Geral

Samba do approach

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Nenhuma língua é pura. A língua é o que os falantes fazem dela. A expressão check-in, por exemplo, é utilizada nos aeroportos do mundo inteiro. De nada adianta tentar a proibição de seu uso por melhor que sejam as intenções de quem queira defender a nossa identidade nacional. Mas também não acho que o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), aprovado pela Câmara e agora tramitando no Senado, tenha base numa tese xenófoba. Existem abusos como usar delivery em vez de entrega, ou sale em vez de liquidação. O termo adagio, por exemplo, que designa o andamento entre o largo e o andante e todas as demais expressões italianas que se referem à música clássica, são insubstituíveis. Também não precisamos chegar ao cúmulo de qualificar de allegro ma non tropo o cara que na festa bebeu um pouco além da conta.

Ouvi Gilberto Gil na televisão falando sobre o seu sítio na Internet. Está certo. Os norte-americanos foram buscar também no latim a palavra para significar lugar assinalado e nós, que já a tínhamos no vocabulário, copiamos a formulação inglesa site, que significa sítio. Puro macaquismo. Assim também aconteceu com media, que os americanos pronunciam mídia para designar os meios de comunicação. Os gringos capturaram do latim o media, medium e nós adquirimos deles um produto adulterado (mídia), mesmo tendo o legítimo à disposição. Burrice.

Por outro lado nosso próprio idioma se fez incorporando termos tais como futebol, boate, abajur e tantas outras expressões que se tornaram correntes. Agora é difícil resgatar suas correspondentes nativas. A criatividade do brasileiro é tão grande que certas palavras passam a ser conjugadas sem que isso exista no idioma original: eu deleto, tu deletas, ele deleta. Meu cunhado americano acha engraçado o nosso disk-pizza, disk-isso, disk-aquilo. O verbo discar em inglês é to dial. Ficou mais espantado ainda quando soube que na USP existe um disk-gramática na Faculdade de Letras. Filólogos e gramáticos de plantão socorrem qualquer do povo que capota ou se perde nos meandros da língua portuguesa. Gramsci defendia como legítima a prática de aproveitar a cultura hegemônica para enriquecer a própria. Vale a adaptação. Inaceitável é a troca do que já temos por coisa igual ou pior. O New York Times chama o Fernandinho Beira-Mar de Freddy Sea-Shore. Pelo amor de Deus, não vamos copiá-los. Deveríamos, em sinal de vingança, tratar o George Bush de Jorginho Moita.

Tenho minhas dúvidas se a lei do deputado amigo da Majô vai pegar. Não acho uma boa solução proibir. A preservação da língua se faz pela educação e pela divulgação de bons textos, dos dicionários e das grandes obras literárias. As intenções, no entanto, são ótimas. A lei considera prática abusiva, a utilização de palavra ou expressão estrangeira com equivalente em língua portuguesa. Qualifica de prática enganosa, se a expressão ou palavra gringa puder induzir pessoas a erro ou ilusão de qualquer espécie. Quanta gente pensa que tudo o que é diet não engorda. Não tem açúcar mas contém calorias. A futura lei Rebelo considera prática danosa ao patrimônio cultural o termo alienígena que puder, de algum modo, descaracterizar qualquer elemento da cultura brasileira.

Lembro-me que a companhia de Tonia Carrero levou a Lisboa a peça do autor brasileiro Pedro Bloch, Society em babydoll. As autoridades obrigaram a substituição do título por Sociedade de pijama. Lá eles chamam a rainha da Inglaterra de Isabel, e não Elizabeth. Margareth é mesmo Margarida. Chicletes são gomas elásticas. E por aí vai... Marco Brisola, depois de 60 dias vagando pela Europa, sentiu umas palpitações e resolveu procurar o médico no Porto. Estais maçado, ó rapaz. Depois de muitas perguntas conseguiu traduzir a estranha língua - era stress.

A exemplo de Zeca Baleiro eu também tenho approach. Meu temperamento é light, toda hora rola um insight. Minha vida agora é cool, meu passado é que foi trash. Bye, bye.

Comentários

Comentários