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América Latina: a dolarização inevitável?

(*) Hubert Escaith
| Tempo de leitura: 3 min

A globalização dos intercâmbios comerciais e o rigor da competição nos mercados internacionais trouxeram como conseqüência uma uniformização dos bens e serviços consumidos no mundo. Algo semelhante está em gestação no universo das moedas nacionais e alguns especialistas profetizam que a diversidade atual vai ser reduzida a três divisas principais: o dólar, o euro e o yen. No caso da América Latina, este processo já está em andamento e em muitos países a moeda de referência é cada vez mais o dólar norte-americano.

Os avanços da integração regional também trazem água ao moinho da integração monetária. Quando as relações comerciais aumentam, os benefícios de compartilhar uma mesma moeda com os principais sócios econômicos surgem naturalmente, enquanto os custos da volatilidade cambial tornam-se mais altos. De fato, as turbulências financeiras e as políticas de austeridade postas em marcha para defender as moedas nacionais não apenas custaram dois pontos de crescimento para a região em 1998; além disso, o valor das exportações intra-regionais na área da Aladi diminuíram 6%, quebrando uma tendência de expansão que já tinha 12 anos. Para muitos, a perspectiva de se formalizar no ano 2005 uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca) reforçará os laços comerciais com o mercado dominante dos Estados Unidos e acelerará a dolarização da região. No âmbito regional, as mudanças bruscas de paridade monetária entre os sócios comerciais estão tendendo a assemelhar-se mais e mais a práticas de concorrência desleal, à medida que se aprofundam os vínculos econômicos entre países vizinhos. As recentes tensões bilaterais que surgiram no Mercosul ou na Comunidade Andina devidas às acusações de dumping ilustram os custos políticos que podem acompanhar uma desvalorização importante.

Os governos que desejarem adotar esquemas de câmbio estável devem assegurar a solvência financeira e aproveitar os tempos de bonança para acumular reservas. Para a AL, isto requer acabar com a prática atual de aumentar os gastos públicos em períodos de grandes ingressos fiscais ou de acesso fácil ao crédito externo. Da mesma forma, para prevenir carências de liqüidez nos tempos difíceis, pode-se reforçar a supervisão bancária e aumentar as obrigações de capital próprio e de reservas de liqüidez, em particular quando se intermediam capitais de curto prazo. Manter um superávit fiscal, acumular fundos de contingência, estabilizar e consolidar a dívida externa para ampliar os prazos de amortização perfazem as condições de uma dolarização bem-sucedida na AL. Mas os países que podem cumprir com estes requisitos terão poucos incentivos para adotar o dólar e sujeitar sua economia a decisões monetárias sobre as quais não teriam qualquer influência, já que gozariam de uma moeda nacional confiável que poderiam deixar flutuar livremente.

Se os principais países latino-americanos - em especial os do Mercosul e da Comunidade Andina, que têm uma maior diversificação de seu comércio internacional do que o México ou a América Central - conseguissem convergir em direção a esta combinação de políticas macroeconômicas, existiria a possibilidade de se estabelecer um acordo monetário latino-americano ao estilo do europeu e de se promover uma moeda comum.

Neste cenário, as relações entre a América do Sul e a América do Norte dentro da Alca seriam semelhantes às que existem hoje em dia entre os países da Europa continental e a Grã-Bretanha: integração comercial e independência monetária. É provavelmente o melhor dos cenários, pelo menos para a América Latina.

(*) Hubert Escaith é chefe da Unidade de Análise Econômica da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e Caribe - Cepal.

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