Onde poderemos descobrir o sentido da vida? Estamos lendo página de uma revista cristã, na qual um casal lembra o sentimento humano com que todos nós, indistintamente, precisamos impregnar a nossa existência. E, lembrando o axioma segundo o qual nos cabe o dever indeclinável de rumarmos em tal caminho, destaca o casal que ninguém pode viver sem sensibilidade e deixar de ajudar o próximo a superar seus problemas, suas dificuldades, suas deficiências gerais, inclusive e especialmente físicas e mentais, ainda que isso - como diz a revista - nos signifique diminuir o passo e mudar o rumo...
Exemplificando, o autor evoca em profundidade a flagrante sensibilidade externada, nas olimpíadas especiais de Seattle, por nove jovens atletas, todos marcados por penosas deficiências mentais e físicas. Conta que eles se alinharam na pista do estádio para a largada de corrida de 100 metros e, ao perceberem o sinal, partiram para a jornada, exceto um deles, que, tropeçando no asfalto, rolou pelo chão, machucou-se e começou a chorar. Quando os companheiros perceberam o inesperado acidente pararam, voltaram apressadamente e rodearam o garoto. Então, uma menina da equipe, com síndrome de Down, ajoelhou, beijou carinhosamente o menino e lhe disse, confortando: Pronto, agora você vai sarar. Vamos prosseguir unidos até o fim. Imediatamente, os atletas deram-se os braços, entrelaçaram as mãos e foram andando, juntos, até a linha de chegada, demonstrando, objetivamente, dessa maneira, que o que importa realmente nesta vida é muito mais do que ganhar sozinho. Urge partilhar a imprescindível amizade fraterna, geradora de fraternidade. Urge dividir as conquistas, sem dúvida, assim como os sacrifícios! E a bela página completa aduzindo que os atletas eram (e são) deficientes, mas, com certeza absoluta, como o provaram, suas deficiências não eram de falta de sensibilidade, pois revelaram, no episódio, tê-la de sobra em seus bondosos corações. Por isso, até foram aplaudidos afetuosamente pela grande platéia.
Há por aí, convenha-se, tantos exemplos do muito que pode fazer a sensibilidade humana, como geradora de amor, amizade e fraternidade. Vários de nossos programas de televisão e rádio, bem como notícias de jornais e revistas, atestam-no eloqüentemente. A queridíssima Xuxa, por exemplo, se constitui em uma elogiável expoente do que as sociedades deveriam fazer sempre para se enquadrarem no sentido real da vida, pois constantemente ela tem apresentado na TV encenações artísticas com crianças e jovens inteiramente deficientes (cegos, mudos, surdos, paraplégicos, tetraplégicos e outros), os quais conseguem fazer-se entender, muito bem, com as mãos, braços, olhos, lábios etc, pois se expressam e são plenamente entendidos, dessa forma, como se não portassem as deficiências que os castigam. O que representa isso para eles? Tudo ou quase tudo. Seria tudo se suas apresentações nas telas ou fora delas lhes possibilitassem o milagre da recuperação, ou melhor, da conquista dos requisitos físicos que lhes faltam. Como ainda isso não é possível, resta-lhes oferecer as lições de compaixão humana (compreensão, amor e fraternidade) a quantos delas careçam e que se somam aos milhões neste mundo de Deus, pois, infelizmente, há aí pelas quebradas tanta gente perfeita mas sem uma gotinha de sensibilidade. Ainda não descobriram o sentido da vida! É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.