Geral

Uma questão de ordem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Você gosta de tudo no lugar, organiza os CDs e livros por ordem alfabética, coleciona miniaturas e cuida para que elas estejam sempre lado a lado na estante, mantém tudo muito limpinho. Seu par, por outro lado, deixa roupas jogadas pela casa, não tem o menor problema em amontoar papéis e jornais que nunca vai ler na vida e não é capaz de levar para o cozinha o copo que usou na sala quando estava vendo televisão. O que fazer quando a pessoa que você mais ama no mundo pensa completamente diferente de você quando o assunto é organização?

Acima de qualquer coisa, é preciso ter paciência, claro, e amor, muuuuuito amor. Quem afirma é a professora Ana Elisa Marcondes, casada há três anos com o comerciante José Luís P. Marcondes. Ela conta que, no início do casamento, não sabia o que fazer com a mania do marido de deixar a toalha molhada em cima da cama e espalhar peças de roupa pela casa toda. Quando namorávamos, sabia que ele era assim, mas nunca o tinha visto no dia-a-dia. É muito pior, revela bem-humorada. As brigas pela organização da casa foram muitas até que a professora foi salva pela chegada do primeiro filho. Ele melhorou muito depois do nascimento do Guilherme, mas ainda não é como eu, afirma Ana Elisa, que sempre foi muito certinha.

A desculpa dos bagunceiros, é que não é preciso ter pressa para pôr as coisas no lugar. O programador Giovane Araújo sempre foi desorganizado e cresceu com a mãe e os irmãos arrumando a bagunça que ele deixava pela casa. Quando saiu de casa para estudar, se viu morando sozinho e pôde deixar o apartamento do jeito que bem entendia. Saía para a aula e depois para trabalhar, quando chegava em casa não tinha a menor disposição para colocar as coisas no lugar e deixava tudo amontoado, se desculpa. Segundo o programador, a zona na qual vivia não atrapalhava tanto porque quando chegava o fim de semana ele colocava as coisas no lugar. Era só uma questão de tempo, quando podia, arrumava, conta. Essa desculpa ficou mais difícil de ser dada quando ele se casou com uma colega de trabalho, Silvana. Às vezes ainda tento explicar que vou colocar as coisas no lugar quando tiver tempo, mas mesmo assim ela reclama, revela.

Desde cedo

Uma pessoa não se torna extremamente organizada ou bagunçada de uma hora para outra. Geralmente, é um comportamento que se adquire na infância, explica a psicóloga Elaine Olmo. Ser organizado é um comportamento aprendido e que depende da educação que a criança tem dos pais, por isso é importante que desde cedo eles mostrem aos filhos a importância de guardar as coisas e deixar tudo no lugar, afirma.

Um certinho desde a infância é o estudante universitário Romerito da Silva D. Jr. Ele conta que quando era criança, vivia juntando os brinquedos que o irmão deixava espalhado porque aquilo o incomodava. Hoje ele continua tão ordeiro quanto antes. A pior coisa que pode haver é falta de organização numa casa, procurar uma coisa e não achar por causa da bagunça, por exemplo, dispara. E vai mais longe. Segundo o estudante, que trouxe o hábito da organização para a sua vida pessoal, onde sempre tem tudo planejado com antecedência, sem organização é impossível haver uma sociedade honesta. A sociedade é uma relação organizada entre indivíduos. Se esse indivíduo não é organizado dentro de casa, como pode respeitar as leis fora dela, argumenta, dizendo que se irrita quando vê pessoas que não respeitam as leis no trânsito ou sujam as ruas.

Na outra mão, a vendedora Luciana Castanho Leite é uma bagunceira de nascença. Sempre ouvi reclamações de minha mãe porque deixava as minhas roupas sujas e espalhadas, enquanto minhas irmãs eram todas organizadinhas, conta. Ela não sabe explicar porque não se importa muito com organização enquanto as duas irmãs são superorganizadas. A única coisa que defende é que não é tão preocupante ser assim. Não acho que eu tenha algum tipo de problema só porque não me preocupo em arrumar meus livros na estante. Acho que quem se preocupa muito com isso é que é paranóico, brinca. Solteira e sem namorado, Luciana não se preocupa com as reclamações de um possível marido no futuro. Se ele gostar mesmo de mim vai me aceitar com bagunça e tudo, diz.

O ponto de equilíbrio

Segundo Elaine Olmo, é bastante improvável que uma pessoa vá mudar a outra e fazer com que ela seja menos bagunceira ou menos preocupada com a organização só porque elas se amam e dividem o mesmo espaço. O que pode acontecer é a pessoa ter o seu comportamento melhorado se tiver que enfrentar alguma situação que a force a isso, diz. Entre essas situações podem estar incluídas um trabalho que exija organização extrema ou mesmo um casamento no qual o (a) parceiro (a) exige uma mudança. Mas a psicóloga faz a ressalva: A pessoa só vai melhorar se realmente precisar porque se depender da vontade própria...

Por isso, numa relação, alguma lei comum é necessária para que todo dia não aja uma briga sobre o lugar onde está a conta de telefone que precisa ser paga ou as calcinhas que ficaram penduradas no boxe quando deveriam estar no varal. A questão do espaço físico parece ser fundamental. Criamos territórios comuns e outros pessoais dentro de casa, conta a esteticista Ana Maria Silveira. Bagunceira assumida ela explica que a casa de muitos cômodos permitiu que eles pudessem fazer uma divisão. Ninguém mexe na sala, na copa e no quarto, no resto dos cômodos cada um pode fazer o que quiser sem que o outro reclame. Por isso ela diz que o marido, mas organizado nem entra no banheiro exclusivo dela assim como ela está proibida de mexer nas coisas dele no escritório. É claro que se eu quiser, posso mexer, mas tenho que colocar no lugar. Como dificilmente vou conseguir fazer isso, não mexo, diz.

