Plano elaborado pela administração pretende substituir 25 mil lâmpadas e obter uma economia estimada, extra-oficialmente, em R$ 480 mil anuais. Investimento depende de recursos governamentais
O setor de Economia e Finanças não informa, mas os gastos da Prefeitura de Bauru com energia elétrica ultrapassam a casa de R$ 1,2 milhão anualmente. Com o propósito de reduzir o valor da fatura e se precaver frente à crise que ameaça racionar o abastecimento, a Administração vem adotando medidas internas de contenção e planejando a racionalização da iluminação pública. O projeto, que deve ser concluído até o final de maio, prevê a substituição de 25.000 lâmpadas, num investimento estimado em R$ 2,15 milhões. O que não se sabe, porém, é quando ele sairá do papel.
O assessor de Gabinete e coordenador do planejamento, Braz Melero, conta que o projeto se faz necessário frente a situação do setor de iluminação pública, cujo último incremento - trocou-se as dispendiosas lâmpadas incandescentes pelas de vapor de mercúrio - ocorreu há mais de 15 anos. Não vamos dizer que o setor nunca passou por um planejamento, mas o que fizeram era recomendável e adequado para outra época. Não vale mais para os dias de hoje, até porque a cidade cresceu muito, comentou.
O projeto em questão é ousado por sua amplitude - objetiva a substituição de nada mais nada menos do que 78% das 32 mil lâmpadas existentes no município. Na troca, os 25 mil pontos receberão lâmpadas de vapor de sódio, mais eficientes tanto no que tange à luminosidade quanto ao consumo. Uma lâmpada de 100 watts de vapor de sódio (aquelas de cor amarela), por exemplo, tem mais poder de iluminação do que uma de vapor de mercúrio de 125 watts. A potência, obviamente, encarece o produto, mas todos são unânimes em dizer que o investimento compensa e se paga em pouco mais de dois anos.
A estimativa oficial de qual seria a economia com a substituição ainda não foi calculada, mas ela deve ser significativa se considerado o fato de que as lâmpadas de vapor de sódio são minoria nos postes públicos. Hoje, são apenas 7.200 delas contra 24.700 de vapor de mercúrio e, segundo cálculos extra-oficiais, o consumo poderia cair até 40% se a troca não alterasse o grau de iluminação.
Além dos benefícios em termos de eficiência, economia e longevidade - a vida útil de uma lâmpada de vapor de sódio é de 24 mil horas -, o planejamento leva em conta estudos que irão garantir mais conforto e segurança à população. Envolvendo a participação da CPFL, Polícia Militar, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e Secretaria Municipal de Educação, o projeto vem sendo elaborado de forma a atender necessidades negligenciadas.
A polícia, por exemplo, vem opinando para que pontos onde a criminalidade é reincidente ganhem boa iluminação, da mesma forma em que a Emdurb indica as paradas de ônibus carentes de iluminação, circunstância que vem favorecendo os assaltos a passageiros e motoristas. A participação da Secretaria da Educação também é importante na medida em que requer atenção às localidades mal-iluminadas próximas a escolas. É um plano realmente integrado que visa acabar com os problemas do município em relação à iluminação, resumiu Melero.
Para pôr em prática o projeto, a administração de Bauru depende de recursos governamentais. Pelo menos duas fontes poderão viabilizá-lo: o Plano de Segurança Nacional, que reconhece a escuridão como ingrediente potencial da criminalidade, e o Programa Reluz, que envolve a participação do Governo Federal, Prefeitura e concessionária. No primeiro, o município fica isento de gastos; já no outro, fica responsável por 25% do investimento, juntamente com o Estado e a empresa distribuidora. O valor a ser pago pode ser financiado. Somente depois de apresentar o projeto é que a Prefeitura saberá se e quando fará jus aos recursos em questão.
A curto prazo
Enquanto aguarda a concretização do projeto de melhoria da iluminação pública, a Prefeitura promove alguns investimentos tímidos para levar a energia elétrica a casas da periferia desprovidas do serviço. Até o meados do ano passado, 301 residências careciam da rede, mas o déficit atualmente atinge apenas 92 famílias. Segundo Braz Melero, até o final desde ano todas terão o benefício, se é que energia elétrica pode sair do âmbito da necessidade para ser denominada um benefício.
Parceria de luz
Cientes e comunicados de que a Prefeitura não dispõe de recursos próprios para estender a rede de energia, proprietários de lotes e empreendedores da rua José Vicente Aiello (via que passa pelo Cemitério do Ypê, BTC de campo e vizinhança) resolveram partir em busca da luz.
A Prefeitura participou com o projeto e os gastos, orçados em R$ 23 mil, serão cotizados entre os particulares interessados.
Apesar de estar projetada para atender a uma vontade setorizada, a iluminação no local contemplará moradores do Parque das Nações. Conseguimos que eles topassem pagar a rede até lá, disse Melero. A atitude, no entanto, deve ser entendida mais como um agradecimento antecipado à Prefeitura do que como uma postura samaritana. É de conhecimento público que os loteadores daquela região estão pleiteando a ampliação do perímetro urbano para fins comerciais, o que pode explicar a cárita postura.
Como estão os bairros
A carência de melhores níveis de iluminação em Bauru é bastante pulverizada. Nos bairros mais ricos, obviamente, o problema é quase inexistente, deixando claro que, em algum tempo passado, alguém privilegiou as áreas nobres em detrimento das periféricas. Com exceção do Jardim Manchester, onde os moradores aguardam a chegada da energia desde os anos 60, pode-se dizer que todos os bairros têm lá seus problemas, em menor ou maior escala, é claro.
O raio-x que a Prefeitura tem da rede de energia elétrica, por exemplo, revela a existência de pontos escuros - aqueles onde há postes, mas não há braços ou lâmpadas -, com destaque para os parques Viaduto, Santa Edwirges e Bauru. A Bela Vista, embora não tenha focos escuros, apresenta problemas em virtude do esgotamento das lâmpadas, que foram perdendo o poder de luminosidade com o passar dos anos.
No Jardim Pagani, também não se tem o nível adequado de iluminação, mas por conta da mistura de lâmpadas de sódio com as de mercúrio, ainda imperantes no bairro. O Jardim TV e o Núcleo Gasparini, bem como o Bom Jesus e o Jardim Godoy, sofrem, por sua vez, com a escuridão no trecho que os une.
Bom exemplos de adequada iluminação, por sua vez, podem ser verificados nas ruas do Higienópolis, nos loteamentos fechados e recém-construídos e no Altos da Cidade - neste, a iluminação acaba deixando a desejar por conta das antigas e grandes árvores plantadas nas calçadas.
Acostumados com o escuro
Se Bauru vier a sofrer com o racionamento de energia elétrica, haverá quem nem perceberá o fato. Trata-se dos moradores do esquecido Jardim Manchester, na Zona Sudeste, que convivem desde a criação do bairro, ainda nos anos 60, com a escuridão. Para eles, acostumados a cozinhar e esquentar água em fogões a lenha, viver sem a indispensável - para nós - geladeira e outros eletrodomésticos prodigiosos, apagões e uma eventual suspensão no fornecimento não farão qualquer diferença.
A Prefeitura vem tentando resolver o problema das 80 famílias que residem no bairro junto ao loteador responsável, mas as negociações até o momento não surtiram resultados. A Administração quer que o empreendedor arque com a instalação da rede de energia, orçada em R$ 82 mil, mediante a oferta de algumas concessões, como o abatimento de impostos. No início deste ano, acordou-se um prazo para o acerto, mas o responsável não compareceu e nem sequer enviou satisfações.