Não bastassem as dificuldades que o município de Bauru amarga em conseqüência de seu péssimo sistema de drenagem de águas pluviais e da interminável crise financeira que há anos vem barrando investimentos, mais um sério problema urge ser enfrentado: o asfalto. A buraqueira generalizada, aliada às ondulações e aos remendos malfeitos e sobrepostos ao longo dos anos, já virou motivo de chacota popular. Não raro se ouve por aí que há asfalto no buraco ou que Bauru é o terreno que mais se parece com o solo da lua. As ironias partem até mesmo de quem vem à cidade só a passeio.
As brincadeiras, entretanto e felizmente, não fazem do real problema um mero pano de fundo. É andando de carro pelas ruas ou até mesmo a pé que percebemos a gravidade da situação. Com raríssimas exceções - sim, elas devem existir -, é impossível percorrer a cidade sem experimentar os solavancos e trepidações causados pelas críticas condições do pavimento asfáltico. Os buracos ainda existem, mas, aos poucos, estão sendo reparados pela operação tapa-buracos, um serviço de qualidade questionável que só este ano vai consumir R$ 1,5 milhão dos cofres de Bauru. Entre recapear corredores de tráfego (leia-se grandes avenidas), deixando as transversais como estão, e tapar o maior número de buracos em toda a cidade, a administração municipal optou pela segunda. É uma forma de beneficiarmos um número maior de pessoas, justificou Edmilson Queiroz Dias, secretário municipal de Obras.
As soluções paliativas, por sinal, vêm sendo praxe dos últimos governos municipais. O último recapeamento, que beneficiou apenas algumas ruas do centro comercial, ocorreu há cerca de seis anos. Fora ele, o que se fez em termos de pavimentação pública não foi além dos serviços de tapa-buracos. A eficácia dos remendos é realmente contestável, especialmente pelo modo que são feitos. A reportagem do JC nos Bairros acompanhou uma equipe da Prefeitura realizando o trabalho na quadra 14 da rua São Sebastião, na Nova Esperança, e ficou surpresa com a rapidez. Entre a sutil e prévia limpeza do buraco e a compactação final da massa não se gastou mais do que quatro minutos. Uma marca recorde em tempo, mas que pode deixar a desejar em se tratando de qualidade.
O geógrafo José Aparecido dos Santos, diretor-executivo e membro da Comissão de Urbanismo e Meio Ambiente da seção-Bauru da Associação dos Geógrafos Brasileiros, é dos que defendem maior qualidade nos serviços de recuperação, ainda que sejam tapa-buracos. Na opinião dele, o correto seria que fosse feito o recorte exato ao redor do asfalto erodido, uma limpeza esmerada e uma boa compactação. Não vejo que custo a mais isso geraria para o município. Seriam talvez 10 ou 15 minutos a mais de serviço, mas que compensariam pela qualidade. A falta de capricho interfere na durabilidade e eficácia do serviço, apontou.
Primoroso ou não, o certo é que o tapa-buracos não é o serviço mais adequado para balizar uma política de pavimentação pública. Qualquer pessoa que trafega pela avenida Duque de Caxias, por exemplo, sente na pele os resultados dos remendos a longo prazo. O recapeamento, sim, é o que a população espera da administração pública. E não adiantam promessas alucinadas de que o asfalto vai sair de graça para o povo. Com previsão de orçamento curto até 2004, a Prefeitura não terá condições de custear uma obra tão grandiosa. Grandiosa porque 95% do asfalto da zona urbana estão totalmente deteriorados, clamando pelo recapeamento. Seriam 7,5 milhões de metros quadrados, num investimento estimado em R$ 82 milhões.
A administração municipal já anunciou a inviabilidade de solucionar integralmente o problema, até porque considera que concluir tal proeza só seria possível em três governos, ou seja, no ano de 2012. Este ano, o problema será contornado somente com o tapa-buracos, havendo previsão para investimentos a partir de 2002.
Longe de defender esta ou aquela administração, é preciso salientar que a problemática do asfalto público remonta anos, o que divide a responsabilidade entre os que ocuparam a chefia do Executivo Municipal. A questão é que a vida útil do pavimento asfáltico chegou agora a seu limite máximo, especialmente por conta das chuvas que castigaram a cidade no início de fevereiro. Cabe ao prefeito Nilson Costa não a culpa pelas péssimas condições do asfalto, mas sim a implementação de uma política séria e eficiente que vislumbre a solução a médio e longo prazo. É essa a cobrança que a população bauruense tem de fazer para garantir a qualidade do chão que utiliza.
