Geral

O centauro e o rei

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Tem gente que me faz lembrar o centauro que Nelson Rodrigues gostava de mencionar: metade cavalo e a outra metade também. Como aquele meu contemporâneo de faculdade. Todas as vezes que topo com ele, dá as suas patadas, distribui coices e até relincha de satisfação ao falar mal dos outros. Antes de desaparecer de volta a um dos infernos de Dante, de onde nunca deveria ter saído, depois das pichações ainda deixa seus dejetos no pavimento. Como qualquer muar. Adora me acusar de falta de coragem editorial porque não dou guarida às suas opiniões neste espaço dominical.

Tentei desviar na última vez que o vi na calçada da Cervejaria. Inútil. Intrometeu-se no caminho, cerceando-me o passo. Acho que se cansou de assuntos paroquiais. Agrediu o Pelé, logo de cara, a quem chamou de rei de araque.

Nos tempos de escola meu interlocutor indesejado ganhou o apelido de 138, número do artigo do Código Penal que tipifica o crime de calúnia. Quando alguém mostra desinteresse pela sua conversa, agarra pelo braço, fala ao pé do ouvido, borrifa perdigotos na cara da vítima. Disse a ele que não fizesse pré-julgamento. Pelé era um herói nacional com projeção no mundo inteiro. O Brasil já é carente desses olimpianos que ajudam à preservação da nossa identidade, enriquecem o imaginário de pobres e ricos e servem de exemplo cívico para as novas gerações. De nada adiantou. O homem estava inconformado com a foto estampada nos jornais do Pelé abraçado com Ricardo Teixeira. Os dois viviam às turras, agredindo-se mutuamente, e dizendo cobras e lagartos um do outro. Pelé sempre foi incisivo em seus pronunciamentos contra Teixeira e Havelange, a dupla diabólica do nosso futebol.

Fui obrigado a dar razão ao 138. Foram inúmeras e degradantes as desfeitas de Havelange a Pelé, quando dirigia com mão de ferro os destinos do futebol internacional. Havelange não se utilizava de meios termos. Baixava mesmo a borduna no rei. Nas grandes e refinadas recepções da Fifa, tantas e quantas vezes Pelé foi humilhado. Isto é: nem convidado foi. Havelange chamava Platini, Cruyff, Maradona para fazer os sorteios das chaves da Copa do Mundo. O brasileiro permanecia do lado de fora à espera dos jornalistas. Contratado pela Mastercard, a empresa o obriga a comparecer aos grandes eventos, dar entrevistas e fazer relações públicas. Tinha que fazer isso na rua.

Havelange tomou as dores do genro, que entrou em atrito com Pelé depois que o craque ingressou em juízo para receber milionária indenização da CBF. A entidade havia usado indevidamente o seu nome e imagem em um álbum de figurinhas por ela patrocinado. Futebol é mesmo uma caixinha de surpresas. Até fora do campo. De repente, Pelé, Teixeira e Havelange decidiram se unir para salvar o futebol brasileiro. Deu nos jornais, com foto em cores. A televisão mostrou.

Garante o 138 que Pelé e Teixeira fizeram um acordo para dividir a indenização milionária no caso das figurinhas. Pelé idolatra dólares. Desviou 400 milhões das verdinhas para as Ilhas Cayman. Deu o cano no Imposto de Renda - caluniou. Fala-se em quebra de sigilo bancário. A verdade é que a CPI do futebol até agora não deu em nada. Agitou, ameaçou céus e terras e, pelo jeito, vai ficar nisso. Por que então crucificar logo o nosso atleta do século, sem a prova provada de qualquer ato de corrupção ou pecadilho fiscal? De nada adiantou ponderar. O centauro voltou com as patas para lembrar o caso da filha nascida de uma aventura amorosa do jogador, quando jogava pelo Santos. A moça, mesmo comprovando a paternidade pelo teste de DNA, continuou rejeitada. Depois, vem esta união com Havelange e Ricardo Teixeira, com a intenção clara e insofismável de esvaziarem as CPIs do Congresso Nacional. Ídolo de pés de barro - sentenciou o caluniador.

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