A madrugada fria de maio não me aquecia ao sono. Recorriam-me a todo instante as imagens dos vinte deputados que haviam retirado suas assinaturas à convocação da CPI da Corrupção sepultando a sua instalação. Nós, da oposição, somos 112 na Câmara dos Deputados. Eram necessários 172 parlamentares apoiando. Dos 513 que compõem a Assembléia Nacional. Por que, invocava-me a razão, estes meus colegas não queriam se colar à opinião maciça dos brasileiros? Por que somente nós, do PPS, PT, PDT, PSB e PC do B e alguns desgarrados da base governista havíamos incorporado o sentimento de repulsa ao roubo, ao assalto ao Tesouro Público e à impunidade?
Será que a eles não chegavam as notícias de Georgina Fernandes, do juiz Lalau, de Grand-Cayman, dos recursos surrupiados que nos faltam à saúde, à educação, à infra-estrutura e tudo o mais que colapsa o atendimento provido pelo Estado brasileiro.Por que o medo à investigação? O Brasil de hoje vive à míngua. Grassam doenças medievais. Marginalizam-se desempregados. Disseminou-se o pânico ao assalto, ao seqüestro. A infância habita as ruas e os desvalidos acompanham-na. Os presídios aprisionam a esperança das famílias.
Será fruto este País de sua Natureza? Nós que temos a maior reserva de água doce do Planeta, a segunda maior província mineral, a primeira biodiversidade, a maior extensão de terras agriculturáveis, a melhor distribuição climática da Terra. Uma Nação que abriga um povo sem etnias e sem conflitos raciais.
Quando eu assinei a CPI não pensava em cassar o presidente da República nem imputá-lo a pecha de ladrão. Queria mostrar que este País tem lei, inclusive para ele, não só para alguns, mas para todos. Eu queria dizer que aqui não há impunidade. Que quem rouba e assim é julgado vai para a cadeia, sem celas especiais e sem privilégios. Passam-me aos olhos a História deste País. Seus mártires e seus heróis. Zumbi e Tiradentes. Calabar. Quando a Nação de hoje era terra colonizada e muita de sua gente escrava.
Houve outras noites, insones a outros, que as manhãs pareceram derrotas. Não foram poucas, nem a poucos. Da Farroupilha às Diretas! A estes momentos que pareceram, aos que viveram, o fim de sua luta, se sucederam a Liberdade, a Independência, a Pátria e a Democracia.
Não ribombam no futuro a bravata dos vitoriosos. Os que acreditam no Poder esquecem-no efêmero. Os que bradam a vitória contra o povo são sepultos pela História.
Assim sempre o foi e assim será!
(*) João Herrmann Neto - Deputado Federal/PPS - e-mail: jhnsp@uol.com.br