Há mais de 30 anos Rubens Ewald Filho tem uma das opiniões mais respeitadas em todo Brasil quando o assunto é cinema. O crítico começou a carreira no jornal A Tribuna de Santos, sua cidade natal, e ganhou fama nacional na televisão - onde estreou em 72 - graças, principalmente, aos comentários nas transmissões do Oscar. Atualmente comentando filmes no Telecine Classic, da Net, e no Cinebrasil, da Cultura, Rubens Ewald acaba de lançar três obras sobre cinema, nas quais destaca os grandes nomes da sétima arte no século XX. Em rápida visita a Bauru, onde esteve dando uma palestra para os alunos do colégio Seta, Rubens Ewald falou ao JC sobre seus livros e, claro, sobre cinema. Sem deixar de ser simpático e bem-humorado, ele não poupou críticas aos donos das salas de exibição no Brasil, que não se preocupam com a qualidade do seu serviço, e também às pessoas que acham que o cinema brasileiro não deve mostrar o lado pobre do País.
Jornal da Cidade - Como surgiu essa oportunidade de fazer palestras nas escolas?Rubens Ewald Filho - Eu conheci o Marco Antônio, do Colégio Seta, através de um amigo e conversando com ele fui convidado a fazer palestras nas escolas sobre cinema. Eu acho muito importante esse tipo de contato, porque se você não tem contato com o seu público, perde a sua raiz - porque quem vai no cinema hoje em dia é a garotada -, você fica sem saber para quem está falando, perde a sua referência. É o que acontece com o cinema brasileiro. Eles não sabem para quem estão fazendo filmes. Talvez a Xuxa e a Marlene Mattos sejam as únicas que saibam como direcionar o seu produto e divulgar. Grande parte dos filmes brasileiros são feitos para o próprio umbigo, para o diretor e os amigos dele. Eu falo para a massa, sendo assim, tenho que pensar no que a massa está pensando, principalmente o jovem, porque ele é o meu público hoje e amanhã. Se daqueles jovens para os quais eu falei vai sair algum cineasta ou pelo menos alguém que goste de cinema, eu acho que já fiz um trabalho. Um trabalho que é parte da criação de um novo público que alguém precisa fazer senão os cinemas vão estar cada vez mais infestados de Rambos, Van Dammes e da porcaria que existe por aí. Hoje em dia, o cinema está muito ruim é contra isso que a gente está lutando. Espero que esses meninos tenham o interesse em ver algum filme melhor.
JC - Como tem sido a recepção dos alunos? Eles participam muito?Rubens - Me surpreendeu o interesse deles pelo cinema brasileiro. Em Rio Preto falei para quase mil pessoas e a reação foi uma. Com esse número de pessoas estava me sentindo um cantor sertanejo... Mesmo assim comecei falar às 8h10 e parei só às 11h45. Lá me pediram mais autógrafos, foram mais distantes. Aqui, até ficaram constrangidos de pedir autógrafo porque já estavam íntimos, pedir autógrafo seria um passo atrás. A palestra foi quase uma dinâmica de grupo, foi muito boa. Eles mostraram um conhecimento muito bom de cinema e participaram bem. Eles cobraram a existência de mais salas na cidade. A gente viu um trecho do Resgate do Soldado Ryan, em DVD, na sala, e o som era provavelmente melhor do que o som de um cinema da cidade. É um absurdo que uma salinha improvisada como aquela tenha um som melhor do uma sala pela qual você paga para ver um filme, principalmente em Bauru, que é uma cidade grande, um centro regional.
