Impressionantes os números levantados pelo Banco Central sobre a lavagem de dinheiro no Brasil. São US$ 15 bilhões todos os anos. Isso significa 3% do nosso Produto Interno Bruto. Essa dinheirama vem do tráfico de drogas, do contrabando, da corrupção, jogo do bicho, caixa 2 das empresas, propinas e de toda sorte de especulação financeira feita à margem da lei.
Fosse possível cobrar impostos do dinheiro sujo, seria possível resolver o problema da miséria absoluta em que vegetam 16 milhões de brasileiros, sem sequer ter US$ 1 por dia para sobreviver. É verdade que falcatruas existem no mundo todo. Segundo dados da ONU, a soma do produto dos negócios escusos praticados no planeta, somam US$ 500 bilhões.
Duvido que tudo aconteça sem a cooperação do sistema financeiro convencional ou a omissão complacente das autoridades governamentais. Para ser mais explícito: sem o envolvimento dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. O dinheiro é tanto que permite seduzir até quem tem alergia por nota de cem reais.
Engraçado - se não fosse trágico - é que o Banco Central, encarregado de normatizar e fiscalizar as transações financeiras que ocorrem neste País, sabe até os números da lavagem, mas se vê impotente para fechar o ladrão por onde escoa parte do PIB brasileiro.
O leitor diário dos jornais fica estarrecido com as manchetes sobre os esforços do Governo Federal para abafar a CPI da corrupção. Está disposto a liberar R$ 1,25 bilhão do meu, do seu, do nosso dinheiro, para os parlamentares fiéis ao Palácio do Planalto segurarem as pontas. É a fase do bocão. Senadores e deputados esmeram-se na defesa dos interesses do governo para obter benefícios. Além da liberação de verbas das emendas orçamentárias, é possível obter cargos no segundo escalão. Aqueles que têm suas bases eleitorais mais fechadas, tratam de defender os interesses das suas corporações como aquele deputado que promete retaliar assinando a CPI, se não for repassado o aumento salarial concedido aos militares, para a Polícia Militar do Distrito Federal, que é paga pela União. Todos rezam a magnífica oração deixada por São Francisco: é dando que se recebe.
No momento em que escrevo, ainda não sei dos resultados do diálogo que FHC iria manter com George W. Bush, na Casa Branca. O presidente norte-americano prometia um diálogo olho-no-olho. Iriam tratar da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), cuja implantação o Brasil quer adiar. Os norte-americanos desconfiam que é tudo manobra desviante, já que é inevitável essa união aduaneira. O México entrou no Nafta e se deu bem. Hoje exporta três vezes mais que o Brasil - cerca de US$ 174 bilhões. O povo continua na miséria, é claro.
Bush sabe que o sonho de FHC é que o Brasil tenha um papel no hemisfério. Depois da Presidência, quer continuar a carreira política. Gostou da majestade do cargo de ministro das Relações Exteriores com o qual começou quando Itamar assumiu no lugar de Collor. Ele vê a si mesmo numa cadeira do Conselho de Segurança da ONU.
O Brasil, segundo um teórico americano de política externa (George F. Kannan), pertence ao grupo dos países monstro, como Rússia, China e Índia. Devido a seus tamanhos continentais, tem um peso inerente nas questões internacionais, face ao mercado potencial que representam. Mas ô povinho duro, sô, diria o cientista político mineiro, referindo-se muito mais aos seus dirigentes: todos corruptos, mal pagadores, dissimulados e além do mais, pretensiosos.
(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC