Para o ex-jogador João Gualberto Pires, nova legislação dá liberdade aos atletas, mas também deve limitar a profissão
Em vigor desde a última segunda-feira, a nova legislação que regulamenta o passe no futebol brasileiro - artigo 28 da Lei Pelé - deve causar profundas mudanças na estrutura do esporte no País. Segundo o ex-jogador do Noroeste e professor do Departamento de Educação Física da Unesp, em Bauru, João Gualberto Pires, 61 anos, a Lei do Passe, apesar de significar a liberdade do jogador, deve acabar com a ilusão no futebol, ou seja: quem não tiver talento, dificilmente conseguirá se manter em atividade por muito tempo. Ao contrário do que os mais céticos pregam, Pires acredita que a nova lei vai forçar os clubes, principalmente os chamados pequenos, como o Noroeste, a investirem mais nas suas categorias de base.
Jornal da Cidade: Quais os principais pontos da Lei do Passe e quais as influências imediatas no futebol brasileiro?
João Gualberto Pires: A Lei do Passe, que entrou em vigor no último dia 26 de março, basicamente dá direito a todo jogador que tiver o seu contrato encerrado a partir desta data, ser o dono de seu próprio passe. O clubes, porém, através de uma Medida Provisória à Lei Pelé, garantiram o direito de fazer um contrato de até cinco anos (a partir dos 16 anos) com os jogadores em seu primeiro contrato, minimizando as suas perdas. Se um jogador quiser sair, sem o consentimento do clube, terá que pagar uma indenização de até 200 vezes o valor de seus rendimentos anuais. Mas a principal mudança, no entanto, é que agora o jogador finalmente tem o direito à liberdade, podendo escolher aonde deseja jogar ao final de seu contrato.
JC: A lei não agradou muito aos clubes.
Pires: É um assunto polêmico. Clube nenhum quer perder o seu elenco. E como todos sabem, o maior patrimônio da maioria dos clubes são os passes dos jogadores. Mas já estava na hora de acontecer esta liberdade, pois toda pessoa tem o direito de escolher onde quer trabalhar e exercer a sua profissão e só o jogador de futebol ainda era vendido como uma mercadoria.
JC: Entre os jogadores, quem serão os maiores beneficiados?
Pires: Acredito que os jogadores de Seleção serão os grandes beneficiados. Estes jogadores serão disputados a peso de ouro. Os jogadores intermediários vão ter os seus contratos garantidos, porque nenhuma equipe tem mais de três ou quatro jogadores de bom nível técnico. Já os jogadores medíocres, sem talento, não vão conseguir enganar por muito tempo e os clubes não vão querer renovar contrato. Vai ser bom para muito garotos que estão iniciando, pois o clube vai preferir dar chance a um jovem talento, que ainda pode render dinheiro ao clube, do que insistir em jogador sem talento. Vai acabar a ilusão no futebol.
JC: Isso significa que o jogador terá que investir mais na sua formação?
Pires: Sem dúvida. Ele vai ter que ter uma cabeça diferente dos jogadores de hoje que pensam o meu passe é do clube e ele não vai querer me perder. É uma situação que vai forçá-lo a se dedicar mais, tanto física quanto tecnicamente. Os que não tiverem habilidade não vão ser mais iludidos e vão procurar outra profissão.
JC: Os clubes garantem que não compensará investir nas categorias de base. É verdade?
Pires: Este é o argumento dos clubes, mas quantos clubes realmente têm tradição em promover jogadores de suas categorias de base? São raros os exemplos. Na maioria dos clubes não há esse tipo de investimento. Hoje o clube revela um jogador, se empolga, mas depois esquece de dar continuidade. Aí, quando precisa de novas revelações, não tem. Além disso, os clubes vão poder usufruir dos jogadores que eles formarem por até cinco anos a partir do primeiro contrato, só depois que o atleta terá o passe livre.
JC: A questão salarial também terá mudanças significativas?
