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Crise vai exigir mudança de hábitos

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 10 min

Embora haja a ameaça de racionamento, muitos acreditam que a população vai economizar a partir da alta da energia. Com uma conta maior no final do mês, os usuários estarão mais atentos

Para quem nunca se importou em deixar lâmpadas acesas desnecessariamente, que deixa a geladeira aberta enquanto lambisca ou que demora no banho o bastante para ficar com os dedos enrugados, aí vai um recado: seus hábitos anticonservacionistas estão com os dias contados. Muito em breve - antes do que se espera -, isso custará caro ao ponto de exigir novas atitudes.

A crise no setor energético cogita uma fase de racionamentos, cujas condições ninguém sabe como serão, e marca o início, ainda que forçado, de novas posturas por parte dos consumidores. A população só vai se dar conta da gravidade do problema quando faltar energia dentro de casa, mas toda crise tem lá seu lado bom. Nesse caso, as pessoas vão ter de aprender na marra a evitar o desperdício, ainda que isso contrarie a cultura do brasileiro, comentou Carlos Augusto Ramos Kirchner, diretor-adjunto da regional-Bauru do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), entidade que vem exigindo mudanças no processo de privatização da Cesp.

Há quem acredite que o governo, antes de adotar medidas de suspensão, vai lançar mão de uma velha e infalível estratégia: onerar o produto para obter economia. O brasileiro só entende as coisas quando mexem no seu bolso. Temos aí o exemplo do propalado racionamento de combustível. Faltou gasolina? Não, mas o preço foi nas alturas e a população foi obrigada a diminuir o consumo. Pessoalmente, acho que o primeiro passo será o aumento da energia, que vai fazer explodir o valor das contas de luz e forçar o povo a economizar, prevê José Ângelo Cagnon, professor-doutor e chefe do Departamento de Engenharia Elétrica da Unesp-Bauru.

As ações conservacionistas, aliadas obviamente aos investimentos que há tempos o setor energético necessita, são vistas como essenciais nos dias de hoje. E elas não devem ficar restritas ao ambiente doméstico, mas se estender ao setor público, ao comércio e à indústria. Dentro de casa, há muito o que fazer, a começar pelo chuveiro, denominado o devorador de energia e responsável por 40% do consumo. Além de utilizá-lo com bom senso, o ideal seria optar por aparelhos de menor potência. Durante muitos anos, praticamente todos os chuveiros elétricos tinham 2.500 watts de potência. A atração irresistível do consumidor por potência, entretanto, fez com que o comércio inventasse aparelhos cada vez menores - e com designer moderno - e cada vez mais potentes. Hoje, raramente se encontra um deles com potência inferior a 4.400 watts.

O governo demonstra total desatenção a esse aspecto. De acordo com Kirchner, o Seesp apresentou à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) uma proposta para mudar a tendência do mercado, mas não foi ouvido. Eu entrei em contato com o pessoal da Lorenzetti e da F.A.M.E. para saber o real motivo do constante aumento da potência. Eles informaram que não há nenhuma razão técnica. É tudo uma jogada puramente comercial. Quando maior a potência, maior é a venda, constatou Kirchner.

O poder público também deve se preocupar com ações conservacionistas. Em Bauru, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) saiu na frente e, com apenas uma ação de mudança de contrato, conseguiu uma economia de 14%. Poderíamos chegar a 50% se conseguíssemos desligar os poços nos horários de ponta (das 18 às 21 horas). O trabalho realizado no DAE nos alertou para a necessidade de aumentar a capacidade de reservação e isso foi feito. Se houvesse um racionamento hoje, as conseqüências para a população não seriam tão prejudiciais, disse Cagnon.

O Departamento de Engenharia Elétrica, através da Fundação para o Desenvolvimento de Bauru (Fundeb), vem oferecendo serviços de consultoria e assessoria nos moldes do trabalho realizado com o DAE. O setor industrial é o principal alvo da iniciativa, mas Cagnon lamenta a falta de interesse.