JC - Você acabou de lançar um livro?Rubens - É, na verdade são três livros sobre o cinema no século XX. São os 100 cineastas do século, os 100 filmes e os 100 filmes cult. Os livros surgiram com um proposta do secretário-adjunto da educação, a idéia é que os livros sejam comprados pela secretaria para as escolas públicas do estado. Os livros foram feitos para os alunos, por isso são didáticos, têm uma linguagem acessível, é para despertar o interesse dentro dessa minha política de criar um novo público. Eu acho que cheguei num ponto no qual eu vou fazer mais o quê? Eu me sinto agora na obrigação de ajudar, de carregar essa bandeira de amor ao cinema, de ser um pouco ícone disso tudo. Vamos ver se alguma coisa boa sai disso tudo. Eu não compartilho dessa idéia de que o crítico tenha que ser negativo. O crítico tem que dar frutos, ajudar vocações, facilitar as coisas, queimar etapas de pessoas.
JC - Como você chegou a esses 100 nomes, essas listas são tão polêmicas que alguns críticos fogem delas?Rubens - Eu cansei de ser Márcia de Windsor, aquela jurada do programa do Flávio Cavalcanti que era a jurada nota 10, porque achava tudo lindo. Eu cansei de ser o bonzinho, o cara que fala bem de todo mundo, que todo mundo gosta e acha que entende de cinema. Alguém precisa dizer que o rei está nu! Vivemos num País sem opinião, com televisão sem opinião. Quem fala na tevê, o Jabor? Que é um falastrão. O Abu-jamra, na Cultura. Só através de opiniões e conflitos de opiniões é que vai surgir alguma coisa. Não quero dizer que só eu tenha razão. Essa é a minha postura e eu acho que já estou num momento de carreira no qual não preciso me esconder de mais nada. Eu preciso defender aquilo que eu acredito e dizer: não é porque é filme é brasileiro que é bom. Tenho que defender o bom e pichar o ruim. Amores Possíveis é um filme bom, o público precisa vê-lo, por exemplo.
JC - O que você acha que vai causar polêmica nos seus livros?Rubens - Alguma coisa vai ser polêmica. O livro de filmes eu dediquei ao Inácio Araújo, que é meu amigo e é ótimo, apesar de ter opiniões completamente opostas. Já deixei claro que dedico o livro a ele ciente de que ele vai discordar de muita coisa que eu escrevi. Acho que uma postura polêmica vai ser o fato de eu ter reservado 10% dos filmes e dos diretores para os brasileiros. Se fossemos levar a ferro e fogo, talvez não fossem tantos a figurar numa lista de cem nomes, mas a obra é de um ponto de vista brasileiro, afinal estou falando para o público brasileiro e a palestra aqui em Bauru confirmou isso. Existe um desejo de se saber mais sobre o cinema brasileiro que está adormecido.
JC - Muita gente ainda acredita que o cinema brasileiro não renasceu. O que você acha?Rubens - Muita gente continua repetindo aquele velho chavão de dizer que cinema brasileiro é só mulher nua, sacanagem... Isso não é mais verdade. Hoje em dia, 98% dos filmes brasileiros não têm mais isso porque isso não leva o público ao cinema. Um exemplo é aquele filme Tolerância, que foi um fracasso porque insistiu numa coisa que ninguém quer ver, que é o sexo. Inclusive a cena é a pior do filme.
JC - E por conta desse preconceito o público continua longe das salas... Rubens - Cinema é hábito. Se você perdeu o hábito de assistir cinema nacional, vai custar muito para voltar a assistir. O cinema, no geral, é assim, se você perdeu o hábito, acabou. Geralmente isso acontece quando a pessoa casa, ela fica um ano sem ir ao cinema e depois não vai mais, fica em casa vendo vídeo. Ainda se as pessoas virem os filmes em casa, tudo bem. Com o DVD, vários filmes voltaram a ser colocados no mercado. Os filmes do Jabor, por exemplo, voltaram com uma cópia linda, só eles é que continuaram mais ou menos. Mesmo assim já é bom.
