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A produção de chocolate já é tradição em Santa Cruz do Rio Pardo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Os funcionários e voluntários da instituição trabalham até a madrugada para dar conta das inúmeras encomendas

Santa Cruz do Rio Pardo - A doceria do Centro Social São José, em Santa Cruz do Rio Pardo, vendeu pelo menos 20 mil ovos de chocolate este ano. Foram mais de 5 mil quilos de chocolate - mil a mais que no ano passado, uma produção que já é tradição da cidade nesta época do ano e que mobiliza cerca de 50 voluntários, revezando-se até a madrugada para conseguir atender todos os pedidos.

De acordo com a diretora da creche, a assistente social Mônica Domingues Brandini, a doceria foi criada há cerca de 10 anos, seguindo o exemplo de um abrigo do município de Fartura. Precisávamos descobrir uma forma de auto-sustentação, porque nem sempre conseguimos apoio e enfrentamos muitas dificuldades, contou.

A doceria produz bombons, pirulitos, corações de chocolate e inúmeras opções para lembrancinhas de casamento, nascimento e aniversário. Mas, a partir de janeiro, anualmente, todos se mobilizam para a produção dos ovos de Páscoa, que têm de 20 gramas até 5 quilos.

Fomos fazendo os ovos e estocando. Mas nas últimas três semanas as encomendas são tantas que não estamos vencendo repor os estoques. Então, temos trabalhado num ritmo maluco, começando às 7 horas da manhã e só parando às 3 horas da madrugada, disse a vice-presidente do Centro, Ângela Maria Claudino Sato.

Ao todo, o trabalho envolve mais de 100 pessoas. São aproximadamente 50 voluntários, cerca de dez funcionários, monitores e as adolescentes que freqüentam a creche - atende até 18 anos. Para estas, a doceria funciona como mais uma opção de aprendizado, além das atividades de artesanato e reforço escolar desenvolvidas na instituição. Geralmente, as alunas participam da produção e as voluntárias se encarregam de embalar e vender.

Além dos ovos, são vendidas cestas de Páscoa, que podem ser montadas conforme o gosto e o bolso do freguês. Para isso, também são oferecidos coelhos de pano, muitos deles feitos nas aulas de artesanato pelos próprios jovens matriculados na creche.

De acordo com Ângela Sato, os ovos são vendidos a R$ 18,00 o quilo, o que garante um lucro aproximado de 80%, suficiente para custear as despesas da instituição por aproximadamente três meses.

A instituição

O Centro Social São José foi inaugurado no dia 4 de março de 1987, pelo Frei Francisco Pessutto, o Frei Chico, 71 anos. Segundo ele, Santa Cruz do Rio Pardo abriga algumas favelas, onde as crianças ficam sozinhas, sem proteção ou orientação, enquanto os pais trabalham. Muitas delas acabavam indo para as ruas e ficavam atormentando as pessoas nas lanchonetes, pedindo esmolas e comida. Elas eram mal vistas por isso e acabavam sendo maltratadas. Então, pensei em criar um ambiente bom, onde elas pudessem ter a alimentação e educação adequadas para seu bom desenvolvimento, contou o frei.

A partir daí, foi um ano de preparação. Ele descobriu um terreno da Prefeitura que estava ocioso e pediu que fosse doado para a abertura de uma creche. O prefeito, na época, aceitou a proposta e cedeu o terreno. Um ano depois, o local estava pronto para atender 30 crianças.

Na época, o Centro era mantido com doações e promoções. Havia um grupo de senhoras, chamadas mantenedoras, que organizava almoços e campanhas. Naquele tempo, um único almoço dava para manter as crianças durante um mês, contou Frei Chico.

Com o tempo, foi-se percebendo a necessidade de ampliação da creche. Novas obras foram feitas, novas parcerias firmadas e, hoje, a creche atende cerca de 260 pessoas, de um a 18 anos. As menores de 7 anos ficam na creche em período integral, onde elas são alimentadas, tomam banho e brincam.

As crianças com mais de 7 anos têm que, obrigatoriamente, freqüentar a escola. Por isso, elas permanecem na instituição no período contrário ao das aulas. Neste período, elas fazem refeições, tomam banho, fazem reforço escolar e participam de atividades de aprendizado, como crochê, bordado, pintura e a própria doceria.

Paralelamente, nós também temos um trabalho com as famílias, porque o que ensinamos aqui pode ser facilmente anulado no ambiente familiar. Então, nós oferecemos auxílio de emergência, como medicamentos, pagamento de contas atrasadas, compra de gás, conserto de barracos, encaminhamento ao estudo e ao trabalho. Nesse sentido, contamos e dependemos de um respaldo da Prefeitura, que tem nos ajudado bastante agora, disse o frei.

Abrigo

Depois de alguns anos de funcionamento da creche, Frei Chico percebeu que muitas crianças precisavam de mais e criou um abrigo, que hoje acolhe 78 crianças e jovens entre zero e 20 anos. Segundo ele, são crianças que foram abandonadas ou rejeitadas pelos pais, vítimas de violência ou abuso, ou órfãs. Além de alimentação e abrigo, elas têm acompanhamento de assistentes sociais e só deixam a instituição quando têm condições próprias de subsistência.

Ele afirmou que o segredo do bom funcionamento do Centro Social está no planejamento: As coisas têm que começar bem, senão é melhor nem começar. Por isso estudamos tudo devidamente, preparamos sem pressa, planejamos tudo. Quando a instituição começou a funcionar, tínhamos um mês de atividades e parecia que existia há um ano. É que eu não faço nada hoje. Preparo para amanhã, que é para não ser preciso retocar lá na frente.

Despesas

De acordo com Mônica Brandini, a manutenção de cada criança na creche, hoje, custa aproximadamente R$ 50,00 por mês. A Prefeitura contribui cedendo professores e monitores, além de uma subvenção mensal de R$ 1,20 por criança. Também tínhamos, até fevereiro, um convênio com o Estado de R$ 3 mil por mês. O convênio terminou e estamos batalhando para conseguir a renovação, disse.

Já no abrigo, segundo Ângela Sato, as despesas são de dois salários mínimos por criança ao mês. Sem contar as situações de emergência, em que temos que oferecer tratamento de saúde, por exemplo. Ou, no caso da creche, ajudar as famílias, comentou.

Elas ressaltaram que a instituição sobrevive, realmente, do apoio da comunidade, que contribui com adoção à distância (paga-se determinado valor para sustentar uma ou mais crianças) ou com doações de produtos alimentícios, principalmente arroz e frutas. Mas são necessidades diferentes e, alguma vezes, as pessoas acham que ajudando o abrigo, não precisam ajudar a creche e isso não é verdade, ressaltou Brandini, comentando a importância de projetos como o da doceria.

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