Pode considerar-se algo muito revolucionária a idéia que está sendo cozinhada por bem- intencionados deputados federais do País tendo por objetivo impedir o Congresso Nacional de receber em seus amplíssimos quadros gente que, eleita para as suas cadeiras, passe a assumi-las já carregando nas costas títulos de aposentadoria, e, pouco depois, passem a acumular jetons que, alguns anos após, se transformem num segundo benefício. E que aposentadoria, alcançando alguns montantes de reais! Entendem os lançadores da idéia que a situação vigente nos legislativos é absolutamente incorreta, a partir do suposto de que os ocupantes de suas funções não teriam o direito de usufruir, cumulativamente, de uma aposentadoria particular e mais os tais jetons, terrivelmente altíssimos, como os que o Congresso lhes paga mensalmente, proventos esses que daí a pouco, decorridos poucos mandatos, transformam-se em mais um gordo recebimento mensal para seus beneficiários. Um pagamento estaria certo; dois, absolutamente! Então, ao assumirem a cátedra, teriam de abrir mão do que já possuíam, na expectativa do Legislativo.
A opinião pública concorda com o grupo que está ensaiando o movimento, achando que se o Congresso não tiver condições legais de banir o preceito que confere aos deputados e senadores direito de ganharem duas vezes dos órgãos públicos, que, então, não admita, por lei a ser baixada, que se candidatem às suas poltronas pessoas que, à época dos pleitos, já desfrutem de benefícios do gênero. Se quiserem se candidatar que o façam sem olhares gordos sobre a possibilidade de auferirem todos os meses das benesses de um e de outro, em sistema acumulativo. Que abdiquem do primeiro por justa causa.
A iniciativa é deveras revolucionária, como frisamos no começo, e, por isso, está sujeita a ser repelida por muitos ou pela maioria dos legisladores, especialmente por aqueles que já desfrutam de um do citado benefício. Esses serão contrários porque, logicamente, não vão querer perder a boquinha. Contudo, é digna de amplos louvores e oxalá possam os seus lançadores demover os reacionários de votarem contra quando o projeto chegar ao plenário para receber o devido beneplácito, com o qual faça a Nação justiça, ainda que mínima e por via indireta, aos milhões de operários brasileiros que precisam de 35 anos de trabalho penoso e mal-remunerado para se aposentar com a insignificância de 180 reais, enquanto aqueles outros, que não penam nem resfolegam à sombra resfriante de seu plenário, são pagos mensalmente na base de milhões e, ao término de curto mandato, aposentados cumulativamente pelo mesmo tanto, e algo mais, com o que põem nas algibeiras um montante que se poderia dizer montanhoso... É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.