Ronaldo Del Gallo, 41 anos, ex-atleta e ex-professor do BTC, trocou esporte e família pelo mundo das drogas e do álcool
Cabelos desgrenhados, dentes podres, unhas e roupas sujas, Ronaldo Del Gallo, 41 anos, não lembra nem de longe o enxadrista que representou Bauru por diversas vezes em Jogos Regionais e Abertos e ensinou xadrez no Bauru Tênis Clube (BTC) entre as décadas de 70 e 80. Consumindo-se, há 15 anos, pelo uso contínuo de drogas pesadas e álcool, o ex-enxadrista é hoje mais um pedinte encontrado nas ruas da cidade, nada diferindo de outros marginalizados.
Sem renda fixa ou bens, Del Gallo mora de favor na casa da mãe e se mantém com algumas corridas. Apesar de considerar-se um caso perdido, o ex-enxadrista ainda sonha em voltar a dar aulas e, quem sabe, encarar feras como Boris Spassky e Viktor Krushoy em partidas no tabuleiro de xadrez. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Del Gallo, que diz ter sido campeão paulista juvenil no esporte. Ele conversou com a reportagem do JC na última quarta-feira, na Praça Portugal, um dos lugares que costuma freqüentar em Bauru.
Jornal da Cidade - Seu primeiro contato com o xadrez foi aos 13 anos.
Ronaldo Del Gallo - É. Iniciei meus primeiros movimentos com o meu tio, aos 13 anos de idade. E através de todo esse tempo interminável, até os 37 anos de idade, mais ou menos, pratiquei e aprendi por meio de livros. Já fui filiado a dois clubes, o Clube de Xadrez Guanabara (CXG) e o Clube Epistolar Brasileiro da Bahia, pelos quais jogava partidas por correspondência. É muito complicado eu falar sobre tudo isso, mas é muito mais complicado a pessoa entender o que estou falando.
JC - Com quantos anos você começou a dar aulas?
Del Gallo - Aos 16 anos fui para o BTC e logo depois, aos 18 anos, comecei a dar aulas. Fui professor durante sete anos e dava aulas todos os dias, ininterruptamente.
JC - Quantos alunos passaram pelo senhor?
Del Gallo - Muitos, muitos. Inclusive tem um delegado em Bauru, o doutor Marcos Cremonesi, que foi meu aluno.
JC - É muito difícil jogar xadrez?
Del Gallo - Na vida tudo é difícil. Você só tem que gostar do que está fazendo.
JC - Dizem que todo enxadrista é muito inteligente.
Del Gallo - É muito relativo. Eu fui um péssimo matemático. Sei que dois mais dois são quatro, até hoje, mas xadrez é como qualquer outro jogo. Você tem que gostar daquilo que está fazendo, senão não vira. Hoje me sinto ridículo aqui em Bauru porque não sou pedreiro, eletricista, encanador, pintor, não sou mão-de-obra específica, não sou nada.
JC - A sua profissão não é valorizada?
Del Gallo - Não é questão de profissão, xadrez no Brasil não é profissão. Profissão é em outro país. Por que os grandes mestres são russos? Porque na antiga União Soviética xadrez era matéria, não sei se ainda é, porque estou totalmente desatualizado.
JC - O senhor sempre jogou xadrez por prazer?
Del Gallo - Sempre, assim como dava aulas com muito prazer. Tanto que era adotado antigamente pelo Banco Bandeirantes, que tinha uma campanha em Bauru chamada Adote um Atleta.
JC - Por que o senhor saiu do BTC?
Del Gallo - Tive problemas familiares. Casei e a família exigiu que trabalhasse e tivesse emprego registrado. E como resistir diante de um esporte intelectual, que me rendia convites para participar de Jogos Abertos e a adoção do Banco Bandeirantes, que me pagava, em valores de hoje, cerca de um terço do salário mínimo, não dava para manter uma família?
JC - Foi a pressão familiar que o motivou a largar o xadrez?
Del Gallo - Não, foi por livre e espontânea vontade. Só larguei o xadrez porque me desviei. Foi bebida, depois foram as drogas e tudo mais.Mas, no momento as drogas já não são importantes. A fase terminal é a bebida.
