenção é reunir uma quantidade boa de trabalhos e promover uma exposição. O dinheiro da venda dos trabalhos seria revertido para os próprios detentos. Ainda estamos pensando numa forma de fazer isso, talvez depositando em contas bancárias. O importante é ocupar o tempo deles, porque Cabeça desocupada é oficina do Diabo.
Jorgete disse estar em contato com o promotor da cidade para saber mais sobre a lei que garante remissão na pena para detentos que trabalham. Pela lei, todo preso tem um dia descontado de sua pena para cada três dias trabalhados. A partir disso, vamos buscar formas de trabalho junto a empresas e junto à comunidade para que eles ganhem esse benefício, garantiu.
Resultados
O delegado de Polícia de Ipaussu, Marcelo Alves Firmino, disse à reportagem que ainda é cedo para avaliar os resultados destes projetos. Mas, de qualquer forma, eles gostam, é uma distração que ajuda a passar o tempo. E para nós, significa conforto, porque enquanto eles estão tentando estudar, estão lendo, não estão pensando em fugir, o que já é uma grande coisa. É muito importante para diminuir a ociosidade, ressaltou.
A iniciativa da diretora municipal de cultura, que o delegado chamou de louvável, também está incentivando a idéia de criar cursos supletivos dentro da cadeia. Porém, isso só será possível a médio prazo. Segundo Firmino, a cadeia é pequena e não tem espaço físico para as aulas. Precisamos construir uma sala de aula, precisamos disponibilizar mão-de-obra e já estamos trabalhando para isso. Aguardo os frutos de todas essas coisas, mas, por enquanto, existe ainda um longo caminho a ser trilhado, garantiu.