Geral

O olhar do consumidor

(*) Luiz Antonio Fleury Filho
| Tempo de leitura: 2 min

Era um sábado, duas e meia da tarde, quando uma dessas tempestades de verão, tão comuns no mês de março, desabou sobre a capital paulista. Meu bairro sofreu um corte de energia. Peguei o telefone e tentei o número de emergência 0 800 da Eletropaulo. Estava ocupado. Tentei novamente e deu ocupado outra vez. Insisti. Somente ao final de duas horas e meia, contadas a relógio, consegui completar a ligação. Avisaram-me, então, que as equipes de socorro já estavam a caminho e a energia logo seria restabelecida. Na verdade, tivemos que esperar até às oito da noite para que a luz começasse a voltar por etapas ao nosso bairro. Na minha rua, só foi restabelecida dez horas depois do corte inicial. No plantão da Eletropaulo, ninguém parecia capaz de informar o horário em que chegou o primeiro pedido de auxílio, nem quando as equipes de socorro haviam começado a trabalhar. Essa é uma história muito comum em São Paulo, tanto assim que voltaria a acontecer comigo mesmo duas semanas depois em termos muito parecidos. Mas acho que merece ser lembrada no momento em que o governo pretende retomar a privatização do setor elétrico pelas geradoras Chesf, Copel, Furnas e Eletronorte. Era isso que se esperava das privatizações? Previa-se maravilhas. Com as privatizações, a qualidade dos serviços iria melhorar, o nível de emprego subir, a dívida pública desaparecer e as tarifas despencariam. Na verdade, as reclamações contra as concessionárias privadas abarrotam os juizados especiais, a dívida pública aumentou 500% e emprego novo ainda não se viu. Quanto às tarifas, vejamos o que ocorreu. Enquanto a inflação, medida pela Fipe entre julho de 1994 e agosto de 2000, ficou em 86%, a tarifa de energia elétrica subia 92%, o álcool combustível 123%, a tarifa de água 122%, a gasolina 167%, os transportes coletivos 171%, o botijão de gás usado pela classe mais humilde 226% e a conta do telefone 394%. Não é de se estranhar. À frente da Comissão de Minas e Energia do Congresso Nacional, tive acesso aos contratos de privatização que indexaram as tarifas pelo IGPMN, o índice mais violento existente no País. Isso quando, a rigor, depois do Plano Real não se deveria aplicar indexador algum. Ainda por cima, está previsto nesse contrato leonino que qualquer modificação só poderá ser feita depois de cinco anos. Por todos esses motivos, acho que, antes de qualquer nova privatização deveríamos fazer um balanço dos erros cometidos e analisar a questão do ponto de vista que realmente interessa. O ponto de vista do consumidor.

(*) Luiz Antonio Fleury Filho é deputado federal

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