Pires: Vai acabar a estabilidade na profissão. Deve aumentar o ganho do jogador que se destacar, pois ele naturalmente terá uma boa oferta do seu clube ou de outro que queira cobrir. Já o jogador que não estiver atravessando uma boa fase, vai sofrer as consequências, tendo que procurar outro clube e aceitar a sua desvalorização.
JC: Mas esses são a maioria...
Pires: Os garotos ainda se iludem com o futebol, pois a mídia só dá ênfase os jogadores bem-sucedidos. Todos querem ser como um Ronaldinho: é isso que move o esporte e motiva a garotada. Mas a realidade é bem diferente, pois 95% dos jogadores não ganham bons salários nem têm uma estabilidade na carreira. Os jogadores, mais do que nunca, terão que aprender a administrar o dinheiro que ganham enquanto estiverem em boa fase.
JC: Essa pressão pode ser prejudicial...
Pires: Mas também pode ser positiva. Os bons jogadores sempre terão emprego garantido e com bons contratos. O profissionalismo vai aumentar e a conscientização virá com o tempo.
JC: E quais as conseqüências para o clubes pequenos, como o Noroeste?
Pires: Não muda quase nada, pois os clubes que revelam atletas sempre os vendem antes de completar dois ou três anos de clube e a lei dá a oportunidade do jogador ter um vínculo de até cinco anos. Já era assim desde que eu cheguei para jogar no Noroeste, em 1960, caso do Batista e do Toninho (que não ficaram mais que dois anos). Do Gérson, Zé Carlos, Lela, Zé Mário e tantos outros. Cinco anos é um tempo muito bom para o clube desfrutar daquele jogador revelado nas suas equipes de base. Se o Noroeste tiver a oportunidade de revelar alguns jovens valores para o profissional, não terá prejuízo.
JC: Mas faz tempo que o Noroeste não revela um jogador e vende aos grandes clubes.
Pires: Mas precisa fazer um planejamento a médio e longo prazo, pois hoje o clube não tem a menor estrutura para revelar bons talentos. Veja o caso do Claudinho, do Claudecir e do Pedrinho. Só conseguiram ganhar projeção no futebol depois que deixaram o Noroeste, quase de graça. Por que não explodiram aqui? É algo a se pensar...
JC: O trabalho que é feito no Noroeste hoje não é adequado?
Pires: Falta ao Noroeste um projeto a médio e longo prazo, que tenha continuidade. Em atividade nenhuma se consegue alcançar o sucesso de um dia para o outro. Na minha opinião o Noroeste deveria disputar a 3.ª Divisão por uns três anos e nesse tempo investir só nas categorias de base, fazendo peneiras, garimpando talentos e dando toda a estrutura necessária para formar talentos. Do contrário, vai ficar sempre neste sobe-e-desce.
JC: E o que pode ser feito?
Pires: O que falta no futebol brasileiro, não só no Noroeste, são profissionais categorizados, com visão ampla do mundo, investindo nas categorias de base. Precisa de pessoas competentes, com conhecimento do ser humano, da modalidade, de metodologias, de formas e estratégias melhor adequadas para explorar os futuros talentos. Existem muitos homens abnegados, bem-intencionados no futebol, mas poucos com competência. Pessoas como o Telê Santana, Renê Simões e Candinho, por exemplo, deveriam trabalhar nas categorias de base, para não deixar os jogadores chegarem viciados no profissional. É muito mais fácil educar e acertar em baixo do que tentar educar em cima.
JC: Além da Lei do Passe, o que mais pode ser feito para melhorar o futebol brasileiro?
Pires: Tem muita coisa para se fazer. Têm muitos empresários e dirigentes usufruindo do futebol e os profissionais ganhando pouco. Por isso acho que os clubes devem virar empresa e acabar com esse amadorismo que se vê hoje. Além disso, tá na hora de moralizar o esporte, tirando proveito destas CPIs.