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Exorcismo nacional

Padre Beto ( *)
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Na fronteira entre Alemanha, Suíça e Áustria encontra-se o maior lago da Europa Ocidental, o lago Constança. Em todas as pequenas cidades às suas margens mantém-se viva uma tradição que surgiu no início da Idade Média: a expulsão do demônio como despedida do inverno. Em um determinado lugar da cidade, os moradores constroem uma verdadeira montanha de madeira, caixas e objetos usados.

No topo da montanha é colocado um boneco que simboliza o demônio do inverno. No primeiro sábado de março é então acesa a enorme fogueira. A população reúne-se ao seu redor para uma grande festa com música, danças e comidas típicas.

Nesta noite, pode se ver as enormes fogueiras nos arredores do lago Constança. Esta tradição era na Idade Média um ritual religioso, uma espécie de exorcismo que deveria expulsar o demônio em preparação para a chegada da primavera. Hoje em dia ninguém mais acredita em demônios, mesmo assim a população realiza um exorcismo do egoísmo e do individualismo com uma festa que fortalece a convivência e a amizade entre as famílias.

A figura do demônio, satanás ou diabo (diabolos) marcou profundamente a cultura ocidental e ainda continua a confundir e a dificultar a vida de muitos. Em primeiro lugar, é bom deixar claro que a história do anjo mal que rebelou-se contra Deus não encontra-se em nenhuma parte da Bíblia. A origem desta figura surgiu do encontro entre culturas: a persa e a judaica.

Entre os séculos 6 e 4 antes de Cristo, a Palestina encontrava-se sob o poder do império Persa. Com o poder político veio também a influência cultural. Enquanto os judeus eram monoteístas, os persas acreditavam basicamente em dois grandes deuses: o deus do bem e o deus do mal. Como para os judeus a existência de dois deuses era inaceitável, Deus continuou sendo Javé e o deus do mal, por sua vez, foi reinterpretado transformando-se em um anjo mal. Desta forma ganhava a cultura judaica uma personificação do mal sem destruir o monoteísmo.

O satanás acabou tornando-se assim uma espécie de bode expiatório. Tudo o que era mal era causado por sua ação maligna. Dois mil anos atrás, por exemplo, muitas doenças, na época inexplicáveis e incuráveis, eram sinais da presença do demônio. Portanto, uma pessoa que sofria de lepra ou epilepsia estava automaticamente possessa pelo coisa ruim.

Infelizmente, a crença no mal personificado perdurou no mundo ocidental durante séculos. Pessoas foram queimadas vivas, muitos padres e pastores gastaram suor e saliva e em pleno terceiro milênio, o demônio continua presente na mitologia de muitos povos.

Sem dúvida alguma, o mal é um fato em nosso mundo. O problema mais grave, no entanto, é que o mal não é, e nunca foi, um ser personificado. O mal em pessoa não existe, porém ele está mais vivo do que nunca nas pessoas.

Se eliminarmos o bode expiatório do demônio, confrontamo-nos com um fato muito desagradável: o mal existe em nós mesmos e ele é sinal de nossa imperfeição. A imagem criada por Raul Seixas corresponde à nossa realidade humana: olha o mal. Vem de braços e abraços com o bem num romance astral.

Para entendermos o que é o mal, precisamos necessariamente compreender o que é o bem, pois o primeiro é na verdade a falta do último. A pessoa humana é um ser inacabado, no qual existe um imenso potencial de luz e de bem. A vida é a chance que temos de entrarmos, de forma consciente, em um processo de transformação e fazermos com que o bem cresça em nós e em nosso ambiente.

À medida que vamos nos aperfeiçoando, vamos eliminando o vazio do bem, ou seja, o mal. Ao contrário, se entendemos o mal como um ser personificado ou um fenômeno sobrenatural tornamo-nos marionetes de uma ideologia e eliminamos a responsabilidade que todos nós temos de realizarmo-nos como pessoa e de sermos felizes.

Sem dúvida alguma o exorcismo é, nos dias de hoje, algo extremamente necessário. Não um exorcismo para tirar o satanás do corpo, mas um exorcismo para desenvolvermos o bem em nós mesmos e em nossa sociedade. É necessário fazermos um exorcismo que expulse definitivamente o demônio do analfabetismo, da corrupção, da injustiça social, do egoísmo.

É urgente exorcizar o demônio da inveja, da falta de respeito, da criminalidade, o demônio que tira a perspectiva de futuro de muitas crianças e muitos jovens no Brasil.

Acontece que este tipo de exorcismo nacional exige de nós muito mais do que gritos e água benta; para que ele seja realizado é necessário informação, consciência política, ação solidária e amor ao próximo. Onde existe a possibilidade de ódio, existe também a possibilidade de amor, basta fazer uma escolha. (Tillich)

Padre Beto (Especial para o JC Cultura) Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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