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Mulheres no comando

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

No filme Do que as Mulheres Gostam, Mel Gibson não se vê enrolado apenas com o fato de não compreender o universo feminino, ele se vê subordinado a uma mulher na empresa onde trabalha e não se conforma com isso. Para uma grande porção do público masculino essa situação não é facilmente digerida apesar de, com o tempo e o avanço das mulheres no mercado, já existirem muitas chefias femininas. Hoje já é muito melhor do que antigamente diz a psicóloga e consultora Regina Maura Pereira Torres. Para ela, a discriminação contra as mulheres nos cargos de chefia acontece mais no nível executivo do que nas indústrias.

Acho que as mulheres são muito moles para mandar numa empresa, diz o auxiliar administrativo André M., que prefere ter chefes do sexo masculino, que entendem como ele pensa. Assim como M., muitos homens têm problemas em serem comandados por mulheres. Já tive problema com um subordinado por causa da maneira como os homens pensam que é diferente das mulheres, conta a gerente de recursos humanos da Tilibra, Daniela Coube. Eles são muito racionais e nesse caso a pessoa estava tendo uma visão limitada, só enxergava a razão, explica.

Atualmente a gerente tem, entre subordinados diretos e indiretos, cerca de dez homens e afirma que não tem mais problemas.

A empresária Aline Cerpa que trabalha com confecções também já sofreu com os funcionários. Eles são mais teimosos do que as mulheres e muitas vezes querem fazer as coisas do seu jeito, passando em cima de uma ordem, revela.

Além do machismo que, às vezes, fala mais alto e faz com que o funcionário não aceite as ordens da chefe ou da patroa por achá-las erradas, a falta de sensibilidade dos homens em comparação às mulheres também faz diferença. Os homens são mais objetivos e as mulheres tem mais sensibilidade, intuição e feeling, embora isso não seja uma regra, afirma a líder de equipe das lojas I e II da Farmais, Cláudia Bentim, que, apesar disso, diz não ter problemas com seus subordinados.

Para a psicóloga e consultora Regina Maura Pereira Torres, a competição entre homens e mulheres e a intolerância com a chefia feminina existe em maior número nos altos escalões das empresas porque a mulher tem estado cada vez mais preparada e, por isso, ameaçadora para os homens. A mulher tem que batalhar muito para atingir um posto alto na chefia e quando chega lá ainda é boicotada, conta. Mas ela acredita que a situação está melhorando em relação ao que acontecia há até alguns anos, quando as mulheres nem sequer chegavam à chefia.

Na opinião de Daniela Coube, homens e mulheres estão caminhando para um equilíbrio ideal de trocas de habilidades, onde o homem está aprendendo a ser mais sensível e emotivo e a mulher a ser mais objetiva e racional. Os homens estão acordando agora para a necessidade de serem mais sensíveis, a mulher já tem evoluido muito e está desenvolvendo habilidades que não tinha antes, como uma maior inteligência espacial e cognitiva, afirma a gerente, que acredita que as mulheres estão na frente nessa corrida. Mas isso não quer dizer que a mulher é melhor do que o homem, ressalta Daniela. Para ela o movimento feminista muitas vezes se excedeu por defender esse tipo de competição. Os dois sexos devem se ajudar em busca de evolução não competir se tratando como inimigo, diz.

Para que tudo sempre corra bem no ambiente de trabalho Cláudia Bentim dá a dica: Estamos sempre valorizando o ser humano, independente dele ser homem ou mulher porque o bom profissional não tem sexo. Quando um profissional homem causa algum problema, raramente é em decorrência dele ser liderado por uma mulher. Aconteceria o mesmo se o chefe fosse um homem, afirma.

Confundindo dinheiro com amor

E quando as disputas acontecem dentro de casa porque a esposa ganha mais do que o marido? De tanto ver os casais discutirem por dinheiro, a psicanalista americana Susan Forward escreveu o livro: Comprando sua felicidade - Formas Saudáveis de se Relacionar com Dinheiro. Nos Estados Unidos, cerca de 90% dos divórcios são motivados por brigas por estouro de cartões de crédito, despesas da casa, sovinices e mesquinharias. Ou seja: as pessoas confundem dinheiro com amor. Muito sofrimento poderia ser evitado se a gente pudesse entender o seguinte: não falta dinheiro, mas o afeto que ele tenta substituir, diz Forward.

Segundo a psicanalista, quando a mulher ganha mais, se não tiver uma boa estrutura emocional, pode se sentir desamparada porque não pode contar com marido para muitas coisas. A responsabilidade de sustentar a família acaba se tornando um peso que dinheiro algum no mundo conseguirá resolver. É por isso que para sobreviver, o casamento precisa ser bem estruturado, já que os homens também sofrem por ganhar menos. Em alguns casos, eles se tornam rebeldes e até violentos . A solução é o diálogo e a explicação de que o afeto entre ambos não diminui quando um ganha mais do que o outro.

Os homens que se deixam abater pelo fato de ganhar menos do que as esposas estão se esquecendo que não é só a situação financeira que conta no casamento, mas também o companheirismo e a cumplicidade. Na prática isso não funciona porque não é raro a mulher jogar na sua cara o quanto ela trabalha para te sustentar, diz o músico G. T. Casado há cinco anos, com uma advogada, ele às vezes pensa em se separar da esposa e só não o faz porque o casal tem dois filhos. Procuro manter a calma também porque a minha profissão sempre vai render menos do que a dela. Foi uma escolha que eu fiz, conclui.

A comerciante A.M. venceu as diferenças com o marido depois de analisar a situação e acabar com o que estava matando o casamento: a competição. Estávamos agindo como dois adversários porque somos muito ambiciosos. Como tive mais sorte, acabei faturando mais e ele se irritou, na verdade não pelo dinheiro, mas por estar atrás na corrida. Quando esclarecemos isso, tudo voltou ao normal, conta.

Como superar os conflitos econômicos

Jogo de poder: O dinheiro não deve ser usado para subjulgar, explorar ou humilhar o parceiro. Quando isto acontece, a relação torna-se perversa e o amor deixa de existir. A solução é buscar uma terapia que faça o casal pensar sobre o uso que faz do dinheiro.

Desamparo: Quando a mulher se sente desamparada porque ganha mais que o marido, ela deve tentar buscar, através de terapia, a origem deste desamparo em sua infância. Assim, dará ao salário do marido sua dimensão real.

Inferioridade: O homem que ganha menos deve enfrentar as sensações de impotência e de inferioridade diante da mulher. A cultura machista que lhe impôs ser o provedor da casa faz parte do passado. Resolvido este problema, ele deve avaliar se o seu salário não está de fato defasado demais. Afinal, ele também deve contribuir com as despesas de casa.

Desemprego: Quando o homem fica desempregado, a mulher tem obrigação moral e afetiva de ajudá-lo a procurar outro trabalho e arcar sozinha com as despesas da casa. Mas se este desemprego torna-se crônico, é preciso verificar se a perda do emprego não levou este homem e uma crise de depressão e de auto destruição.

O prazer de dar: Quem ganha mais pode aprender facilmente, na prática, que dar é mais gratificante do que receber. E, assim, descobrirá que amar proporciona felicidade muito maior do que ser amado.

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