JC - A qualidade técnica dos filmes brasileiros também decepciona. O som normalmente é ruim, e as salas também, o que fica pior ainda. Ninguém parece se preocupar com isso.Rubens - Eu mesmo não entendi Navalha na Carne porque era com aquele ator cubano que falava tudo enrolado, o som da sala era muito ruim e não entendi nada. Os donos de sala precisam investir ou vão fechar quando o Cinemark abrir seus cinemas nos shoppings, como fizeram em Santos. Também, porque uma pessoa não vai aceitar a má qualidade. Como ele vai se animar com um filme se o som é horrível, a projeção é uma droga. Isso não pode acontecer. O mínimo que se pode cobrar é qualidade do serviço. Mas eu não sei como mudar isso, como fazer pressão. Talvez a solução sejam torcer para o Cinemark vir para cá.
JC - A impressão que o cinema brasileiro passa é que faltam boas histórias...Rubens - Isso também pode ser dito sobre o cinema americano...
JC - Sim, mas é preferível assistir Gênio Indomável, que não é um grande filme, mas tem uma historinha boa, do que ver as mesmas cenas de sexo. Rain Man é um filme que poderia ser feito em qualquer lugar do mundo, sem problemas de locações ou grandes gastos, é só uma historinha boa, por exemplo. Por que os filmes brasileiros não trabalham mais os roteiros?Rubens - Amores Possíveis é um bom exemplo de filme brasileiro com o roteiro trabalhado. A diretora levou o roteiro para aquele grupo do festival de Sundance, nos Estados Unidos. Ela colocou o filme num concurso lá e eu era um dos jurados. Eles acabaram ganhando um prêmio, o que garantiu uma exibição boa para um filme relativamente modesto com o dela. Então, ela fez a política certa, trabalhou no roteiro da maneira certa. O que acontece é que não é a pessoa que não tem talento para escrever, mas muitas vezes o roteiro não é trabalhado. Os americanos mexem anos e anos num roteiro antes de ser filmado. Amores Possíveis tinha o risco de ficar parecido com De caso com o acaso, mas não ficou. Eles são parecidos, mas o filme acaba bem. É um filme brasileiro com acabamento internacional, não tem ranço de filme brasileiro. Acho que conseguiram isso também com o trabalho de cenografia e direção de arte.
JC - Outra reclamação comum sobre cinema brasileiro é sobre a constante visão do Brasil nordestino, pobre, iletrado... Isso não é ruim para a imagem do País lá fora?Rubens - Mas daí fazem Bossa Nova e ninguém vai ver. Eu não gosto desse ponto de vista porque acho que é um complexo de inferioridade do brasileiro. O americano não está preocupado se aqui é miserável, analfabeto, feio, pobre. O americano não sabe o mínimo sobre o Brasil porque ele não está interessado, ele confunde tudo, acha que falamos espanhol e a Capital é Buenos Aires, não tem a menor noção. O máximo que eles ouviram falar é de Pelé, carnaval, Carmem Miranda, os velhos, e Sepultura, os jovens. O freqüentador de cinema não tem essa noção nem esse interesse, então para ele não faz diferença se aqui somos pobres ou não. Aliás, pobreza não tem mais bandeira, a Europa está cheia de refugiados, imigrantes, ciganos, muita gente pobre na rua. Acabou aquela coisa de terceiro mundo, tudo é terceiro mundo. O problema é que continuamos colonizados, acreditando que se o Oscar falou que é bom, então é bom mesmo. A gente tem que assumir o que a gente é. Central do Brasil é um filme legal porque mostra a pobreza, mas mostra o Brasil de uma maneira diferente. A história do velho (a velha) e a criança é batida, foi feito em Kolya um filme russo há alguns anos. Mas Central do Brasil tem esse nome porque mostra, por exemplo, o evangélico tipicamente brasileiro, vivido pelo Othon Bastos, que é diferente do evangélico americano, é outro comportamento. O Otávio Augusto mata o menino no começo do filme, à brasileira, sem se importar se alguém está vendo ou não. Outros detalhes são tipicamente brasileiros e não têm nada a ver com o resto do mundo. É muito raro ver isso na tela. Essa é a chave, é o que nos faz diferentes. Carlota Joaquina tinha isso. Era o que o brasileiro acha da sua própria história. Nós temos isso de achar que nossa história é divertida.