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CURIOSIDADE X CONSIDERAÇÃO

Hélio de Souza
| Tempo de leitura: 2 min

É natural que a grande maioria de enfermos em longo tratamento, seja no hospital ou em casa, não goste de receber visitas sem antes melhorar a aparência. Tal vaidade sobrepesa quando a doença inflige gradativo abatimento fisionômico que pode se intensificar e atingir impressionante aspecto fúnebre. (Aí, nem com tempo de se arrumar). Pois bem, se há esse clima melindroso desde os primeiros traços do declínio físico, fica evidente qual é a real vontade do doente debilitado, sobre ficar o rosto de seu cadáver exposto à mostra pública, com os infalíveis amantes da morbidez e os célebres espantadores de moscas. A família enlutada não duvida disso, mas se comporta segundo o costume e o caixão fica aberto permitindo procedimentos inconvenientes, com clara derrota da consideração pela memória póstuma e vitória de ousada indiscrição. Não se trata aqui de censurar as múltiplas condutas impróprias cometidas nos velórios, o que seria objeto doutra matéria. O tema é a pregação unânime de um princípio, ninguém cumprir e todos aceitarem!

O velório de Tancredo Neves registrou com mais clareza do que o de Covas um exemplo em que a curiosidade indiscreta suplanta a consideração, porque nele, o cordão de isolamento manteve maior espaço entre o caixão e o público. Por tal circunstância e talvez por estar o ataúde um pouco alto, a TV exibiu, com farta reprise, boa parte dos presentes equilibrando-se na ponta dos pés para enxergar melhor o rosto do falecido. Uns chegaram a limpar os óculos ao iniciarem a passagem diante do esquife. Em outras palavras, para apreciarem bem, com que cara o defunto ficou! Mas que mal poderia isso suscitar? Ora, fica evidente o desrespeito à memória da pessoa falecida (inclusive pela permanência do caixão aberto) preceito tão clamado, mas pouco cumprido até por parentes:- não vendemos esta casa em memória da papai! É, mas a que preço? Então porque saiu da parede para o despejo, sem o menor constrangimento, aquele velho quadro (em geral uma Santa Ceia) que o velho gostava tanto? Moral da história: Quem muito prega, pouco executa! (Hélio de Souza - OAB 19.779)

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