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PALAVRAS À MINHA MÃE

Maria José de Lima Montanari
| Tempo de leitura: 2 min

em memória

Mãe, ocorreu-me escrever à senhora, pensei em fazê-lo em forma de soneto, mas mudei de idéia decidindo-me pela prosa, tenho tanto a dizer e longos anos nos separam, pois eu tinha apenas dez anos quando a senhora partiu. Ah, se visse agora como a caçula mudou! As rugas em meu rosto, os cabelos brancos, olhos míopes, sem brilho...

As feridas da alma, os sonhos desfeitos, meu pensamento mergulha nas sombras do passado trazendo à memória os dias felizes da infância...

De repente, rolaram-me pelas faces lágrimas tantas, quais pétalas de rosas desfolhadas no túmulo da saudade. Lembrei-me da felicidade, lembrei-me da senhora, mãe, e essa lembrança é que me dera o lenitivo do pranto, e a tanto tempo não chorava, eis que as agruras da vida tiraram-me até essa dádiva. Recordei a presença materna, nossa casa tão pobre na fazenda São José do Rio Preto, onde vivíamos tão felizes! Meus irmãos trabalhando nos cafezais, minhas irmãs meninas ainda, dando apoio nos trabalhos domésticos, lembro-me da escola rural, minha primeira professora e o primeiro livro que tive nas mãos. Mas a senhora nunca soube, mãe, da grande admiração, do imenso orgulho que eu tinha da senhora: dona Francisca, a senhora acordava de madrugada para rezar o ofício de Nossa Senhora, rezava e fazia penitência pelas almas do purgatório, novenas para chover, nas secas prolongadas, a senhora sabia acudir com remédios caseiros todas as pessoas que adoeciam na fazenda.

Mãe, a senhora sabia tanta coisa, não tinha medo de nada, e às vezes sua coragem, seu destemor me davam medo... Como naquele dia, quando já morávamos na cidade de Araraquara, e a senhora, que não temia a vida nem a morte, partiu para sempre. Mãe, aceite minha lembrança como uma prece. Que as bênçãos de Deus a cubra, pelos caminhos da Externidade. (Maria José de Lima Montanari - R.G. 6976739)

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