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Escatologias

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Este País vive um período de falta de vergonha. A quebra das regras da decência não constrange mais. Jogadores da seleção nacional, após o vexame humilhante do empate com o Peru, entre risos e abraços foram badalar na boate do Vampeta. O futebol brasileiro espelha o que acontece no setor político. Deboche total ao que deles espera o povo brasileiro. No plenário mais elevado da Nação, Antonio Carlos Magalhães disse o que quis e desdisse do que havia dito. Agi por razões de Estado. E pronto. Fosse senador japonês pediria desculpas à nação e, ato contínuo, haraquiri.

Na próxima terça-feira, entra em cena na novela Porto dos Milagres o senador Victorino Viana, vivido por Lima Duarte. Será um pouco de Sinhozinho Malta (Roque Santeiro), Major Bentes (Fera Ferida) e Murilo Pontes (Pedra sobre Pedra) envolvido com grampos telefônicos e a revelação dos podres dos correligionários. Que o povo seja vingado.

O senador José Roberto Arruda, entre lágrimas, admite que pediu a lista, mas não a ordenou. Confessar é corajoso e digno - veio em defesa do seu ex-líder o presidente Fernando Henrique Cardoso. Jader Barbalho, sem saída, disse ser verdade que um dia teve ligações com o maior fraudador da Sudam, mas sua mulher cumpriu com seus compromissos, tanto é que o ranário lá está, embora cada rã tenha custado 10 mil reais aos cofres da Nação. Soltem Fernandinho Beira-Mar que teve a dignidade de confessar ter roubado e traficado sem jamais se fazer passar por pai da pátria.

Quando acompanho pela televisão depoimentos de Jader Barbalho, José Roberto Arruda e ACM, não resisto a comparações literárias. Principalmente com o recém-saído livro de Rubem Fonseca que tem o título de Secreções, Excreções e Desatinos. Nada para estômagos sensíveis. Logo no primeiro conto, Copromancia (traduzo por o que contam os excrementos) o personagem começa a analisar de forma minuciosamente descritiva as próprias fezes. Em outro conto, um apaixonado cidadão chupa a ferida de sua amada. Mais à frente, o marido troca o prazer do casamento pela flatulência. E o livro segue, bofetada atrás de bofetada, marcadas pela concisão e pelo vigor perturbadores de Fonseca. Assim os depoimentos senatoriais: para quem tem estômago... e intestino.

É possível que o episódio da violação do painel eletrônico tenha sido montado por ACM e o líder do governo José Roberto Arruda como resultado de um surto de apoteose mental que conferiu a ambos a ilusão orgásmica da onipotência política. Esta hipótese pode ser enriquecida com a compulsão à esperteza, indiscutivelmente um traço do caráter nacional do qual os brasileiros têm grande dificuldade de se livrar. Temos heranças portuguesas já suficientemente denunciadas nos sermões do padre Vieira. A crise no Senado protagonizado pelos dois senadores confirma o que disse o primeiro filósofo brasileiro, Matias Aires, em suas Reflexões, quando criticava aqueles que fazem da vaidade não uma paixão como as demais, e sim uma paixão sobre as demais. Quem é dominado pela paixão das vaidades tem uma natureza radicalmente corrompida - concluía.

Tivessem pelo menos lido Maquiavel, a cartilha de todo político, teriam aprendido que submeter-se às leis e ouvir o parecer dos outros é a maior prova de sabedoria que podem dar os que têm poder. O cronista florentino, em outra obra criou o personagem Honesta que se via como se fosse dona de tudo e de todos. Prepotente, o poder para ela não tinha limites. Intimidava os próximos, sem respeito nem piedade. Quando queria algo, tinha. Mesmo quando fosse pecado. Belfagor, outro personagem, foi instrumento das ordens de Honesta e pecador confesso. Ambos condenados ao fogo dos infernos.

Assim deve fazer o povo brasileiro encharcado de tanta apropriação dos recursos públicos, tanta mentira e arrogância. Que se ardam ACM, Arruda, Jáder e quem mais for preciso. Nos quintos dos infernos poderão mentir à vontade. Até porque, como dizia Camus, a mentira é um bom crepúsculo.

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