Queridos leitores do JC Criança, é um imenso prazer estar escrevendo pela primeira vez neste caderno superlegal. Mais legal ainda é estrear contando a vocês um pouco da história de vida da escritora Liliana Iacocca, uma das mais importantes do Brasil em se falando de literatura infanto-juvenil, que esteve em Bauru no último dia 20 como atração na Feira do Livro Infanto-Juvenil. Simpatissíssima, essa senhora de olhar maroto que faz questão de manter a alma de criança já escreveu mais de 60 livros e vendeu - segurem o queixo - aproximadamente 5 milhões de exemplares.
Para falar a verdade, ela acha que vendeu pouco diante da população infantil brasileira, mas tem fé que algum dia todas as crianças vão ter acesso aos livros, ao teatro, enfim, à cultura de uma forma geral. Foi o hábito de ler muito na infância, por sinal, que ajudou Liliana a ser a grande e respeitada escritora que é hoje. Ela contou que desde pequenina passava horas em frente aos livros de Monteiro Lobato, que naquela época já fazia sucesso com a Narizinho, Emília, Pedrinho, Visconde de Sabugosa e os outros personagens que ficaram célebres com o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
A possibilidade de fantasiar e de enxergar o mundo real de outra forma sempre fascinou a escritora, que se sente maravilhada em poder dar vida a seres inanimados. Acabei optando pela literatura infantil porque sempre achei o mundo imaginário mais gostoso. De repente, um óculos pode falar e uma cadeira se transformar, justifica. Antes de se tornar escritora, ela, que é jornalista por formação, trabalhou com teatro, revistas e montou passatempos como palavras-cruzadas. O teatro ela não abandonou por inteiro, tanto que já estuda a montagem de algumas de suas principais obras.
O primeiro livro de Liliana foi publicado 20 anos atrás, depois que ela tomou coragem e mostrou o texto a um editor. Logo em seguida, tirou o primeiro lugar num concurso promovido pelo extinto Instituto Nacional do Livro. A vitória, conta ela, foi um estímulo à recém-iniciada carreira. Sinto que seria muito importante as cidades, sejam grandes ou pequenas, realizarem concursos desse tipo para incentivar os talentos, sugeriu.
Além dos muitos livros de ficção, Liliana enveredou-se para a literatura informativa, contando com o trabalho de seu marido, o ilustrador Michele Iacocca. Aliando o texto à imagem, eles fizeram um interessante livro sobre o histórico das constituições brasileiras, destacando a importância da cidadania e das leis ao público infantil. A obra, publicada em 1987, um ano antes da promulgação da nossa Constituição vigente, é uma das mais vendidas até hoje. Na seqüência dele, vieram títulos sobre meio ambiente, orientação sexual e trânsito.
De lá para cá, a parceria com Michele não parou mais. Trabalhar com o marido é pior do que a briga da gente trabalhar com a gente mesma. Trocamos idéias até chegarmos a um consenso, mas isso é complicado e cansativo, apesar de valer muito a pena. Fazemos pesquisas profundas e buscamos não apresentar conceitos. É uma forma de fazer o leitor pensar. Não gostamos da linha didática-professoral, que diz o que é certo ou errado. Preferimos uma forma que leve o leitor a tirar suas próprias conclusões, explicou.
É com esse pique que Liliana e Michele estão preparando seu próximo livro, cujo título ainda não foi definido. Ela adiantou que será uma espécie de manual direcionado ao público adolescente. Um texto elaborado para fazer os teens refletirem sobre agressividade, cidadania, sociedade de consumo, trazendo também testes e dicas para lá de curiosas.
E por falar em dica, a escritora deixou algumas para vocês, tenham o dom ou não para a literatura. Uma delas, aliás, levem ao conhecimentos de seus pais: leitura não é só livro, mas conversa também. Reúnam os seus filhos sempre que puderem para jantar e aproveitem esse momento para trocar idéias e contar causos. Antes, não esqueçam de desligar a televisão, pois, embora tenha mil boas facetas, ela limita a fantasia das crianças ao expor tantas formas de violência. Essa é a pior literatura que vocês, pais, podem oferecer aos filhos. A criança precisa de poesia, não de tristeza, ensinou.
Para a Turminha JC, Liliana recomenda a leitura e a observação sempre. Olhem com profundidade tudo o que está ao redor de vocês. Quando estiverem na frente de um livro, saibam que estão no caminho da paz, porque não há nada mais pacífico do que refletir consigo mesmo, orientou.
(*)especial para o JC Criança. Josefa Cunha é editora do caderno JC nos Bairros, que mostra a vida nos cantos da cidade de Bauru, suas características culturais, físicas, religiosas e sociais.