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Mulheres: Entre o fogão e a carreira?

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

É até lugar comum afirmar que as mulheres estão cada vez mais avançando no mercado de trabalho. Isso não é um fenômeno recente nem exclusivo de alguns países apenas, é mundial e já há algum tempo. Mas o caminho que percorre a mulher que se transforma de dona de casa em competidora no mercado de trabalho está prestes a desmoronar. Pelo menos é o que pensa a jornalista e roteirista carioca Cátia Moraes no seu livro Absolvendo a Cinderela ou O Direito de Voltar a Ser Mulher, recém-lançado pela editora Mauad. A autora realizou entrevistas com mulheres de várias idades e classes sociais na rua, nos supermercados, academias de ginástica, enfim, em todos os lugares, e chegou a conclusão que as mulheres estão decepcionadas com o mercado de trabalho e, por isso, estão voltando para o lar para serem o que sempre foram programadas para ser: esposas dedicadas que ficam em casa cuidando dos filhos e do marido. Será que isso é verdade?

Rosa Maria Morselli, membro do Conselho Estadual da Condição Feminina e presidente do Instituto Terra Viva, discorda. Não acredito que a mulher vá voltar para casa para ser a mulherzinha ideal. O que eu percebo é que elas querem cuidar pessoalmente da educação dos filhos, mesmo que isso implique em interromper a carreira, o que é diferente, afirma.

Os argumentos da escritora carioca são que a mulher se frustrou com o mercado porque percebeu que para ser competitiva precisa se masculinizar, ser mais fria e tudo isso para ganhar menos que o homem e ainda ter que cuidar da casa. Rosa Morselli rebate essas afirmações, lembrando que o resultado do último censo mostrou que é cada vez maior o número de mulheres que chefiam suas casas trabalhando fora, um fenômeno, aliás, que também acontece nos Estados Unidos.

Para a presidente do Instituto Terra Viva, a mulher só opta por abandonar a carreira, e mesmo assim temporariamente, quando deseja ter filhos ou cuidar melhor da educação deles. Segundo Rosa Morselli, isso acontece porque o Estado não oferece nenhuma contrapartida na questão da natalidade. O nascimento também tem uma função social, mas isso vem sendo ignorado pelo Estado. Por isso só resta às mães abandonarem o trabalho para poder cuidar dos filhos, diz, certa de que essa interrupção não é uma volta ao papel de dona de casa padrão. Não é uma volta ao passado. Hoje as mulheres estão mais conscientes do seu papel e até planejam melhor suas vidas. Isso pode ser visto pelo número de mulheres que têm filhos depois de uma certa idade, quando já estabeleceram um padrão de vida. A mulher hoje planeja muito mais, completa.

Para a psicóloga Sandra Elena Spósito, as afirmações de Cátia Moraes no seu livro também não podem ser tidas como verdadeiras expressões da realidade, mas ela aponta a existência de uma contradição do papel feminino. De acordo com a psicóloga, a mulher não sai para o mercado de trabalho para competir com o homem ou querer ser igual a ele. Ela deixa de ser dona de casa porque precisa ajudar o marido nas despesas da casa. Se vê obrigada a isso para ter um padrão de vida melhor. Como não foi criada para isso, e sim para ficar em casa tomando conta da família, por questões culturais, quando volta ao lar - qualquer que seja a razão para a volta - o faz com prazer, pois reconhece que, em casa, ela tem o domínio completo. Ou seja, o prazer não está em voltar para ser a mulherzinha perfeita, mas em saber que se está voltando para o seu habitat natural, onde ela tem o seu valor realmente reconhecido.

Mas, mesmo assim, Sandra Spósito não acredita que isso esteja acontecendo com a maioria das mulheres, pelo contrário. Existe um movimento de inclusão da mulher no mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, por exemplo, as empresas já têm que respeitar cotas de lugares que devem ser preenchidos exclusivamente por mulheres. Elas não estão deixando o mercado, cita.

Dupla jornada

O jornalista Paulo Francis certa vez classificou as mulheres como as patetas do capitalismo, porque desde que adquiriram o direito de trabalhar fora passaram a enfrentar uma dupla jornada de trabalho: fora e dentro de casa. Apesar do termo pouco lisonjeiro, o falecido jornalista não estava tão errado. Na prática, é isso mesmo o que acontece, porque a cobrança sobre a mulher para que tudo corra bem em casa e os filhos, o marido - e ela! - estejam bem cuidados não diminui pelo fato dela ter um emprego fora.

Para Cátia Moraes em seu livro, o ideal seria que a mulher que decidisse trabalhar fora o fizesse apenas por meio expediente, já que possuem mais necessidades do que os homens, como cuidar da casa, ir ao supermercado, cuidar dos filhos, fazer a unha, o cabelo... Segundo ela, os pais não podem fazer o papel de cuidar dos filhos porque não são tão ligados à cria quando a mulher, já que gerar um filho é um papel exclusivamente feminino.

Na opinião de muitas mulheres, porém, se pudessem optar entre ficar em casa cuidando dos filhos e do marido ou trabalhar fora, a segunda opção seria sempre a escolhida. Não acredito que as mulheres queiram ficar pilotando fogão, é muito melhor trabalhar fora, diz a secretária Alice Carneiro Rodrigues, que não é casada, mas que quando se casar pretende continuar trabalhando fora. A tese do livro de Cátia Moraes perde o sentido também segundo a auxiliar de perecíveis Lucinei Francisco, que afirma: A mulher quer ser independente, depender do seu próprio dinheiro e não ficar em casa dependendo do marido. A dona de casa Marcela Fernandes não trabalha fora, mas se pudesse, trabalharia. Seria muito melhor para ajudar no orçamento de casa justifica. Para a advogada Maria Antonieta Camargo Pardini, o problema de trabalhar fora está em ter que continuar no batente quando chega em casa. Trabalhar apenas fora é o ideal para fugir da dupla jornada, diz.

É possível fazer os dois

Mas é possível conciliar a carreira profissional com a vida particular sem que isso seja sinônimo de prejuízo nos dois setores. A advogada e professora de educação física e primária aposentada, Ilda Aiello Gardin, é um exemplo. Ela conta que lecionou por mais de 30 anos e simultaneamente cuidou da casa, do marido e dos dois filhos. A minha responsabilidade era grande porque tinha que cuidar de tudo, mas foi muito bom, minha vida foi superagitada, diz. A advogada e professora, uma das responsáveis pela abertura da Delegacia da Mulher em Bauru, lembra que nunca quis abrir mão da carreira apesar de não precisar trabalhar para ajudar no sustento da casa. Com o nível de conhecimentos que eu tinha, achava que seria um atraso de vida ficar em casa apenas cuidando dos afazeres domésticos, afirma. Mesmo assim ela aprendeu como dirigir uma casa desde cedo. Minha mãe me ensinou. Eu a ajudava porque depois não poderia dar ordens se não soubesse exatamente o que queria. Para conseguir trabalhar, fazer duas faculdades, vários cursos e ainda cuidar da família e da vida pessoal, Ilda teve a ajuda de empregadas, mas foi ela quem as ensinou a trabalhar e até a cozinhar. Segundo a advogada e professora aposentada, não existe um segredo para conseguir ser bem-sucedida dentro e fora de casa. Depende da mulher. se ela não for preguiçosa, é possível.

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