O Brasil ideal seria aquele que combinasse as inegáveis e testadas vantagens do capitalismo com parte do ideário socialista. Está provado que o mercado pode produzir mais e melhor que qualquer outra instituição ou instância, mas também é inegável que provoca desvios e assimetrias que podem e devem ser corrigidas politicamente pela sociedade através do Estado.
Max Weber, um dos pais da sociologia e autor de cabeceira do presidente Fernando Henrique, falava da modernidade como uma gaiola dura como aço que aprisiona o homem por imperativos funcionais, dos quais é quase impossível escapar. No campo da política é a burocracia; economicamente são as leis de mercado. Mas existe outra modernidade, aquela que dispõe de um estoque de tecnologia e conhecimentos, estoque capaz de viabilizar a reconciliação do homem consigo próprio e sua emancipação de seculares servidões. A modernidade traz uma promessa de felicidade, uma utopia é verdade, mas sem a qual a vida humana perde sentido.
O cientista político Hélio Jaguaribe, recentemente disse na televisão que a presente problemática brasileira reduz-se em sua essência e substantivamente ao seguinte ponto: o País precisa no curso das duas próximas décadas superar seu renitente subdesenvolvimento e alcançar pelo menos um nível social não inferior ao da Espanha e um nível econômico-tecnológico igual ao da Itália. O não-atingimento destes patamares nos próximos 20 anos leva o professor Jaguaribe a duvidar que o Brasil possa se sustentar como nação.
Um projeto desta envergadura, fundamental para o ingresso da nação brasileira no circuito do mundo civilizado, está, portanto, limitado por prazos dramaticamente exíguos. O povo reelegeu FHC porque tudo fazia crer que a Nação iria romper o impasse imobilizador em que se encontra. Eis que surge a crise de energia, a derrocada da economia da Argentina, o pouso meio desastrado da águia norte-americana e a violação do painel de votação do Congresso. Esses fatores, que deveriam ser acidentais, se transformam numa imensa tragédia para a débil economia brasileira. Demos um passo para frente e dois para trás. A inflação ameaça voltar, o dólar bate recordes, a bolsa de valores despenca e o Produto Interno Bruto entra na minguante. As promessas de emprego desmoronam.
Os burocratas de Brasília escalados para contornar a crise de energia já falam em desviar recursos do programa social do governo para ajudar na ampliação da geração e distribuição de energia elétrica. A velha e vergonhosa história do cobertor curto.
Tão grave quanto os apagões é o fosso social existente no Brasil. Tanto que 50 projetos das áreas de educação, saneamento, habitação e saúde deveriam receber, neste ano, 50 bilhões de reais. Se depender dos ministérios da Fazenda e das Minas e Energia, correm o risco de se transformarem em barragens e linhas de transmissão. Os pobres que esperem... ou que se danem.
Qualquer tarifaço para obrigar à economia de energia, vai castigar os mais pobres. Para o rico tanto faz gastar duzentos ou trezentos reais a mais na conta de luz. O comércio e a indústria repassam para o consumidor. O pobre não tem defesa. O escuro deve ser para todos. Um bom momento à reflexão nacional. Que o bom senso prevaleça e o programa social seja preservado. Ficar no escuro é muito menos humilhante do que morrer de fome.