Geral

Apagão e teoria da complexidade

(*) Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Cada assunto dá tantos comentários quantos sejam os ângulos pelos quais é visto. No caso do racionamento de energia elétrica que está por vir, olhando pelo lado das conseqüências práticas, vem a preocupação com o que poderá acontecer com o trânsito nas cidades, com os hospitais, com os edifícios de muitos andares, com as fábricas, com o comércio, com a segurança pública, com a conservação de remédios e alimentos, enfim, com tudo aquilo que depende da energia elétrica. Olhando pelo ângulo político, a oposição tira partido da calamidade que se avizinha criticando o governo de imprevidente, de incompetente, de falta de planejamento, com a esperança de criar a convicção que seria diferente se ela estivesse no poder. Por outro lado, os agentes do governo fazem malabarismos para se livrarem de culpa e até abusam da nossa inteligência, como foi o caso da desculpa de que as autoridades não foram alertadas meses atrás, como se a construção de usinas, mesmo as termoelétricas, ou os linhões de transmissão pudessem ser feitos logo após o serviço de meteorologia anunciar um período de estiagem. Olhando com o binóculo do economista são antevistos o desemprego, a redução do crescimento e a ameaça de retorno da inflação pela escassez.

Vamos acrescentar mais um ponto de vista. Nos últimos anos, duas teorias vêm criando corpo nos meios científicos e na administração. São a teoria do caos e a teoria da complexidade. A primeira ensina que a relação causa/efeito não guarda proporção segura e que pequenas causas podem ter grandes conseqüências. A segunda ensina que as organizações e principalmente as nações, que são as maiores organizações, são sistemas vivos e complexos. E mais ainda, que estão sempre no limite do caos (edge of chaos) se não se adaptarem permanentemente, perecem. Como o mundo está em permanente mudança, as coisas devem ser vistas e tratadas conforme as mudanças estão exigindo. Do contrário, caminha-se para o caos ou para o desaparecimento. No caso do sistema nacional de eletricidade, em pouco tempo saltamos de uma situação de abundância para uma situação de escassez pela falta de adaptação do sistema. Antônio Ermirio de Moraes lembrou em seu artigo de domingo, na Folha, que anos atrás, as empresas foram incentivadas a substituírem as suas caldeiras a óleo por caldeiras elétricas, com tarifas reduzidas, porque faltava petróleo e sobrava eletricidade. O que aconteceu desde então? Muita coisa e com muito mais complexidade do que se imagina. Aumento explosivo do consumo, crises econômicas e políticas, aumento da consciência ecológica e maior participação democrática. E tudo interagindo de modo que nada pode ser tratado isoladamente.

Quando o governador Garcez, na década de 50, iniciou a construção de usinas hidrelétricas, com a barragem de Salto Grande, no Paranapanema, disparando um processo gigantesco de aproveitamento do potencial hidráulico desse rio e do Tietê, ninguém se preocupou com o impacto ambiental. Hoje as coisas são diferentes, acompanhando a consciência ecológica do mundo. A Votorantim faz tempo que quer construir uma usina no vale do Ribeira e não consegue autorização devido ao impacto ambiental. Em Mato Grosso do Sul a usina de Corumbá está com atraso de cinco meses devido a conflito entre o governo daquele Estado e o Ibama. Daqui de Bauru, mesmo, já saiu protesto liderado pelo vereador e ecologista nato, Rodrigo Agostinho, contra um novo linhão da Cesp. Isso sem falar na usina nuclear.

O problema, portanto, não é somente de falta de planejamento e de recursos financeiros. É um problema que envolve toda a sociedade, exigindo uma espécie de pacto entre todos os segmentos. O problema é de todos, de modo que agora todos devem se juntar para minimizar os efeitos do racionamento e transformar as disputas em cooperação para uma futura solução duradoura.

(*) O autor, Pedro Grava Zanotelli, é professor e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, da ITE - e-mail: pegrazan@techno.com.br.

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