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Surdos-cegos lutam por inclusão social

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 4 min

Portadores de deficiência auditiva e visual trabalham para conscientizar a sociedade sobre as potencialidades que têm

Para quem vê, escuta e fala normalmente, é difícil imaginar como é viver sem esses sentidos. O contato com outras pessoas pelo tato tem o mesmo significado e importância que um olho no olho, para os surdos-cegos.

Eu imagino muito as coisas, minha cabeça trabalha o tempo todo, não tenho tempo para sentir solidão, afirma sorridente Cláudia Sofia Indalecio Pereira, 31 anos, fundadora e presidente da Associação Brasileira dos Surdos-Cegos (Abrasc).

Ela esteve em Bauru, neste final de semana, para divulgar seu trabalho à frente da entidade e visitar um amigo, Cristian Elvis Fernandes, 25 anos, estudante do segundo ano de Psicologia, na Universidade do Sagrado Coração (USC), deficiente parcial visual e auditivo, membro do Centro de Apoio ao dEficiente (CAd/E) e da Associação Brasileira de Assistência ao Portador de Deficiência Visual.

Cláudia Sofia trabalha pelos direitos dos portadores da dupla deficiência (visual e auditiva), realizando e participando de reuniões regionais, estaduais e internacionais com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.

A sociedade precisa saber que as pessoas portadoras desse tipo de deficiência são capazes de ingressar no mercado de trabalho e de ter um contato social normal. Conheço advogados, psicólogos, químicos, analistas de sistemas e muitos outros casos de pessoas que venceram a barreira da deficiência, esclarece.

No momento, a maior luta dela é para que os surdos-cegos ganhem uma legislação própria, assim como já acontece para outros tipos de deficiência. Uma das reivindicações é que seja obrigatório às escolas terem em seu quadro de funcionários guias-intérpretes para atender aos portadores da dupla deficiência. As leis brasileiras são muito estreitas aos direitos dos deficientes, diz Graziela Yoshie Nishiyama, 29 anos, presidente do CAd/E.

Embora, por lei, os guias e intérpretes já sejam obrigatórios nas escolas, no caso de portadores apenas da deficiência visual ou auditiva, isoladas, bem como dispor de material didático adequado (livros em braile, programas de computadores, etc.), poucos estabelecimentos cumprem a regra.

Outra reivindicação é quanto à inclusão no mercado de trabalho, que já é garantida por lei. No entanto, mais uma vez, quase nunca cumprida.

Pela lei, toda empresa com mais de 100 funcionários é obrigada a abrir uma vaga para um portador de qualquer tipo de deficiência. Se a empresa tiver mais de 200 funcionários, 2% das vagas têm que estar disponíveis. Em caso de 500 a mil funcionários, 5%.

Para o estudante Cristian, também seria preciso garantir vagas para deficientes em universidades públicas. É muito difícil, para um deficiente visual, concorrer em igualdade num vestibular, diz.

Além de lidar com a barreira da deficiência, que já é uma grande luta, há a barreira social. Para tudo que necessitamos, é preciso reclamar para conseguir. Desde projetos arquitetônicos adequados até isenção de passagem em ônibus. Até há dois anos, os deficientes pagavam passagem em Bauru, lembra Graziela.

Contatos com a Abrasc podem ser feitos pelos telefones, em São Paulo, (11) 239-5371 e 4612-9350 (noite). Em Bauru, o telefone do CAd/E é o (014) 212-4937 e da coordenadoria de Deficientes Visuais, (014) 3276-2190.

Pelo tato

Cláudia Sofia perdeu a audição aos 6 anos de idade, vítima de caxumba e sarampo. A partir de então, aprendeu a leitura labial para se comunicar. Na adolescência, perdeu gradualmente a visão, por retinose pigmentar (descolamento da retina), até ficar cega dos dois olhos aos 20 anos de idade.

Foi um choque para toda a família. Mas, o médico já havia nos alertado. Então, sempre conversamos com ela. Sabíamos o que estava por vir, diz a mãe de Cláudia, Maria Aparecida Rodrigues Indalecio.

Cláudia aprendeu, sozinha, a se comunicar pelo tato, segurando o queixo da mãe quando falava. Mais tarde, descobriria que essa técnica já era praticada em outros países, conhecida como tadoma.

Ela freqüentou a escola normal até a oitava série e, agora, pretende retomar os estudos, com a ajuda de um guia-intérprete.

Em 1998, fundou com outros dois portadores de dupla deficiência a Associação Brasileira dos Surdos-Cegos.

Segundo ela, as estatísticas apontam que, oficialmente, no Brasil, existam 120 pessoas portadoras, entre adultos e crianças, a maioria, de famílias humildes. Em Bauru, tem-se o conhecimento de um caso.

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