Parcerias, concursos públicos e convites tentam reverter problema, que é registrado nas esferas pública e privada de Bauru
Usuários do sistema público de saúde e de planos de saúde chegam a demorar, em média, seis semanas para conseguir atendimento médico em Bauru. Em especialidades como endocrinologia, reumatologia, fisiatria e cardiologia, a espera pode se estender por até seis meses, por causa do número reduzido de médicos. Preocupadas, Secretaria Municipal da Saúde, Direção Regional de Saúde (DIR-10) e Unimed tentam reverter o problema por meio de parcerias, concursos públicos e convites a jovens médicos.
Uma das áreas mais preocupantes é endocrinologia. Bauru conta hoje com oito especialistas. Desse total, apenas um atende pelo Sistema Único de Saúde e, de acordo com informações da DIR-10, não há previsão de novas contratações. Embora tenha os oitos endrocrinologistas em seu quadro, a Unimed também registra demanda reprimida nessa especialidade.
Parte do estrangulamento, que resulta na demora de até 8 meses para agendamento de consulta, se deve ao crescimento de casos de obesidade. Como muitos obesos procuram os endocrinologistas, pacientes com problemas de tireóide e diabetes têm dificuldades para conseguir consultas, explica Carlos Eduardo Sacomandi, presidente da Unimed.
A cooperativa pretende reverter o problema a partir deste mês, quando entra em funcionamento programa específico para obesidade. Baseado em projeto da Unimed de Piracicaba, o programa oferecerá a esses usuários aulas de hidroginástica e ginástica e consultoria de nutricionista. Queremos que o paciente vá ao médico apenas quando tiver alguma descompensação, afirma Sacomandi.
Além de endocrinologia, a Unimed está preocupada com a demanda reprimida registrada em fisiatria e reumatologia, com três e cinco profissionais associados, respectivamente. Estamos enviando convites a médicos de faculdades da região que estão concluindo residência nessas especialidades, informa o presidente da cooperativa.
Até julho, 104 novos profissionais devem ingressar na Unimed. O aumento do quadro se faz necessário quando se constata que as filas estão se tornando rotineiras em consultórios de especialidades com poucos médicos. No último dia 30, a equipe de fotojornalismo do JC registrou uma delas em frente à clínica de um geriatra associado à cooperativa. Havia 50 pessoas aguardando por senha para agendar consulta para o segundo semestre. Muitas delas chegaram por volta das 5 horas e várias não conseguiram marcar horário. É revoltante, resumiu uma das pacientes, que preferiu não se identificar.
SUS
O setor público também enfrenta problemas em reumatologia. No momento, não há nenhum reumatologista prestando atendimento no Ambulatório de Especialidades (AE), mantido pela Secretária do Estado da Saúde. Muitos dos casos acabam sendo vistos, também, pelos ortopedistas, comenta Flávio Badin Marques, diretor técnico do Departamento de Saúde da DIR-10.
O AE tem outras áreas deficientes, casos de nefrologia, cirurgia infantil, neurologia, oftalmologia, gastroenterologia e cardiologia. Apenas essa última especialidade deve ter médicos contratados pela DIR-10, que recentemente registrou a baixa dos últimos dois especialistas. Eles pediram demissão, conta Marques.
Não há planos de contratação para as demais especialidades. A causa do aparente desmazelo com os usuários do serviço público atende pelo nome de gestão plena da saúde, em fase de estudos pela Secretaria Municipal da Saúde de Bauru.
A idéia é que o município assuma realmente o gerenciamento das unidades de saúde e avalie o quê e onde está precisando, passando a contratar, reconhece o diretor do Departamento de Saúde da DIR-10.
Somado a isso, Marques salienta que houve redução do quadro médico sem que o órgão conseguisse repor os especialistas. De acordo com ele, a maior parte das contratações efetuadas pelo Estado foi para hospitais e institutos mantidos com verbas governamentais. Enquanto isso, a DIR-10 tenta atender a demanda verificada nas especialidades carentes através de parcerias com o Hospital de Base, entre outras alternativas.
Prestígio aumenta procura
Mesmo especialidades com número suficiente de médicos para atender a população registram demanda reprimida. Isso acontece quando o profissional adquire prestígio entre pacientes.
É algo sintomático e existe no SUS, na Unimed e no particular. O profissional é bom, todo mundo quer. É normal, diz Eliane Fetter Telles Nunes, secretária municipal de Saúde afastada. Há especialistas que se evidenciam, confirma Carlos Eduardo Sacomandi, presidente da Unimed.
Tanto a técnica quanto o tipo de atendimento podem gerar a preferência. Como não há territorialização, inclusive no SUS, os pacientes podem demorar mais tempo para serem atendidos pelos médicos mais famosos. Nesse caso, sistema de senhas e listas de espera são formas de organizar a demanda.
Nos postos de saúde, essa preferência é facilmente notada quando o médico é transferido de unidade. Recentemente, um pediatra foi transferido do Jardim Redentor para a Vila Nova Esperança e levou toda clientela junto, apesar da distância que separa os dois bairros.
Alguns profissionais, mesmo que eu dobre ou triplique a carga horária deles, vão sempre ter consulta e demanda, porque a população gosta deles, conclui Eliane.
Médicos reservam vagas para convênio
Para garantir atendimento adequado a todos conveniados, o regulamento da Unimed exige que os médicos cooperados reservem, no mínimo, 40% de sua agenda para atender usuários do plano de saúde da cooperativa, além dos retornos.
De acordo com Carlos Eduardo Sacomandi, presidente da Unimed de Bauru, a maioria dos profissionais atende acima do exigido, chegando a reservar em torno de 20% da agenda aos pacientes particulares. Por isso é que pode ocorrer dificuldade para marcar consulta com alguns médicos, chegando a dois meses de espera, explica.
As áreas que registram maior número de consultas pela Unimed são ginecologia, ortopedia, cardiologia e oftalmologia, mas os problemas são registrados com maior freqüência nas especialidades de endocrinologia, fisiatria e reumatologia.
Para corrigir essa deficiência, a cooperativa está enviando convites a médicos que estão acabando a especialização nas áreas onde há demanda reprimida.
Atualmente, 550 médicos são cooperados à Unimed. Desse total, 51 são pediatras e 52 são ginecologistas. Nessas especialidades, não há espera por consulta, excetuando médicos mais conhecidos pela população.
As especialidades com menos profissionais são analgesia (1), cirurgia da mão (2) e cirurgia de cabeça e pescoço (3), mas o número é suficiente para a demanda registrada na cidade.