Geral

Crise não afeta venda de veículos

André Tomazela
| Tempo de leitura: 8 min

A alta das taxas de juros e as restrições de crédito impostas pelos bancos ainda não fizeram baixar a velocidade da venda de veículos no mercado interno. As vendas no primeiro trimestre foram maiores que as expectativas da Fenabrave, segundo o presidente da entidade, Hugo Maia

O presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotivos (Fenabrave), Hugo Maia, esteve em Bauru na última sexta-feira, para participar do envento anual do setor de distribuição de automóveis, no qual proferiu palestra sobre o tema Qual é o futuro da concessão de veículos?, seguido de debate sobre as ferramentas disponíveis, projeções de mercado e conjuntura atual do mercado automobilístico. Houve, também, uma palestra proferida pelo consultor e professor, José Carlos F. Ferreira sobre a 84ª. Convenção da N.A.D.A., entidade dos Estados Unidos que tem função semelhante à da Fenabrave no Brasil. O evento da N.A.D.A., que foi realizado no último mês de fevereiro em Las Vegas, é considerado o maior evento mundial do setor de distribuição que trata de assuntos relacionados ao mercado automobilístico. Participaram do evento em Bauru representantes de concessionárias de várias marcas.

Na parte da manhã, os distribuidores Ford também se reuniram numa convenção da Associação Brasileira dos Distribuidores Ford (Abradif) para tratar de um novo programa de treinamento, chamado de Master, de acordo com o diretor da Disbauto e da Abradif, Daniel Garcia Alonso.

Hugo Maia falou ao AutoMercado & Cia sobre o que foi discutido no evento, realizado no Hotel Obeid Plaza. Entre os assuntos estão a conjuntura econômica atual do País e os seus reflexos no setor de distribuição de veículos no mercado interno, a recuperação nos níveis de produção e venda de veículos neste ano e as perspectivas para os próximos anos e o futuro das concessionárias com o advento da venda de veículos e peças pela Internet. Confira os principais trechos da entrevista.

AutoMercado & Cia - O que foi este evento realizado em Bauru?Hugo Maia - Todo ano a gente visita algumas regiões que representam o Brasil todo para sentir como é que está indo, trazer algumas informações, discutir alguns detalhes. Neste evento específico, nós estamos aproveitando que tinha outro evento da regional dos concessionários Ford para economizar tempo e despesas.

AutoMercado & Cia - Quais foram os temas discutidos neste evento?Hugo Maia - Nós temos um congresso anual. Todo ano nos reunimos para contar como vai ser o congresso, convidar e etc. Este foi um item. Anualmente comparecemos ao congresso americano da N.A.D.A. e participamos de um grupo europeu de pesquisas chamado ICDP. Nós fazemos um relatório do que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa e, neste ano, resolvemos fazer o relatório verbal, além da parte escrita.

Como a Fenabrave trabalha incessantemente em busca de produtos e ferramentas para a rede, nós também viemos contar que a entidade vai lançar em agosto uma Universidade Corporativa. Além disso, nós vamos lançar um selo de certificação de processo de carro usado, junto com o I.Q.A. que é o Instituto de Qualidade Automotiva.

A Fenabrave tem um portal voltado inteiramente para os concessionários. Nós estamos sempre introduzindo novidades e viemos mostrar como navegar neste portal, que é fechado apenas para concessionários.

AutoMercado & Cia - A atual conjuntura econômica brasileira, com a alta do dólar e o aumento das taxas de juros em função da crise argentina, influenciam de que modo o setor de veículos no mercado interno?Hugo Maia - A economia do Brasil estava indo muito bem, tanto que, no ano passado, todos os setores cresceram e o setor industrial atingiu quase que a plena capacidade. Nós vínhamos sinalizando uma queda da taxa referencial de juros (taxa Selic) e uma expansão do crédito. Tanto que neste primeiro trimestre, o nosso segmento apresentou bom volume de vendas. Ficou até um pouco acima das nossas expectativas.

Os índices estão dentro do que imaginávamos que ia acontecer no ano, mas não esperávamos que as vendas se concentrassem no primeiro semestre. Com essa problemática econômica, o que sabemos de prático é que os bancos subiram os juros, reduziram os prazos e estão apertando o crédito. Esta é uma parte importante para vender automóveis, caminhões etc. Ninguém compra à vista. É necessário que haja volume de crédito, até mais do que taxas baixas de juros. A partir do momento em que há uma restrição no crédito e os prazos tornam-se mais reduzidos, poderá haver uma diminuição na velocidade das vendas. Por enquanto, não aconteceu e tudo continua dentro do esperado. O Brasil possui um sistema de consórcio de vendas de veículos muito sério e bem organizado que não depende da conjuntura econômica atual. Houve momentos em que o governo restringiu até a venda de consórcios para conter a expansão.

