Geral

Alca sob controle

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

O cronograma de implantação da Alca (Associação de Livre Comércio das Américas) aparentemente está sob controle. Na recente reunião preparatória de Buenos Aires, a diplomacia brasileira conseguiu neutralizar a manobra dos Estados Unidos e do Chile, que tentavam antecipar a criação zona de livre comércio para 2003. Na visão dos ministros Celso Lafer e Alcides Tápias, daqui para frente, a questão mais importante não será mais quando, mas sim como será feita a negociação entre os futuros 34 membros da Alca.

Algumas questões internas da política americana em relação a este assunto tendem a fortalecer mais a posição do Brasil. Por exemplo, a recusa de George W. Bush em cumprir o Protocolo de Kyoto, que prevê a redução das emissões de carbono na atmosfera, das quais os Estados Unidos sozinhos respondem por 25% do total mundial, colocou os ambientalistas de lá contra a Alca.

Além dessa, há ainda duas outras: as enormes dificuldades que Busch terá para fazer aprovar o fast track (via rápida) no Congresso americano, após algumas trapalhadas na política externa (divergências com a União Européia e o Japão, sobre subsídios à agricultura e questões ambientais; e o recente episódio dos aviões de espiões com a China); e a aberta oposição do sindicalismo americano, por temer o agravamento do desemprego, com a ampliação para todo o continente da experiência vivida até agora pelo Nafta.

Curiosamente, o medo de redução dos postos de trabalho em nível continental é até o momento o único ponto em comum entre trabalhadores americanos, brasileiros e argentinos: todos eles temem a redução do mercado de trabalho, caso não haja salvaguardas contra tal tendência e a implantação da Alca seja apressada. Isso ficou muito claro no encontro de Buenos Aires. No tocante às posições dos governos americano e brasileiro sobre a criação da Alca, de acordo com as negociações realizadas na Argentina - e que deverão nortear também os próximos eventos já agendados sobre o tema -, elas tendem a se aproximar no médio prazo. Hoje, negociadores de ambos os lados já aceitam janeiro de 2005 como ponto de partida para o efetivo rebaixamento das alíquotas de importação de determinado número de produtos.

Daí em diante, a diplomacia americana quer fixar um prazo de dez anos para a transição de zona de livre comércio para mercado comum americano.

Já entre o empresariado brasileiro, as divergências em relação a prazos para a Alca são maiores. Existem quatro posições diferentes: os que defendem cinco, dez, 15 e 20 anos para a fase de transição. Obviamente, os que querem prazos menores (dentre os quais se inclui o setor têxtil) crêem que até lá já tenham adquirido a competitividade necessária. No outro extremo, estão os segmentos cuja competitividade ainda é considerada baixa, como, por exemplo, o setor de máquinas e equipamentos.

A fase mais importante, contudo, qualquer que venha a ser o cronograma da Alca, deverá começar em outubro deste ano, conforme advertiu o ministro Celso Lafer. É que daí em diante e até o início de 2003, começarão a ser definidos os produtos industriais que terão reduzidas as tarifas alfandegárias de importação. O prazo para que governo e iniciativa privada possam aferir a competitividade de produtos e setores industriais do País é extremamente curto. Aumentá-lo é o desafio da nova diplomacia comercial brasileira.

E, ao Poder Legislativo brasileiro, um chamamento patriótico: superem divergências e façam as reformas que a Nação espera e exige!

(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil e da Fundação Brasileira de Marketing.E-mail: presidencia@advbfbm.org.br

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