As principais mudanças históricas são feitas através de rupturas profundas nos paradigmas vigentes e as chamamos genericamente de revoluções. Elas podem ser sangrentas, com o sacrifício de vidas e a destruição de parte do patrimônio acumulado da sociedade, podem ser silenciosas e inexoráveis como as revoluções tecnológicas, ou podem ser como ondas que, através de um fenômeno de ressonância, crescem, se agigantam e envolvem a sociedade.
Mas nenhuma surge do nada ou é feita do dia para a noite. Todas possuem uma base teórica, um conjunto de ideais e valores que se opõem àqueles vigentes e que precisam ser gestados, paridos, alimentados e difundidos.
Há 14 anos, um grupo de jovens empresários gaúchos promove em Porto Alegre o Fórum da Liberdade. É um evento que se notabilizou por provocar o confronto de idéias antagônicas e de trazer à discussão assuntos considerados tabus, verdadeiras vacas sagradas, tanto para nacionalistas, conservadores ou socialistas de toda ordem. Aparados de alguns excessos, muitos desses assuntos, após levantados e discutidos no Fórum, acabaram se incorporando às políticas públicas e ao arcabouço legal do Brasil. Nesse sentido, o Fórum da Liberdade não é apenas um evento revolucionário, mas uma revolução antecipada.
A sua décima quarta edição, realizada nos dias 9 e 10 de abril, foi novamente polêmica e reveladora. Deixou claro que a idéia central da esquerda brasileira para promover mais justiça e desenvolvimento passa sempre pelo aumento de impostos e pela concentração cada vez maior de poder e da riqueza nacional nas mãos do governo. É a gênese perpétua de mais uma taxa, contribuição ou aumento de alíquota para resolver os problemas da saúde, educação, segurança, etc. Quem se lembrou da famigerada CPMF tem todo o direito de soltar um grito de indignação.
O absurdo dessa proposta é que ela é exatamente a mesma que vem sendo aplicada, com raríssimas exceções, desde o descobrimento do Brasil até a atual era FHC! E tanto por governos de direita, esquerda, militares e ditaduras em geral. Essa idéia se mostrou claramente ineficiente do ponto de vista econômico, injusta do ponto de vista da distribuição de renda e uma maquiavélica indutora da corrupção moral e financeira.
Para quem conhece mesmo que rasteiramente as implicações práticas dessa filosofia política e econômica, não teve nenhuma surpresa com os casos Sudan, Nicolau, Georgina, PC Farias e tantos outros que apareceram e ainda aparecerão. Eles não são uma novidade, mas uma velha doença endêmica causada pelo vírus do excesso de tamanho e de poder do Estado.
Assim como algumas propostas discutidas ao longo desses 14 anos foram postas em prática com resultados muito positivos - a estabilidade monetária com o fim de planos econômicos intervencionistas absurdos tipo o congelamento de preços de Sarney ou o confisco da poupança de Collor, a eliminação de monopólios como o da telefonia com o incentivo à concorrência de mercado e outros; essa edição do Fórum da Liberdade também apresentou propostas concretas e inovadoras para resolver os sérios problemas da educação, da saúde e da previdência social, algumas já aplicadas em outros países e de eficiência comprovada, outras assustadoramente radicais.
Mas, independente das alternativas, uma verdade se repetiu: sempre haverá mais problemas a serem resolvidos e necessidades a serem satisfeitas do que dinheiro para fazê-las. Por isso, qualquer modelo que provoque desperdício de dinheiro e incentivo à corrupção não é apenas estúpido ou injusto: é criminoso. (O autor, Kleber Boelter, é empresário e escritor, graduado em engenharia)