Estudiosos dedicados à historiografia crítica do Brasil já atestaram que a Inconfidência Mineira não teve tantas conquistas
Quem freqüentou os bancos escolares do ensino fundamental - 1.ª a 8.ª séries - antes da década de 90 e não se aprofundou nos estudos sobre História provavelmente deve enxergar Joaquim José da Silva Xavier, o popular Tiradentes, como um líder do século XVIII que revolucionou o Estado de Minas Gerais à frente do movimento da Inconfidência. Deve também ter na memória a figura de um homem de barbas e cabelos longos injustamente enforcado e esquartejado por pregar aos quatro cantos ideais libertários contra a Coroa Portuguesa. Realmente, é difícil imaginá-lo de outra maneira.
Os estudiosos dedicados à historiografia crítica do Brasil, porém, já atestaram que o episódio da Inconfidência Mineira foi valorizado mais por conveniência do que por mérito ou efetivas conquistas. Poucos têm acesso a essa visão crítica. Essa análise crítica da interferência sócio-econômica-política do movimento ainda é pouco disseminada nos colégios devido à lamentável distância entre as pesquisas históricas de ponta e os livros didáticos. Estes, com raras exceções, limitam-se à cronologia comentada da vida de Tiradentes, sem contextualizações e exercício de crítica.
Temos professores formados há muito tempo e temos escolas que não têm atualização de pesquisa. O ensino acaba ficando preso a livros didáticos antigos, permanecendo a visão tradicional da história. As editoras também não se interessam em publicar livros de historiadores, dificultando ainda mais o acesso. Além disso, esses especialistas estão fora da mídia, ou seja, é um conjunto de fatores que mantêm a leitura convencional. Precisamos de novos professores de História com formação crítica, reciclar os antigos no programa de educação continuada e atingir a população através dos meios de comunicação de massa, analisa a professora de História Rosângela de Lima Vieira.
A história que não chega à escola aponta a Inconfidência Mineira como um movimento de bem menos expressão do que se imagina. Longe de ser popular - a maioria de seus cabeças era composta por intelectuais viajados e com uma visão política muito adiantada -, o grupo nunca teria chegado à prática de ações conspiradoras. Eles, sim, reuniam-se para discutir o futuro do País, agregando simpatizantes dos mais diferentes níveis de idealismo, segundo a análise crítica da História. Muitos só participavam com o objetivo imediatista de acabar com a tributação pesada imposta por Portugal. Tiradentes, representante do Exército na condição de alferes do Regimento dos Dragões de Minas Gerais, era o único de origem humilde e com pouca instrução que compartilhava das idéias macro, cujo norte era romper o monopólio dos lusos sobre o Brasil.
Nas tavernas de Vila Rica, os inconfidentes debatiam à luz de velas e ao sabor da bebida a exploração do povo brasileiro, que era obrigado a pagar o quinto à Coroa, ou seja, 20% da produção. Durante quase 50 anos, Portugal fixou o tributo em 1.500 quilos de ouro anuais, independentemente de qual fosse a produção efetiva. O declínio da mineração, entretanto, sacrificava cada vez mais a Colônia, que tirava de si para cumprir a meta estabelecida. Indignados, mineradores, fazendeiros e comerciantes passaram a ações dissimuladas para justificar atrasos de pagamento.
A resposta de Portugal não demorou e veio do governo de Minas no início de 1789, quando foi anunciada a derrama - os arrecadadores invadiam casas e estabelecimentos e derramavam o conteúdo dos baús em busca de pratarias e objetos de valor comercial -, uma tributação conquistada na marra para complementar o teto fixado. Foi essa exploração sem precedentes que motivou os intelectuais a iniciarem discussões sobre a necessidade de rompimento com a Coroa. Trazendo para os dias atuais, a derrama funcionaria como os impostos que o governo vive criando para engordar a arrecadação. Uma CPMF do século XX.
Das reuniões, também participavam contratadores a serviço de Portugal, como Joaquim Silvério dos Reis, figura que teria delatado o movimento. A traição, por sinal, naufragou aquela que teria sido a única conspiração urdida pelos inconfidentes. À véspera de mais uma derrama, eles organizaram um protesto, cujo objetivo era ganhar a adesão do povo. O grupo apostava que a indignação popular seria o ingrediente exato para alavancar de vez o movimento de contestação. Antes de chegar às ruas, a revolta foi descoberta pela governo, que ordenou a prisão dos envolvidos.
Três anos mais tarde, o processo contra os inconfidentes foi finalmente concluído. Onze dos principais líderes foram condenados à forca, enquanto os demais, à prisão perpétua e ao açoite em praça pública. De todos os condenados de morte, Tiradentes foi o único executado.
O destino diferente do alferes, no entanto, não foi por qualquer ação de destaque em relação aos demais. Sem raízes na aristocracia e visto por alguns historiadores como um idealista ingênuo manipulado, Tiradentes não obteve a clemência concedida aos seus companheiros, que conseguiram converter a pena de morte no exílio na África. Seu empenho em defender os ideais durante o julgamento acabaram por desagradar de vez as autoridades coloniais. Solitário, foi enforcado dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, tendo posteriormente a cabeça exposta num poste da praça central de Vila Rica - um desencorajador contra outras possíveis revoltas.
A luta dos inconfidentes como se vê aqui pouco acrescentou em termos de efetivas mudanças. O almejado fim dos impostos não ocorreu, muito menos a independência de Portugal, que só veio 30 anos mais tarde e ainda de maneira questionável, uma vez que o rompimento foi meramente político. A dependência econômica permaneceu, ou melhor, piorou, pois, com o desmame, o Brasil assumiu a titularidade da dívida externa antes em nome da Coroa. Daí para frente, todo mundo conhece a história.
Não fosse pelos ideais republicanos que se intensificavam, a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes talvez fossem pouco lembradas nos dias de hoje. A concepção positivista da República, entretanto, exigia a formação de uma mentalidade popular sustentada por heróis. Daí a conveniência da figura do mártir apontada por historiadores e a justificativa da célebre tela de Tiradentes esquartejado. Na pintura, o alfares tem um semblante que remete à figura popularizada de Jesus Cristo, representando o sofrimento de um em nome da coletividade. Foi uma forma de firmar no inconsciente do povo a imagem incontestável de que o inconfidente foi realmente um herói - aliás, o primeiro brasileiro.
Sabe-se também que as chances de Tiradentes ter longos cabelos e barba no momento da morte são quase nulas. Na época, os presos eram obrigados a raspar a cabeça para evitar a propagação de piolhos e outras pestes.