Geral

Velho constrangimento

(*) Antonio Delfim Netto
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Houve um evidente exagero, na semana passada, no modo como reagiram os agentes do mercado em relação às expectativas de inflação, após a decisão do Banco Central de elevar a taxa básica de juro para 15,75%. Não foi muito feliz o Banco ao comunicar as razões da medida, o que resultou numa preocupação, a meu ver excessiva, com o comportamento da inflação neste ano. Existe uma certa incompreensão a respeito da meta de inflação: ela não é um número fixo de 4%, mas um intervalo entre 2% e 6%, com um ponto central de 4% . O problema é que, após um período em que as expectativas se mantiveram estáveis em torno dos 4% , foi preciso corrigi-las para um nível ligeiramente superior . Mas isso não significa que o objetivo de permanecer naquele intervalo tenha que ser abandonado. Com a economia desindexada, sem a correção monetária, a projeção de uma inflação de 4,8 % é plenamente aceitável. Na realidade, a inflação só poderia crescer se houvesse um grande distanciamento entre oferta e procura, com a procura crescendo muito mais depressa que a oferta e isso claramente não está acontecendo.

O fato que não foi bem explicado é que a decisão de subir os juros não foi tomada apenas para manter a inflação sob controle. Ao elevar os juros, o Banco Central pretende conter um pouco o ritmo de crescimento da economia, preocupado com a evolução das contas externas do País. O crescimento mais rápido da economia está produzindo um aumento no déficit em conta-corrente que precisa ser financiado. Novamente, estamos diante do velho problema do constrangimento externo limitando as possibilidades de crescimento do País: construímos um enorme passivo externo graças à antiga política cambial; não conseguimos reverter os saldos negativos no comércio exterior; e uma conjuntura externa menos favorável reduziu as perspectivas de ingresso de investimentos diretos neste ano.

A ação do Banco Central foi preventiva, diante da possibilidade de que o financiamento do déficit em conta-corrente se tornasse problemático com o atual ritmo de crescimento do PIB. Ao elevar as taxas de juro, o governo emite o sinal de que precisa reduzir o ritmo de crescimento para atender a dois objetivos: conter o aumento do déficit em conta-corrente e cortar a possibilidade de uma inflação de demanda. É evidente que a razão principal não foi o risco de uma alteração do núcleo da inflação, mas sim o risco de problemas nas contas externas. Do ponto de vista macro, talvez não houvesse alternativa. Do ponto de vista da microeconomia, embora não se imagine que o movimento deva se repetir, a elevação dos juros tem conseqüências graves em todo o setor privado da economia: inibe o aumento da produção, retarda investimentos e faz retornar a ameaça de crescimento do desemprego.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP.E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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