O senhor Firmino Batista era um homem de bem, à moda antiga. Para ele só eram marido e mulher aqueles que possuíssem uma certidão de casamento, passada em cartório e as bênçãos da Santa Madre Igreja, onde a noiva deveria ter entrado virgem, de branco, com véu e grinalda. Até o presente momento nunca havia comprado a prestação e muito menos ficara devendo algo a alguém, nem mesmo favores, que sempre procurava retribuir. Só comprava com o dinheirinho que pudesse ser juntado, fazendo economia, pois era um trabalhador honrado, vivendo do fruto do seu trabalho na fábrica, que era o local de trabalho da maioria dos habitantes da pequena cidade, onde ele vivia. Casado havia já vinte anos, estava agora com quarenta e sua família era composta de uma filha, a mais velha, de dezenove anos e já trabalhando na fábrica também, e mais dois rapazes, adolescentes ainda, um com dezessete e outro com quinze anos. Agora, inesperadamente, eis que a esposa, dona Sebastiana, de trinta e oito anos, vem lhe anunciar que está grávida e ainda mais, que no centro de saúde da cidade maior onde ela havia ido se consultar pensando estar com distúrbios de menopausa, fora informada que estava esperando gêmeos e que era uma gravidez de risco.
E foi exatamente no dia seguinte ao anúncio feito pela mulher que começaram os rumores de que a fábrica que sustentava a cidade ia fechar, não sabiam bem se por falência ou por ordem do governo, por motivos que eles não entendiam direito.
Apreensivo e preocupado, como todos os outros empregados da fábrica e mesmo todos os habitantes da cidade, o senhor Firmino pensou que a pequena poupança que ele estava juntando para comprar um computador a pedido dos filhos, haveria de dar para pagar despesas de compras de enxoval e outras necessidades dos gêmeos nascituros. Ainda bem que o parto e o hospital eram por conta dos direitos trabalhistas, registrados em carteira. Mas, será que eles estariam garantidos, mesmo a fábrica fechando? Essa idéia preocupava muito o correto trabalhador.
Infelizmente, pouco tempo depois, a fábrica fechou mesmo e nem teve como pagar todos os encargos trabalhistas aos seus empregados e a família do senhor Firmino, com a chegada tão inoportuna dos gêmeos, que além de tudo não eram muito sadios, começou a passar falta até mesmo do essencial. Já deviam contas de água, luz, telefone, este já tinham vendido mas ainda restavam contas a pagar.
Para Firmino era um tormento ter de agir de modo totalmente contrário aos seus sentimentos éticos, escondendo-se dos credores e mentindo aos fornecedores que ainda lhe davam crédito, por conta do seu passado de homem honesto.
Um belo dia, ou melhor, um triste dia, ele se deu conta de que não havia mais nada que pudesse fazer para conseguir comida para pôr à mesa de sua casa, para a família comer. Ainda bem que os gêmeos só mamavam ainda. Para ele sempre fora ponto de honra ter seus filhos com ele ao redor da mesa que era servida por sua mulher, excelente cozinheira, além de outras muitas virtudes que a marcavam.
No momento de maior desespero pensou em se matar, mas chegou à conclusão de que seria uma enorme covardia, deixar os problemas sem solução na mão da esposa e dos filhos, que nem tinham ainda idade suficiente para conseguir trabalho, mesmo que se mudassem para a cidade grande. E não daria certo, pois ali, pelo menos tinham onde morar, tinham casa própria; sendo ele como era, só se casara depois de ter garantida a casa para morar. Se ao menos pudesse vender a casa, mas nem isso podia, uma vez que a cidadezinha, em vista do fechamento da fábrica, também estava se acabando e só se viam anúncios nas fachadas das casas, todas para vender, a qualquer preço. Até a pequena horta que conseguira cultivar, no pouco terreno que ia além da casa, já estava toda colhida e sem possibilidade de nova semeadura: não havia dinheiro para comprar mudas e/ou sementes.
O automóvel que parou na porta da casa assustou dona Sebastiana e o senhor Firmino que estavam em casa, fazendo pão, com um resto de farinha e outros ingredientes, enquanto os filhos tinham aproveitado a carona de um caminhão que por ali passara, rumo à cidade grande, onde estavam indo à procura de emprego. Os gêmeos dormiam no berço, improvisado com cadeiras e almofadas.
O homem que desceu do automóvel e que fora recebido pelo senhor Firmino, após os cumprimentos de praxe, perguntou:
- O senhor é o pai da jovem Camila Batista que trabalhava na fábrica recém fechada nesta cidade?
- Sim, eu sou o pai dela. Por que pergunta?
- Porque eu tenho um bom emprego para oferecer à sua filha, na minha casa noturna. Sua filha é bonita demais e seria uma grande atração entre as minhas meninas.
A vontade de Firmino era de expulsar o homem a ponta-pés e até lhe dirigir insultos pelo desaforo. Mas, pensando que esse emprego iria representar comida e, portanto, sobrevivência para os outros filhos, engoliu duro todos os seus princípios, toda a sua ética e fez a difícil escolha. Afinal a fome fala mais alto do que qualquer conceito e/ou preconceito ético.
(*) Isolina Bresolin Vianna ocupa a cadeira n.º 12 da Academia Bauruense de Letras.
Especial para o JC Cultura