Geral

Retrato do Aedes aegypti

(*) N. Serra
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Abrindo-se o livro da história, pode lembrar-se de que a primeira manifestação da dengue no Brasil aconteceu em Roraima. Mostrou a carranca nos idos de 1980 e o fez com características tão elásticas que logo passou a se desenvolver com uma rapidez tal que, em 1986, ia deliciar-se com as praias paradisíacas do Rio de Janeiro e dali se espalhava por todo o País. E não se dava por satisfeita com tanto, haja vista que quatro anos depois também o Estado de São Paulo passava a conhecer, igualmente, os seus efeitos devastadores, quando percebeu a eclosão de uma epidemia denguista em Ribeirão Preto. Resumo histórico: a partir desse primeiro e triste estágio, o Brasil se viu na contingência de se preocupar mais a fundo com a enfermidade, devotando-lhe os necessários cuidados especiais. Isso seria como os carinhos dados a bebês de berço unicamente? Não! Muito mais, sem dúvida, porquanto, como dissemos, já as autoridades da Saúde nacional tinham sido então sacudidas pelo conhecimento pleno de sua periculosidade para a população patrícia, principalmente ao tomar ciência de que ela, após originar-se no Sudeste Asiático (Filipinas, Cingapura, Coréia, Japão e Tailândia) disseminara-se com velocidade de Fórmula Um para a América Central, Ilhas do Caribe e algumas regiões da nossa acolhedora América do Sul.

A exposição dos fatos leva à serena conclusão de que não podiam, mesmo, os poderes públicos brasileiros, cruzarem simplesmente os braços, descurando-se do insidioso mal. Tinham, irrevogavelmente, que encará-lo severamente de frente, cabeça erguida, com a coragem de quem tem diante de si um verdadeiro exército, com gente treinada e guarnecida com os canhões de suas picadas, que não apenas ferem, matam irremediavelmente... Por isso, partiram para a grande batalha, que aí está deflagrada, com os serviços de Saúde endereçando-lhe toda a atenção que ela impõe. Ainda agora, o Governo cearense se encaminha para uma extraordinária ofensiva contra o exército, importando da Indonésia peixinhos especializados na ingestão de ovos e larvas do mosquito transmissor da dengue, o famigerado Aedes aegypti. Como gostam os tais peixinhos desses alimentos, que lhes são colocados, de graça, à sua inteira disposição! Apreciam-no, mesmo, realmente! E, sabendo disso, está o Governo Federal disposto, também, a adotar o caminho seguido pelo sucedâneo cearense. Quer saturar de crustáceos asiáticos os rios, ribeirões, lagoas, enxurradas e, principalmente, os milhões de recipientes (vasos, pneus, latinhas, copos, etc.) que, espalhados pelo território nacional, mantêm nas ruas, moradias, casebres, matagais e quintais uma infinidade de fábricas do indesejável senhor Aedes, cujo retrato, mal-reproduzido pela descrição, certamente há de assustar a população e, conseqüentemente, exigir dela borracha escolar para apagá-lo totalmente do cenário. É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC.

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