Menos radical, o casal formado pela jornalista Joelma Marino e o designer Youngster Lucas conseguiu o equilíbrio na questão da bagunça graças a um apartamento mais espaçoso e a ajuda da criatividade. Ele é muito mais organizado nas idéias e na concentração do que eu, quando ele quer uma coisa vai até o fim, enquanto eu sou meio distraída, explica Joelma. Em compensação, no aspecto físico da bagunça ele vence. Sou muito mais desorganizado do que ela, deixo tudo espalhado, conta o designer. Hoje eles convivem bem com as pequenas bagunças um do outro, mas quando moravam num lugar menor, era um problema. Ele ia mexer com os carrinhos porque pratica automodelismo e deixava tudo espalhado, rodinha, chave de fenda... a casa virava um caos, lembra a jornalista. A solução veio através do design. Lucas criou para ele uma estante móvel, que chama de homework, que faz o papel de oficina portátil e assim acabou com a bagunça espalhada pela sala e as reclamações que ela trazia. Já ouvi dizer que na realidade criei um móvel para as esposas e não para os maridos. É verdade, no meu caso funcionou, diz o designer.

Excesso de organização pode ser sinal de distúrbio

Não é brincadeira de mau gosto dos bagunceiros. Pessoas que se preocupam demais em deixar as coisas no lugar e são excessivamente rigorosas com ordem e rituais para se sentirem bem podem não ser apenas organizados demais. Elas podem, sem saber, serem portadoras de um transtorno obssessivo compulsivo (TOC). Esse tipo de distúrbio acomete cerca de 2 milhões de pessoas somente no Brasil, segundo o psiquiatra Alfredo Castro Neto, ex-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e professor do Curso de Especialização em Neurologia Infantil da PUC do Rio de Janeiro.

Suas manifestações, que em mais de um terço dos casos, começa já na infância, são as mais variadas e podem ir do incontrolável desejo de checar se as portas estão trancadas a cada cinco minutos, lavar as mãos toda hora ou exigir que todos os objetos da estante estejam alinhados de modo a formar um ângulo reto, por exemplo. Alguns casos surpreendem pelo que têm de insólito.

Paulo, um menino de 11 anos, cita Castro Neto, começou a executar progressivamente, gestos de maneira simétrica. Se tocava na mesa com a mão direita, repetia o gesto com a mão esquerda. Acender a luz tornou-se um suplício para o menino porque ao tocar no interruptor, tinha que repetir o gesto dez vezes com cada dedo, totalizando 100 toques. Um fato notório é que ele também tem um enorme cuidado com as palavras que diz para não dizer coisas que possam parecer incorretas. Assim, ele nunca diz que está, com um livro, pois o estar designa algo apenas provisório, enquanto o ter implicaria na necessidade de que a pessoa o possuísse para sempre, o que seria impossível. Tal o cuidado com as palavras, que atualmente ele evita falar com os pais, comunicando-se por gestos. O menino acha que se falar algo incorreto, algo de ruim pode acontecer com eles.

Pesquisas realizadas sobre o TOC, indicam que o problema tem causa principal em fatores biológicos que podem ser agravados por condições ambientais. A serotonina, um neurotransmissor cerebral que faz o transporte das mensagens químicas entre os neurônios, é uma substância que está relacionada à ocorrência dos TOC. As pessoas que sofrem com o transtorno possuem um nível reduzido do neurotransmissor. Uma das razões para isso pode ser uma disfunção nos gânglios basais no cérebro, que são locais ricos em serotonina e têm a função de regular a maioria dos movimentos intencionais do corpo.

De acordo com Castro Neto, a disfunção dos gânglios basais possa produzir sintomas de excesso de preocupação com a higiene pessoal, detalhismo e ambivalência que são característicos do TOC. Estudos realizados pelo National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos, comprovaram que 25% das crianças com TOC, têm parentes de primeiro grau com sintomas do distúrbio, o que demonstra o traço hereditário da doença.

O TOC não pode ser confundido, porém, com as superstições do dia-a-dia, como evitar passar embaixo de escadas, não abrir o guarda-chuva dentro de casa ou bater na madeira depois de dizer algo ruim. O psiquiatra explica que isso não é anormal. Os pacientes obssessivo-compulsivos têm rituais ou pensamentos que sabem não fazer sentido, afirma.

Como tratar

Durante muito tempo o TOC foi considerado uma doença de ocorrência rara, muitas vezes incapacitante ou refratária ao tratamento. Hoje sabe-se que esse distúrbio é comum e com bom prognóstico, onde os tratamentos medicamentosos e psicoterápicos são de grande importância.

Segundo Castro Neto, algumas medicações utilizadas têm por finalidade evitar a diminuição do nível de serotonina. A forma psicoterápica de escolha é a comportamental, que consiste em colocar o paciente em contato com o objeto ou situação pertinentes à ideação obssessiva geradora do estresse e bloquear o comportamento ritualístico que viria logo após o estímulo.

Comentários

Comentários