Com relação a essa crise, há muita especulação e é preciso esperar mais um pouco. No momento, a crise política, os desequilíbrios que estão acontecendo no Senado fazem com que as pessoas percam um pouco a confiança. O fator principal é a confiança. Os consumidores têm que ter certeza de que não vão perder o emprego e que vão continuar ganhando o suficiente para continuar pagando as prestações. Geralmente, as vendas de veículos caem muito mais pelo fator falta de confiança do comprador do que por outros fatores.

AutoMercado & Cia - As variações para o alto da taxa de câmbio afetam o mercado interno?Hugo Maia - A taxa de câmbio, a nós não diz respeito. Os veículos importados têm, hoje, uma participação muito pequena no mercado. A venda de importados puros não passa de 2% do mercado. São veículos destinados a uma faixa de público a qual essa diferença não afeta. Não são veículos de massa.

Com relação aos nacionais, 70% dos carros vendidos são populares, que são 100% de fabricação nacional e, conseqüentemente, não há motivos para que o setor seja afetado com o dólar. As montadoras, por outro lado, afirmam, pelo menos nos jornais, que exportam. Mas se elas importam e exportam, o aumento do dólar é anulado. O dólar não é um fator preocupante para nós. O mais importante é a expansão de crédito e a confiança. O que precisa acabar logo é essa crise institucional que abala a confiança.

AutoMercado & Cia - Os aumentos nos preços dos veículos continuarão acontecendo no curto e médio prazos?Hugo Maia - As montadoras de automóveis aumentam o preço todo mês. Para isso não adianta querer encontrar razão. Todo mês aumenta 1,6%, 1,8% ou 1,4%. Aumentam o preço de um produto, depois aumentam de outro. Isso vai continuar assim, porque não há controle de preços no Brasil e as montadoras podem fazer o que elas quiserem.

Isso é muito ruim, porque nós não estamos com a renda crescendo proporcionalmente aos aumentos. E se 70% das vendas configuram-se em cima dos carros mais baratos, isso significa que a cada vez que se mexe nesse preço, atinge-se essa camada (classe média).

AutoMercado & Cia - Com o início das transações no setor de vendas de veículos e peças através da Internet, como fica o papel e a estrutura das concessionárias? Hugo Maia - Não muda nada! A Internet é só um instrumento de comunicação e de informação moderno que todo mundo tem que usar. Mas ele não substitui o ato físico de vender e dar assistência técnica. De acordo com o que foi discutido no congresso americano, ninguém mais fala em venda de veículos pela Internet. Fala-se em venda de peças e em informação.

Hoje, a pessoa que quer comprar um carro, acessa a Internet para obter informações sobre novos e usados e quando vai comprar o carro, pode estar mais bem informada do que o próprio vendedor da concessionária.

AutoMercado & Cia - A figura do vendedor terá que sofrer adaptação, então?Hugo Maia - Se ele não for retreinado, pode ficar com cara de bobo ao sentir que o cliente sabe mais do que ele. Toda vez que surgem novos meios de comunicação, as empresas têm que fazer adaptações e retreinar o pessoal.

Agora, cada vez mais, no mundo inteiro, a estrutura física do concessionário está ficando mais forte porque, na medida em que os países e estados estão se popularizando e se expandindo, faz-se necessária a presença da concessionária em função da necessidade da assitência técnica. Prova disso são os recalls que ocorreram ultimamente. Se não tiver concessionária, o cliente vai fazer o recall onde? Manda a peça pelos Correios e o cliente mesmo troca? Do yourself não funciona...

AutoMercado & Cia - Como é que está a produção e venda de veículos, atualmente? Hugo Maia - A produção e venda de veículos atingiu o pico em 1997. Em 1998 e 1999 caiu. No ano passado houve uma recuperação de cerca de 16% e, neste ano, nós temos uma expectativa de recuperação de mais 13%. Isso vai configurar de 25% a 30% de recuperação.

Já que não há o carro barato, porque a montadora sobe o preço todo mês, é preciso confiar que a economia vai alcançar o preço. Se você pegar a motocicleta, é completamente diferente. Eles não sobem o preço, fazem um produto barato e conquistam o mercado. Prova disso é que motocicleta nunca vendeu tanto. Neste ano está previsto para vender 700 mil unidades e já vai para 1 milhão de unidades rapidamente. No período de cinco anos em que a inflação foi de 57%, a motocicleta subiu 24%, enquanto que os automóveis subiram 120%.

O que é a Fenabrave

A Fenabrave engloba todo o setor de distribuição automotor: motocicletas, caminhão, trator, ônibus e automóveis comercializados. A função da entidade de classe (que é regulada por lei) é estabelecer o equilíbrio entre a produção e a distribuição, seja fiscal, de preços e outros tipos de equilíbrio entre a produção e distribuição.

Comentários

Comentários