Uma alternativa que pode livrar ou pelo menos minimizar as conseqüências da crise energética no setor industrial é denominada co-geração. Em suma, significa a utilização dos próprios sub-produtos ou resíduos na produção de energia. As usinas de açúcar já vêm trilhando nesse caminho para suprir a energia gasta na produção e, em alguns casos, já excedendo a geração para oferecer ao sistema energético. A Usina da Barra, por exemplo, está investimento pesado para gerar 18 megawatts, dos quais oito pretende vender. O bagaço da cana, que antes ninguém queria, tem preço de ouro hoje. O resíduo é jogado nas caldeiras para produzir vapor e gerar energia. De repente, teremos num futuro o álcool e o açúcar como sub-produtos, profetizou o professor.

As características das indústrias de Bauru não são tão animadoras em termos de co-geração, ou seja, tudo indica que as empresas estarão à mercê das concessionárias e do abastecimento por elas disponibilizado. Dessa forma, o setor industrial local poderia lançar mão das ações conservacionistas, avaliando seus contratos tarifários, instalações elétricas e equipamentos passíveis de desligamento nos horários de ponta, e investindo no treinamento de pessoal, entre outras medidas viáveis e eficazes. As indústrias de Bauru terão que se preparar e só ainda não o fizeram porque o preço da tarifa está baixo. A partir do momento em que o produto ficar caro, a preocupação vai existir certamente, porque o empresário sentirá os efeitos no bolso, previu Cagnon, que defende investimentos urgentes na geração, transmissão e distribuição de energia.

Uso eficiente

Quanto maior o desperdício de energia, maior é o preço que você e o meio ambiente pagam por ela. Ao usar a energia elétrica de maneira correta, você economiza na conta de luz e ainda ajuda o País a preservar suas reservas ecológicas e, conseqüentemente, a vida do Planeta. Existem 3 maneiras de usar a energia eficientemente:

Hábitos inteligentes: use os equipamentos elétricos de maneira correta, como está indicado no manual.Equipamentos eficientes: na hora de comprar, verifique se o equipamento tem o selo de eficiência Inmetro/Procel. É este selo que certifica que o aparelho consome menos energia.Projetos inteligentes: ao reformar ou projetar sua casa, utilize algumas soluções criativas que podem ajudar na redução do seu consumo de energia. Projete os ambientes utilizando o máximo de luz natural, paredes pintadas com cores claras e com melhor isolamento térmico, ventilação adequada, circuitos elétricos bem dimensionados e a forma de aquecimento de água mais adequada à sua necessidade.

Tire suas dúvidas

É necessário fazer o aterramento na minha casa?Sim. O aterramento estabiliza a tensão em caso de sobrecarga de energia no circuito elétrico, evitando o curto-circuito nos aparelhos. Isso acontece, principalmente, devido à queda de raios próximos à rede elétrica.

A instalação em 220 volts gasta menos energia?Não. É o tempo de uso e a potência dos eletrodomésticos que determinam maior ou menor consumo de energia, e conseqüentemente o valor da sua conta de luz, como você pode ver na página seguinte. Mas é importante lembrar que acidentes e choques na tensão 220 volts são mais perigosos.

É verdade que colocar garrafas dágua sobre a caixa do medidor economiza energia?É mentira. E, além disso, você poderá ter até prejuízo, caso essa água vaze para dentro da caixa do medidor causando um curto-circuito.

Devo tirar os meus aparelhos da tomada na hora de chuva?Sim. Pois se houver uma sobrecarga por causa de um raio, a rede elétrica, os cabos telefônicos e mesmo os cabos de TV por assinatura podem conduzir corrente até os aparelhos que, mesmo desligados, podem ser danificados.

Como posso calcular o meu consumo de energia?O quanto você gasta de energia elétrica numa casa depende da potência dos equipamentos e do tempo de uso de cada um deles. Neste exemplo, vamos calcular o consumo do chuveiro, que é um equipamento que consome muita energia. Consideremos um chuveiro de 4.000 W. Se ele ficar ligado por 1 hora, a energia consumida será de 4.000 W x 1h, o que representa um consumo de 4.000 Wh, ou seja, 4 kWh, pois 1 kW é igual a 1.000 W. Se todos os dias do mês você usar o chuveiro pelo mesmo tempo, então, ao final dele, seu consumo com banho será de 4 kWh x 30 dias, o que será igual a 120 kWh. Para saber quanto você gastará com esse chuveiro durante o mês, basta multiplicar 120 kWh de energia consumida pelo valor do kWh que está em sua conta de luz.