JC - O senhor já bebia na época do BTC?
Del Gallo - Não. Tudo que me levou foi pelo momento que passei, as dificuldades de relacionamento com as pessoas. Tive desgosto em saber que tinha gente falando mal de mim e até hoje falam e dão as costas para mim. É complicado falar sobre isso, amigos de um jogo intelectual e, de repente, viraram as costas.
JC - O senhor pediu ajuda?
Del Gallo - Estou pedindo ajuda para todo mundo. Falar que vai ajudar é muito fácil, mas acontecer é complicado. Ninguém te ajuda.
JC - O senhor entrou nas drogas e na bebida de cabeça? Tinha consciência do que estava fazendo?
Del Gallo - Foi de cabeça. Sempre consciente, um neurônio estava funcionando bem. Na época, não estava mais casado. Fiquei casado uns 10 anos e tive três filhas, sendo que duas estão no Japão. Já sou avô, inclusive!
JC - O senhor vê sempre a sua família?
Del Gallo - Sempre que possível. Meu relacionamento com as minhas filhas é de A a Z. Nunca fui suficiente para elas, mas elas sempre foram suficientes para mim. Com a minha esposa tenho pouco contato, nada de complicação, cada um para o seu lado.
JC - Voltando às drogas, quando começou a usá-las já estava separado há muito tempo?
Del Gallo - Não muito tempo, mas não comecei a usar drogas como fuga, está sendo fuga no momento.
JC - Você sempre trabalhou?
Del Gallo - Até um tempo depois do casamento, sempre fiquei empregado. Consegui manter minha família com a ajuda do meu pai, que era um mestre internacional. Ele faleceu em 1997 e foi um herói para mim. Isso lembra aquela música do Fábio Júnior.
JC - Vamos contextualizar: você estava empregado, separado, mas bem com os filhos. O que te levou a usar drogas?
Del Gallo - Aí que está: você sabe que, de repente, você tem amigos e amigos. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Tem uns que são amigos de verdade, que te dão puxão de orelha, agora tem outros que te levam.
JC - Então, te levaram a isso?
Del Gallo - Não, não julgo ninguém. Na Bíblia está bem explícito: Mateus (7:1) - Não julgueis para que não sejas julgado. Não julgo ninguém, mas me levei. Mesma coisa se você tivesse numa mesa de bar. Se te oferecem uma bebida, se você gosta de beber, toma uma primeira dose e, se te oferecem mais uma e você gosta, você continua a beber, e aí vai. Antes, bebia muito pouco, mas me deixei levar por coisas muito banais.
JC - Foram motivos banais então?
Del Gallo - Assumo isso completamente. Sou um alcoólatra assumido, um drogado assumido, só não vou falar um palavrão para você, mas a sociedade deveria ouvir, porque merece.
JC - Depois do vício, continuou empregado?
Del Gallo - Fui perdendo as coisas, você sabe o que ocorre com o ser humano. A partir do momento que a sociedade começa a desacreditar na sua pessoa, você perde a credibilidade, fica muito difícil, e não tem nem como confiar.
JC - O senhor já tentou parar?
Del Gallo - Já tentei, sim, mas já joguei a toalha, também.
JC - O senhor se considera um caso perdido?
Del Gallo - Sou, assumido. Não tenho mais jeito e nem quero também. Se alguém tentar me dar uma força, será um caso perdido para a pessoa que vai tentar me dar uma força, porque não quero. Não acredito no mundo mais, não acredito na vida. Já era.
JC - O senhor se define como um desiludido?
Del Gallo - Não, desiludido não. É cafona falar desiludido. Não dá para definir, não há parâmetro, não há nada.
JC - O senhor tem algum bem hoje? Onde o senhor mora?
Del Gallo - Não tenho nada. Moro com a minha mãe e ela, coitada, já tentou fazer tudo por mim. Hoje ela tem 73 anos e dependo dela só de um teto. Tenho muito a agradecer a ela. Se um dia ela for primeiro do que eu, nem sei. Sou espiritualista, acredito que a vida continua. Tenho um tio, hoje falecido, em cujo túmulo está escrito assim: Meu corpo é pó. Minha alma busca Deus no infinito. Acho isso fantástico.
