Geral

Apagão - a catarse educativa

(*) Teófilo Santiago
| Tempo de leitura: 3 min

O racionamento de energia elétrica que se avizinha é um daqueles fatos que, de tempos em tempos, mobilizam toda a opinião pública nacional, sem exceções. É o assunto do momento e, mais do que colocar a população a discutir um aspecto essencial aos rumos do País, coloca cada brasileiro numa situação de mobilização. A necessidade de economizar energia elétrica provoca uma catarse nacional, une o País a partir de uma crise cujos méritos não têm suscitado grande resistência, nem mesmo por parte da oposição. Haja vista que a Prefeitura de São Paulo, ícone da forma de administrar do PT, já adotou medidas de racionamento, antes mesmo de conhecer o pacote do apagão, anunciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em cadeia nacional de rádio e TV, na sexta-feira, dia 18 de maio.

Independente do mérito da questão quanto aos erros do Governo Federal em não ter investido no setor de geração de energia elétrica para evitar a crise, o mais novo debate nacional remete a uma questão cultural, para ser mais preciso, a um modelo de comportamento típico de povos do Hemisfério Sul do Planeta: a pouca educação quanto ao uso racional dos recursos naturais. Somos um País do desperdício, apesar de, em tese, não podermos nos dar a esse luxo, dada a precariedade de nossa economia. Somos classificados como Terceiro Mundo, mas nos orgulhamos, desde criancinhas, de viver num país que não tem terremoto, vulcão nem furacão e ainda, de quebra, abençoado por Deus, que nos deu praias, cachoeiras, muita mata e rios que não acabam mais. Rios que não acabam mais?!

Pois bem, a crise energética é fruto, segundo o governo, da falta de chuvas, o que baixou demais os reservatórios, embora os tecnocratas de plantão admitam que erraram em não investir na ampliação de nosso parque gerador de energia. Portanto, descobrimos que somos vulneráveis naquilo que mais nos orgulhamos: nossas imensas riquezas naturais. É neste sentido que a crise energética deverá contribuir para a educação e a cultura do País. Somente sendo privados daquilo que achávamos que não se esgotaria nunca é que nos importamos coletivamente. Os estoques de lampiões e velas estão à beira do esgotamento.

Muita gente começa a criar o saudável (em qualquer situação) hábito de evitar o desperdício, ainda que forçosamente. Mas a história da humanidade mostra que a tomada de consciência e a adoção de posturas culturais avançadas se dão a partir de uma ruptura com o status quo estabelecido. Um exemplo são os países marcados por guerras, cujos povos desenvolveram formas de suportar períodos de privação intensos e hoje estão na vanguarda do desenvolvimento mundial. O Japão é o retrato fiel dessa superação coletiva. Não chegaríamos ao ponto de afirmar que os brasileiros adotarão o rigor formal de trabalho, produção e o modo de vida regrado dos japoneses a partir de agora, mas que o apagão deverá deixar lições e mudar hábitos até então nada corretos de desperdício parece haver poucas dúvidas. A necessidade faz o hábito.

Além do mais, é cada dia mais evidente que uma das grandes crises deste século será a escassez de água. As providências para se evitar uma catástrofe de proporções dramáticas devem começar a ser adotadas agora. Por sinal, vamos parar por aqui. Afinal de contas, computador ligado é consumo de energia.

(*) O autor, Teófilo Santiago, é jornalista e brasilianista.

Comentários

Comentários