Geral

Hora de pagar pecados!

(*) N. Serra
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Coincidentemente com a tônica, em andamento, da tradicional pregação evangélica referente à Semana Santa, período que lembra expressivamente a odisséia de Jesus Cristo no sentido de reprimir os pecados humanos, eis que o presidente Fernando Henrique Cardoso aí está acenando insistentemente, como holocausto dos brasileiros em geral, a continuidade do pagamento do custo da recuperação econômica do País. Abrindo-se claramente em solenidades de que tem participado ultimamente, o sorridente chefe da Nação, como que profeta suficientemente iluminado do milênio, vem afirmando que o pesadelo continuará alguns meses e aqueles que agora cantam e dançam na harmonia dos sons e dos ritmos por eles mesmos gerados vão estremecer com o calvário das medidas duras e irreprimíveis que o Governo deverá programar e colocar em execução até o final do ano. Dê-se de barato hajam por aí, como iniludivelmente os há, muito bem homiziados na escuridão da conjuntura, os que estejam se beneficiando dos desajustes da economia, faturando alto em cima dos pesados tributos que coletam, no caso o próprio Governo, assim como majoração desmedida dos preços dos bens, como os do setor privado, e de vários outros fatores que, não parando de movimentar-se em seus atrativos trilhos, impulsionam desmedidamente para as alturas as cotações de seus rendimentos específicos, com isso alimentando a inflação, de um lado, e a recessão, de outro, como que num passe de mágica. Os próprios governos, notadamente o Federal, acompanhado dos estaduais, deveriam se despertar para o fato de que figuram entre os que se locupletam na situação através de seus impostos e taxas, entre eles o indefectível e ganancioso Cofins e aqueles outros de obstinada acorrência. Então, é preciso observar e parece não ver o presidente de todos os brasileiros - ricos, remediados e pobres - que a maioria da sociedade, aquela que é mal assalariada ou paga, e, por isso, vive marginalizada de algum contexto de facilidade lucrativa, já lacrimeja desde muito tempo com os parcos rendimentos que tem e com os quais salda os pecados da má condução da economia, decorrentes da irracional aplicação da receita pública. Então, ainda que nesta fase específica de pregação de penitência, será que poderia sobrar a FHC razões suficientes para adiantar aos milhões de patrícios que mais sacrifícios os esperam até dezembro, ainda que diferentes dos de Cristo? Resta saber se o chefe, tão animado para pedir ao povo mais paciência e autoflagelação, terá inspiração idêntica para garantir aos sofredores da Nação que, em 2002, eles deverão assistir, finalmente, a uma alvorada de alvissareira ressurreição com o crescimento nacional da economia, sonhado indistintamente por todos e não apenas pelos que agora e sempre se favorecem das benesses por eles mesmos criadas. É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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