JC - O senhor gosta de ler?
Del Gallo - Gosto muito, mas leio pouco. Ler, falar para você, é coisa utópica, porque estou na vida, aí. Minha mãe me dá teto e comida, só isso e já é suficiente.
JC - Ela também acha que o senhor é um caso perdido?
Del Gallo - Coitada, é difícil falar para você, mas acho que ela deve imaginar algo nesse sentido. Ela e meus irmãos já tentaram me ajudar, mas não tenho nada contra eles. Minhas filhas, aí já é outro coisa. O que elas podem fazer por mim? O pai é que deveria fazer por elas, não elas por mim.
JC - Como é que o senhor sobrevive?
Del Gallo - Na rua, alguém para te dar um prato de comida... mas pinga, cachaça, droga, todo mundo dá, em toda esquina tem.
JC - Mas ninguém te pede nada em troca?
Del Gallo - Tá vendo, você me lembrou mais uma música do Roberto, Desabafo. Porque eu não peço em troca, tudo volta para mim. Você, para mim, é essa mecha de branco nos meus cabelos. Sempre vem alguma coisa em troca, você sabe disso. Você faz uma correria, você sempre ganha alguma coisa, é mais ou menos por aí.
JC - E assim o senhor vai levando.
Del Gallo - Normalmente, eu tenho grande conhecimento por aqui e pelo fato de ter sido enxadrista, modéstia à parte, é que chego nas pessoas. Reconheço as pessoas e as procuro. Tive alunos que hoje são delegados, juízes de direito, pô, no tempo do Bauru Tênis Clube, já era para ter sido alguém. Não deixo de ser alguém, sou, aliás, eu não sou, não, eu estou. Não acredito no ser, acredito no estar. Você, para mim, não é a Daniela, você está Daniela, é uma matéria. Não sou Ronaldo, estou Ronaldo.
JC - Quando o senhor encontra esses alunos, fica saudoso?
Del Gallo - Sim. Tudo que você faz bem na vida, na base do coração, e quando encontra pessoas que um dia ajudou na base do coração, dá saudade. Não quero ser saudosista, mas sou.
JC - O senhor tem vontade de voltar a dar aulas?
Del Gallo - Lógico, lógico. O tabuleiro ainda tem 64 casas e a dama branca, que usa sapatinho branco, ainda vai na casa branca e a negra, na casa preta. Dama, mais uma vez, Roberto: Dama, hoje alguém que te ama.
JC - O senhor gosta de música, hein?!
Del Gallo - Gosto, sou apaixonado pelo Roberto.
JC - O senhor tem amigos?
Del Gallo - A vida é minha amiga. Meu amigo é Deus. De resto, são colegas, aos bilhões. Amigos são Deus e minha mãe e irmãos, são pessoas que considero e me consideram, na medida do possível.
JC - No que o senhor acredita?
Del Gallo - Em suposições. Tudo que você tem que passar, é só você, mas não acredito em pagamento, não aqui, mas na espiritualidade. Não sou o dono da verdade, mas sou formador de opinião, é o que acho no momento.
JC - O senhor tem um cotidiano?
Del Gallo - Não, não tenho horário e nem sentido. Quando tenho condições, almoço com minha mãe. Caso contrário, fico por aí. Meu caminho é fácil de seguir porque não tenho para onde ir, Raul. Freqüento céus e o mundo. Mas tenho mais uma coisa para falar: a partir do momento que você, sendo consciente e sabendo o que ocorre ao redor, tentar se adaptar, não, melhor você ser adaptado, não se adaptar à sociedade. Ela te corrompe, te estraga, te rouba, te condena e te manda para o tribunal, sem você querer ir e mesmo sendo o melhor dos melhores. E isso acontece a partir do momento que você não consegue se adaptar a ela, ela faz tudo para te corromper e você se corrompe com ela. A sociedade é isso. Por isso, falem bem ou falem mal, falem de mim.