Recuperação total só em 2012
Onze anos. Esse seria o tempo que a administração de Bauru, tendo em vista as previsões orçamentárias pouco animadoras, demoraria para recuperar integralmente o asfalto da zona urbana. Há muito tempo sem manutenção e programas de recuperação, o pavimento está vencido em 95% da cidade, ou seja, são 7,5 milhões de metros quadrados necessitando de urgente recapeamento. Em dinheiro, isso significaria algo em torno de R$ 82 milhões, mais de 70% do orçamento anual deste ano.
Os parcos recursos existentes para investimentos estão, prioritariamente, sendo aplicados na implantação de galerias pluviais, destinação que deve continuar no ano que vem. Para 2002, porém, o secretário municipal de Obras, Edmilson Queiroz Dias, anuncia a abertura de licitação para contratar a primeira etapa do plano de recuperação do asfalto. Essa fase deverá priorizar corredores de tráfego intenso de veículos e ônibus coletivos. Para o primeiro momento, eu citaria a avenida Rodrigues Alves, a avenida Duque de Caxias, a rua Alto Acre, Alto Purus, os corredores das vilas Falcão, Cardia e Independência e a Nações Unidas. Esses pontos precisam de recapeamento urgente, além do quadrilátero da área central, listou.
Paralelamente, a Prefeitura poderá recuperar alguns trechos para não perder o que já existe, como é o caso daquele da avenida Nações Unidas situado entre o viaduto da Rondon e o Ceagesp. Na opinião do titular de Obras, recuperar antes que a deterioração completa ocorra é uma questão de economia de tempo e dinheiro. É para evitar problemas como os que estamos enfrentando com as galerias pluviais. Além da demanda reprimida e dos poucos recursos, estamos sendo obrigados a recuperar pontos onde já existiam galerias ao invés de investirmos na extensão da rede. Temos que tirar as que estão estragadas e realizar a substituição, o que demanda mais tempo e dinheiro, comparou Dias.
As galerias, aliás, serão imprescindíveis no projeto de recuperação do asfalto, já que a Secretaria de Obras não pretende autorizar a pavimentação em trechos que não possuem a rede de escoamento de águas pluviais. Tão logo recebam a benfeitoria, os pontos estarão automaticamente autorizados a receber o asfalto. Isso, no entanto, só vai ocorrer numa segunda ou terceira etapas do projeto que deverá começar no ano que vem. É preciso enfatizar que um projeto como esse não é tarefa para um governo só, mas para os próximos dois. Quando a recuperação estiver sendo concluída, por sinal, já será hora de se começar a iniciar a fase de manutenção. O asfalto vence a cada 8 ou 10 anos, dependendo das condições climáticas e, em Bauru, elas não colaboram muito. Posso dizer que temos apenas 5% de asfalto com menos de 10 anos hoje na cidade, ou seja, praticamente tudo está velho. Uma vez vencido, o asfalto torna-se cada vez mais vulnerável e suscetível à abertura de fissuras, buracos e deformações, explicou.
Depois dos corredores principais de tráfego, será a vez das vias secundárias serem recuperadas. No caso, são as ruas perpendiculares que cortam as avenidas-eixo como Rodrigues Alves e Duque de Caxias. Só depois disso é que começaria a pavimentação na periferia - esse, obviamente, é o plano da administração Nilson Costa, que poderá ou não ter seqüência nas gestões sucessoras.
A expectativa do governo atual é chegar ao final de 2004 com 1,2 milhão de metros quadrados recapeados e pavimentados. Temos que ter parâmetros, mas não imaginar absurdos. Dentro de uma administração que cuida bem dos seus recursos, ainda que sejam escassos, temos a ousadia responsável de chegar a esse número. É um desafio que vamos perseguir. Tudo o que passar disso, será lucro, delimitou. Asfalto não é luxo e sim uma melhoria de caráter social. Onde ele existe, o custo de manutenção da cidade é bem menor, assim como a qualidade de vida e a saúde da população. Como se diz, é sinal de progresso, acrescentou.