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Periferia mostra sua força

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 5 min

Hip hop em Bauru se organiza e idealiza ONG; objetivo é unir e fortalecer o movimento que ganha cada vez mais espaço na cidade

A arte produzida fora dos estúdios, academias, conservatórios e galerias de Bauru está mais forte a cada dia. Agora, os grupos dos quatro elementos do hip hop - break, grafite, DJs e MCs - se aglutinam num projeto audacioso: a criação de uma organização não governamental (ONG) em nome do movimento.

O projeto está em fase de implementação, faltando ser batizado e registrado, com estatuto próprio ainda em debate. No entanto, reuniões semanais já vêm ocorrendo há cerca de um mês, reunindo manos e minas na república estudantil Rap Samacô, por enquanto, sua sede provisória. As reuniões são abertas, sempre aos domingos, a partir das 16 horas.

O local, além de congregar o movimento, vem promovendo apresentações e gravações independentes dos grupos de rap. Queremos mostrar a cara do hip hop em Bauru, um movimento social e cultural de resistência, diz a assistente social Andréa Pires Rocha, 24 anos, uma das idealizadoras da ONG.

Ela é autora da pesquisa Hip Hop: Cultura de Resistência que Explode no Interior Paulista, desenvolvida na Unesp de Franca, com grupos de Bauru e daquela cidade. Considero o hip hop um movimento de resistência porque diz não à cultura erudita, embora incorpore quase todas suas vertentes, como a dança, a música, a poesia e as artes plásticas, justifica Andréa. É uma cultura que não acontece nos conservatórios ou academias, mas na rua, complementa.

Segundo a relações públicas Mara Rita Oriolo de Almeida, 24, outra aglutinadora do movimento ao lado de Andréa e dos grupos de Bauru, a investida veio à tona, principalmente, após constatar que o hip hop estava vivo e forte na cidade, quando aconteceram, em janeiro deste ano, atividades relacionadas ao rap, grafite e break e na Oficina Cultural Regional Glauco Pinto de Moraes, promovidas pela Secretaria de Estado da Cultura.

As oficinas foram ministradas por nomes de peso do hip hop nacional, como Nélson Triunfo, Thaíde e Mizael e teve uma participação bastante acima do esperado, diz Mara.

A idéia é, com a criação da ONG, promover apresentações, cursos profissionalizantes, oficinas musicais e de aperfeiçoamento e discussões de textos e livros. A entidade também é vista pelos integrantes do movimento como uma arma forte contra a pobreza e a miséria, a mesma que leva crianças e adolescentes para as drogas e as ruas.

Para Mano Dé, do grupo de rap DQuebra, a criação de uma ONG pelo hip hop vai unir os grupos da cidade. Acima de tudo está a união de todos os grupos, todos estão aprendendo juntos, afirma.

Segundo ele, a cidade já conta com muitos grupos de hip hop conhecidos e outros novos estão surgindo, como o J.Gua Bru, do Parque Jaraguá, Reação Mental, do Jardim Godoy e D+MCs, que segue a linha gospel.

Para H.Vivo, do grupo Profetas de Rua) quanto mais gente, melhor. Quanto mais o punho estiver fechado, melhor para bater no sistema, argumenta.

Quatro elementos

Um primeiro evento em prol da criação da ONG ocorre neste sábado, a partir das 20 horas, na Rap Samacô. A Festa dos Quatro Elementos será a primeira de uma série e trará, nesta primeira edição, os grupos Código de Rua, Profetas de Rua e Órfãos do Sistema. O ingresso tem preço simbólico: R$ 1,00.

Ainda no sábado, durante o dia, os grupos de break UH2 e Sonic Bru Break farão apresentações no Calçadão da Batista, divulgando o evento.

Serviço

Festa dos Quatro Elementos, em prol da criação de ONG pelo hip hop em Bauru, sábado, dia 7, 20h, na Rap Samacô, rua Saint Martin, 13-17. Ingressos: R$ 1,00.

Grupos se apresentam hoje no Arena

Para quem quer conferir a força do movimento hip hop de Bauru, a Secretaria Municipal de Cultura promove hoje, a partir das 20 horas, uma apresentação aberta ao público de oito grupos da cidade no Centro Cultural, em mais uma edição do Projeto Arena.

Os grupos de rap que sobem ao palco são o DQuebra, Desacato Verbal, Força Interior, Órfãos do Sistema, Perbone, Faces do Gueto e Código de Rua, além da dança do Sonic Bru Break.

O Profetas de Rua vem com Mano Dênis, Truck Jay e H.Vivo. Os integrantes se conheceram nas ruas, onde andavam de skate, e decidiram levar aos microfones a realidade que conhecem. O hip hop me ajudou a sair das drogas e das ruas. Eu morei um ano e meio nos mocós (casas abandonadas) e experimentei da cola de sapateiro ao crack. Nesta época comecei a ouvir rap, curtir o som do Thaíde, conta Dênis.

As músicas próprias denunciam a realidade suburbana. Segundo H.Vivo, esta realidade é a das drogas, da miséria, da pobreza, da molecada nas ruas, da falta de emprego, do prato vazio, da bala que sai do revólver....

Outro grupo é o Desacato Verbal, que está há mais de uma década no hip hop. Em 1993, produziu o primeiro disco com músicas próprias e agora, unido ao Força Interior, concentra-se num CD independente produzido pela Samacô.

O CDR - Código de Rua é também um dos grupo mais tradicionais da cidade, com quase dez anos de estrada. Fundado em 1992, conta com Mano Li, Mano Di e DJ Kleber para denunciar as injustiças sociais que testemunham.

O grupo já se apresentou em vários locais da cidade como o Sesc, a P2 (penitenciária) e no próprio Arena. O primeiro CD demo, gravado ano passado, leva o nome de Periferia. Os demais grupos seguem a mesma linha, apresentando músicas próprias que falam da realidade das ruas e de Bauru.

Mano Dênis, do Profetas de Rua, vê uma atitude positiva na apresentação de hoje, no Arena. Isso serve para mostrar que o hip hop bauruense não gera indiferença entre os grupos e a união existe. Periferia é periferia em qualquer lugar, completa H.Vivo.

Serviço

Projeto Arena, com grupos de hip hop, hoje, 20h, no teatro de arena do Centro Cultural, grátis. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.

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