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O que era para abrigar praças e pontos de convivência coletiva, acumula hoje toneladas de lixo e entulho

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 3 min

O tratamento negligente dispensado pelo Poder Público em relação aos loteamentos mais antigos de Bauru reflete nos dias atuais um panorama desanimador. Durante décadas a fio, a administração municipal autorizou o parcelamento de glebas sem se preocupar com os espaços destinados às áreas verdes e à construção de equipamentos institucionais como escolas, creches, núcleos de saúde, centros comunitários, entre outros.

Essa omissão, quase sempre resultada da pressão dos empreendedores imobiliários - pouco interessados com a futura qualidade de vida dos moradores -, vem sendo sentida cada vez mais pela população bauruense, especialmente a residente nos núcleos mais periféricos.

Antes de a administração acordar e do próprio surgimento da Lei Federal 6.766/79, a qual veio para definir os percentuais de terras que deveriam ser doados pelos loteadores, os núcleos habitacionais lançados desprezavam totalmente a importância dos espaços verdes e também pouco consideravam a localização dos aparelhos públicos. Núcleos e mais núcleos foram traçados com as respectivas áreas verde e institucional situadas nas piores topografias dos terrenos.

A área verde da carente Pousada da Esperança, por exemplo, encontra-se totalmente num local erodido. O que era para abrigar praças, campinhos de futebol e pontos de convivência coletiva, acumula hoje toneladas de lixo e entulho. Resultado: a comunidade local - que, faça-se justiça, também é grande responsável pela desoladora situação - é totalmente carente de espaços para lazer, em desacordo flagrante com os padrões internacionais, que estabelecem uma área verde per capita de 12 metros quadrados.

O quadro não é muito diferente nos parques Santa Edwirges e Jaraguá, também órfãos de áreas verdes. Na época em que foram loteados, os espaços destinados às praças ficaram em pequenos terrenos remanescentes e muito mal localizados. Os locais para os equipamentos institucionais também foram esquecidos, obrigando a Prefeitura a utilizar, com o passar do tempo, as já escassas áreas verdes para abrigar escolas e creches.

Para quem acha a questão aparentemente simples, aí vai um dado alarmante e confirmado pela própria Polícia Militar: a falta de praças e áreas livres de convívio coletivo nos bairros tem relação direta com os índices de marginalidade. Sem condições financeiras de freqüentar o lazer privado, como cinemas, lanchonetes da moda e shopping, parte significativa dessa população acaba encontrando a diversão semanal nos bares e, conseqüentemente, na bebida alcoólica. A embriaguez seguida da intolerância ao próximo é comum nesses três bairros citados, coincidentemente os mais violentos da cidade.

O problema também traz reflexos negativos às condições sanitárias. Praticamente todas as mais de 250 áreas que o município possui estão abandonadas. Sem receber qualquer serviço de manutenção, essas glebas estão tomadas pelo mato alto - situação que se agrava na época das chuvas - e tornaram-se habitats propícios para insetos peçonhentos, vetores de doenças e roedores. Também acabam servindo de esconderijo de marginais e de produtos de furtos. A maioria das reclamações que chegam ao conhecimento do JC nos Bairros diz respeito a lotes pertencentes à Prefeitura. A comunidade, por sua vez, não pode ser isentada de culpa, pois colabora com o problema na medida em que joga ou permite o despejo de lixo e entulhos. De acordo com a secretária municipal do Planejamento, Maria Helena Rigitano, a máxima o que é público não é de ninguém continua, infelizmente, prevalecendo. As pessoas invadem e sujam os terrenos públicos porque sabem que as ações contra esse tipo de atitude demoram muito. Os moradores reclamam, mas, ao mesmo tempo, permitem que joguem lixo na frente da casa deles. A comunidade ainda não conseguiu enxergar que é proprietária do patrimônio público. A mudança desse pensamento envolve um trabalho muito grande de educação e, por isso, não acontece de uma hora para outra, avaliou.

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