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A ameaça de racionamento de energia pode mudar o hábito dos consumidores. Com a promessa de altas no mercado os usuários terão que aprender economizar.

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

O desabastecimento energético no Brasil, um problema visto como impossível de acontecer num País onde a riqueza hidrográfica é inesgotável, está prestes a atingir a população. As notícias de racionamento amedrontam e não é para menos. Ninguém sabe ao certo se passaremos a conviver diariamente com a escuridão ou se iremos pagar muito caro pela energia elétrica que consumimos. E seja como for, as medidas afetarão todos, do rico ao pobre, da grande indústria ao pequeno empresário, das redes nacionais às pequenas casas de comércio.

De repente, seremos forçados a vivenciar os tempos de nossos avós, quando se lia à luz das lamparinas e se reunia para conversar por falta da televisão. Olhando assim, o escuro nem parece tão ruim, mas as conseqüências podem ser funestas. Sem energia para produzir, as indústrias teriam de replanejar seu funcionamento, reduzindo - quem sabe - o quadro de funcionários para compensar as interrupções. As ruas ficariam escuras e o trânsito, caótico, sem falar da segurança pública, que ficaria totalmente fragilizada na escuridão.

É claro que as situações aqui colocadas são hipotéticas e podem nunca se concretizar, mas a crise existe e realmente ameaça o conforto, a economia e a qualidade de vida de todo o País, de todos os Estados, cidades, enfim, do seu bairro.

A crise do setor energético não pode, como já se tentou, ser atribuída a São Pedro, embora a intervenção do santo possa colaborar com o aumento das reservas. A raiz do problema está na falta de investimentos que o setor vem amargando desde 1986, quando as atenções estavam todas voltadas para a usina de Itaipu. Os US$ 25 bilhões que eram esperados para incrementar a geração, transmissão e distribuição de energia não vieram. O problema só não foi sentido nos anos que se seguiram porque a recessão econômica advinda com o governo Collor de Mello retraiu o consumo.

A explosão consumista verificada após o plano de estabilização econômica, no entanto, colocou o setor energético em alerta. Uma grande massa da população, antes distante do mercado, passou a adquirir produtos graças aos pagamentos a longo prazo. Eletroeletrônicos como televisores, videocassetes, fornos microondas, geladeiras e outras dezenas de aparelhos invadiram todas as faixas de residências e elevaram de forma generalizada os gastos com energia elétrica.

Mesmo assim, os investimentos não apareceram. A situação piorou ainda mais com o processo de privatizações - cujo mérito se deveriam ou não ocorrer não está sendo discutido aqui -, que instalou de vez o desmantelamento no setor. O governo, ao invés de manter-se irredutível na cobrança de investimentos, acabou por pajear as empresas privadas que entraram no sistema. E as autoridades governamentais continuam se mostrando desatentas à questão.

A nova etapa de venda da Cesp, por exemplo, prevista para o mês de maio, deve incorrer no mesmo erro. O edital de privatização impõe aos potenciais compradores regras muito amenas que, num futuro não distante, serão sentidas pela população. A exigência estabelece um aumento de 15% na capacidade instalada em um período de oito anos, mas o crescimento de consumo e demanda vem somando, só em um ano, 5,2%. O ideal, portanto, seria exigir investimentos capazes de elevar a capacidade em 41,6% no período. O agravante é que a Cesp deixará de ser uma concessionária do serviço público para se tornar uma produtora independente de energia, o que retira toda sua responsabilidade perante as carências sociais.

O Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) é uma das entidades que vêm coordenando ações contra os termos atuais do edital de venda. A idéia é conseguir, com o apoio de deputados e outras classes organizadas, inserir no edital uma cláusula que obrigue o futuro controlador da Cesp a realizar todos os investimentos necessários. A mobilização de toda a sociedade nesse sentido se faria essencial para garantir conseqüências menos desastrosas para os usuários do sistema.

Mas não se pode atribuir a crise do setor energético somente à negligência do governo ao longo das últimas duas décadas. A população também tem sua parcela - e não pequena - de culpa. Mais pela falta de educação do que por vontade própria, a sociedade continua alheia à economia de energia, desperdiçando-a com longos banhos, luzes desnecessariamente acesas e outros hábitos pouco adequados. Mas esse perfil promete mudar, e na marra. O mercado energético promete altas significativas que vão fazer a diferença na conta mensal. Mais uma vez - como já aconteceu com a gasolina -, vai ser apertando o bolso que os usuários vão aprender a economizar.

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