Economize energia

Chuveiro elétrico Representa de 25% a 35% do valor da sua conta. Siga estas dicas:

Nos dias quentes, coloque o chuveiro na posição verão. Nesta posição, o consumo será cerca de 30% menor do que na posição invernoDeixe o chuveiro ligado somente o tempo necessário para o banho. Os banhos demorados custam muito caroLimpe periodicamente os orifícios de saída de água do chuveiroNunca reaproveite uma resistência queimada. Isso provoca o aumento do consumo e coloca em risco a sua segurança.

Ar-condicionadoRepresenta de 2% a 5% do valor da sua conta de luz.Instale o aparelho em local com boa circulação de arMantenha portas e janelas fechadas, evitando a entrada de ar do ambiente externoLimpe os filtros com freqüência, pois a sujeira impede a livre circulação do ar e força o aparelho a trabalhar maisDesligue o ar-condicionado quando você for sair do ambiente por muito tempo.

LâmpadasA iluminação representa de 15% a 25% do valor da sua contaEvite acender qualquer lâmpada durante o dia, use mais a iluminação natural, abrindo janelas, cortinas, persianas e deixando a luz do dia iluminar sua casaApague sempre as lâmpadas dos ambientes desocupadosUtilize somente lâmpadas 127 ou 220 volts, compatíveis com a voltagem da rede de distribuição. Lâmpadas de voltagem menor do que a da rede duram menos e queimam com facilidadeNos banheiros, cozinha, lavanderia e garagem instale, se possível, lâmpadas fluorescentes. Elas iluminam melhor, duram mais e gastam menos energia. Para você ter idéia, uma lâmpada fluorescente (tubular, compacta ou circular) de 15 a 40 watts ilumina tanto quanto uma incandescente de 60 watts. Se, para iluminar sua cozinha, você utiliza uma lâmpada incandescente de 100 watts, ao substituí-la por uma fluorescente de 32 watts (circular), pode economizar dois terços da energia e ter uma durabilidade de 5 a 10 vezes maior. O único inconveniente é o preço das lâmpadas fluorescentes, mas no fim das contas, compensa.

GeladeiraÉ outro eletrodoméstico que consome muita energia, contribuindo com 25% a 30% do valor da sua conta de luz. Instale a geladeira em local bem ventilado, desencostada de paredes ou móveis, longe de raios solares e fontes de calor, como fogões e estufasNunca utilize a parte traseira da geladeira para secar panos e roupasAjuste o termostato de acordo com o manual de instruções do fabricanteDegele e limpe a geladeira com freqüênciaNão se esqueça de manter as borrachas de vedação da porta em bom estadoGuarde ou retire alimentos e bebidas de uma só vez. Assim, você não ficará abrindo a porta da geladeira sem necessidadeNunca coloque alimentos quentes ou recipientes com líquidos destampados na geladeira, pois isso exige um esforço maior do motorNa hora de comprar uma geladeira nova, prefira um modelo de tamanho compatível com as necessidades de sua família. Lembre-se sempre de verificar o consumo declarado pelo fabricante e também se a geladeira tem o selo de economia de energia Inmetro/Procel.

TelevisorRepresenta de 10% a 15% do valor da sua conta de luz.Evite deixar a TV ligada sem necessidadeTome sempre cuidado para não dormir com o aparelho ligado

Máquina de lavar roupaRepresenta de 2% a 5% do valor da sua conta de luz.Procure ligar a máquina só quando ela estiver com a capacidade máxima de roupas indicada pelo fabricante. Isso vai ajudar você a economizar energia e águaLimpe freqüentemente o filtro da máquinaUtilize somente a dosagem correta de sabão indicada pelo fabricante, para que você não tenha que repetir a operação enxaguarLeia com atenção o manual do fabricante e aproveite ao máximo a capacidade da sua máquina de lavar roupa

Ferro elétricoRepresenta de 5% a 7% do valor da sua conta de luz. Acumule o maior número de peças de roupa para ligar o ferro o mínimo de vezes. O aquecimento do ferro também consome muita energiaComece a passar a roupa sempre pelos tecidos que exigem temperaturas mais baixas. Ferros automáticos têm indicadores de temperatura para cada tecidoSempre que você precisar interromper o serviço, não se esqueça de desligar o ferro. Assim você poupa energia e ainda evita o risco de acidentes.

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