Depois de perder os principais cargos da empresa por desentendimentos familiares, o executivo pediu demissão
O empresário Caio Coube se demitiu, em caráter irrevogável, ontem, do cargo de vice-presidente da Tilibra S/A, em razão de um estremecimento nas relações entre os três ramos da família que compõem o controle societário. O demissionário, que estava na empresa desde 1980, disse saiu profundamente magoado e que não pode aceitar a diminuição hierárquica que lhe foi imposta, após 12 anos ocupando, em rodízio com o executivo Luís Antônio de Silos Carvalho, os dois principais cargos da empresa de diretor-presidente e diretor-superintendente.
Na última semana, num acordo de acionistas, com Maria Silvia Coube, viúva de Henrique Coube, o único filho vivo de João Baptista Coube, fundador da empresa, Rubem Coube, foi encaminhado ao posto que já havia ocupado há mais de uma década. Caio e Carvalho passaram para duas das quatro vice-presidências, cargos de menor relevância, o que provocou a atitude de Caio de demitir-se, ontem. O novo diretor-superintendente é Pedro Henrique Coube, filho de Maria Silvia.
Caio Coube diz que a diminuição hierárquica foi uma forma de puni-lo, em razão de um problema familiar ocorrido há seis meses, no qual uma profissional ligada ao ramo de Maria Silvia foi demitida, em uma situação que iniciou o processo de desgaste de relação entre as famílias e que levou a acionista a colocar seus 35% de participação à venda.
Caio Coube, que teve apoio integral da esposa Patrícia em sua decisão, disse que não encontra justificativa e não pode aceitar como razoável seu afastamento dos principais cargos de direção da empresa, do ponto de vista profissional, sob a ótica dos negócios e dos dividendos entregues aos acionistas, nos últimos anos. Os três maiores resultados em termos financeiros na história da Tilibra ocorreram em 1993, 1995 e 2000, anos em que foi diretor-presidente. Então, não posso admitir, não posso aceitar esse rebaixamento que me foi imposto, disse.
O executivo diz que sua saída se deveu a decisões norteadas por sentimentos pessoais e questões familiares, que ele classifica de sentimentos pouco nobres e pouco auspiciosos das sociedades familiares. Acionistas da segunda geração, que têm um percentual elevado de ações, decidiram me dar o `pito, colocar-me sob o poder das ações que eles possuem, falou com mágoa.
Ele lembra que o episódio que deu início ao processo ocorreu em outubro do ano passado, envolvendo uma pessoa que fazia parte dos quadros da empresa e ligada por laços de família ao ramo de Maria Silvia, que acabou sendo desligada da Tilibra. Para Caio Coube, seu ato, na época, foi para preservar os interesses da empresa e feito de maneira a não expor a situações mais difíceis a pessoa envolvida.
Em 1.º de novembro do ano passado, Maria Silvia e os herdeiros anunciaram, em uma reunião em São Paulo, que pretendiam vender seus 35% das ações. Depois disso, os outros dois ramos da família Coube Olga, viúva de Sérvio Túlio e mãe de Caio, e Rubem decidiram contratar o Banco Pactual de Investimento para fazer uma avaliação da empresa e elaborar uma proposta de aquisição.
Maria Silvia e seus herdeiros também contrataram uma assessoria para fazer uma outra avaliação.
Em 15 de janeiro foi feita a primeira proposta de compra, com base no trabalho do Pactual. Não foi aceita uma contraproposta. Em fevereiro, o banco fez uma segunda proposta de compra, que não teve resposta dos vendedores que, posteriormente, informaram que queriam parar a negociação para buscar a venda para uma empresa multinacional. Desde o princípio desse processo, ficou muito claro que o grupo vendedor de 35% das ações obviamente estaria enfrentando dificuldade em vender 35% das ações de uma empresa familiar de capital fechado. É uma situação difícil. Os compradores naturais são os sócios atuais remanescentes, disse.
Caio Coube disse que a família de Maria Silvia passou a tentar atrair Rubem Coube (que possui 30% das ações), numa tentativa de ir ao mercado para vender o controle da empresa, ao invés de vender apenas uma fatia minoritária.
O demissionário disse que, ao perceber que a questão das dificuldades para a compra estava no prazo de pagamento e não no valor, buscou um financiamento de longo prazo para fazer uma parte substancial do pagamento à vista. Porém, nem teve tempo de apresentar isso ao tio Rubem. Quando foi tratar do assunto com o último dos filhos de João Coube, Caio foi comunicado que não contaria mais com o voto dele para que fosse reconduzido à diretoria, alegando a questão do problema familiar ocorrido em outubro. E, qual não foi minha surpresa quando ele (Rubem) disse que a razão principal que não seria confirmado na presidência era em razão de eu ter conduzido muito mal esse processo, de eu ter me comportado muito mal, de ter causado um tumulto. Tudo o que aconteceu, no momento que aconteceu, foi levado ao conhecimento dele, houve um consentimento dele, afirmou.
Caio Coube disse que ficou magoado porque tinha agido nos interesses da empresa. O demissionário confessa que ficou indignado e, depois, amargurado. Disse que soube que seria afastado alguns dias antes da assembléia, realizada na última quarta-feira, e que foi conduzida por ele, profissionalmente evitando, inclusive, excessos verbais de membros de seu ramo da família.
De acordo com o demissionário, na assembléia, o grupo de Maria Silvia teria reiterado a intenção em vender sua parte na empresa. Porém, segundo ele, o interesse do ramo familiar dele é dar continuidade à empresa, embora as condições de tensão e conflito societário estejam instalados. Caio disse que já superou a angústia do afastamento. Foi um golpe na minha alma ter sido, assim, alijado dos postos que ocupei, diz resignado.
Vinícius Coube, irmão de Caio, foi nomeado, ontem mesmo, para assumir as funções que vinham sendo desempenhadas pelo demissionário. Assim, não deverá haver solução de continuidade nos projetos que estavam sendo desenvolvidos em relação ao mercado em que a empresa atua.
A Tilibra, maior fabricante de cadernos do Brasil e terceira da América Latina, destaca Caio Coube, teve um período de grande desenvolvimento no período em que esteve à frente, passando a ser uma marca líder na preferência dos consumidores.
Além disso, a marca foi internacionalizada atingindo mercados como Argentina e Chile, além de um bom desempenho nas exportações para os Estados Unidos.