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Paiva critica profissionalização de entidades e corte de verbas

Redação
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O fundador da Sociedade Beneficente Cristã, Sebastião Paiva, que recentemente completou 92 anos, é contrário à profissionalização das entidades filantrópicas - que, por lei, devem contratar técnicos para exercer determinadas funções. Ele afirma que o pagamento dos profissionais consome a maior parte da receita das entidades. A Sociedade Beneficente Cristã, por exemplo, está vendendo alguns imóveis para poder dar continuidade a seus trabalhos.

De acordo com Paiva, o funcionamento das entidades deveria ser subsidiado pelo governo. Essa lei vai acabar com as entidades. Se não houver ajuda financeira do poder estatal, as entidades não têm condições de funcionar. Só com ajuda popular, não dá, afirma.

Paiva lembra da Sociedade Beneficente Cristã, na época de sua fundação, em que famílias e pessoas bem intencionadas prestavam serviços de assistencialismo. Ele acha que a contratação de técnicos para exercer determinadas funções nas entidades que atualmente funcionam como empresas - com fins lucrativos - aumenta os gastos e chega a inviabilizar o desenvolvimento de trabalhos. A exigência de técnicos é muito grande. Só os técnicos consomem toda a receita - temos que ter psicólogos, enfermeira-padrão, nutricionista, assistente social, etc. Antigamente, eram pessoas de boa vontade, famílias, mulheres. Hoje, não. Está proibido. São só técnicos. As entidades particulares vão acabar. Ninguém mais tem condições de organizar entidades nesses princípios. Fica muito caro, enfatiza.

Em decorrência das exigências da lei, a Sociedade Beneficente Cristã está trabalhando em situação deficitária, de acordo com seu fundador. Estamos vendendo nossos imóveis para a continuidade do nosso trabalho, agrava.

A substituição de trabalho humano por máquinas é outro alvo das críticas de Paiva, que acredita que o grande problema da sociedade atual é a falta de trabalho. A crise financeira deve-se à falta de trabalho. Hoje, a máquina faz tudo. O homem é uma vítima do progresso. O indivíduo sem trabalho e com fome é capaz de fazer tudo. Na minha porta aparece gente pedindo serviço porque não tem o que comer em casa, observa.

Paiva acredita que a solução para grande parte dos problemas atuais deve partir da organização da sociedade. A solução seria que as pessoas bem intencionadas organizassem entidades filantrópicas com quadro de sócios contribuintes e que conseguissem doação de terras para orientar a produção de grãos alimentícios. A terra ainda é abençoada. É só haver colaboração. Aqui em Bauru, poderia haver um monte de entidades. Não para lucro, mas como terapia ocupacional para ajudar o ser humano a sobreviver a essa crise do progresso, sugere.

O fundador da Sociedade Beneficente Cristã encara as religiões como organizações com potencial para ajudar pessoas carentes. No entanto, critica a falta de solidariedade atual. As religiões são bastante movimentadas, hoje, mas cuidam mais da fé. Ninguém nasceu para cuidar de pobre - são raros os que nasceram para isso. Há uma escassez de gente. Na década de 40, havia mais solidariedade humana; o povo ajudava mais, expõe.

Atualmente, a Sociedade beneficente cristã atende cerca de 800 pessoas, entre crianças, adultos e doentes mentais. Sebastião Paiva espera que seu trabalho tenha continuidade e que a comunidade se mobilize para isso. Eu não quero prêmio, quero trabalho para o povo. A fome é uma dureza, mas é a situação atual do nosso povo, salientou.

História

Sebastião Paiva nasceu na zona rural e cresceu até os 16 anos em ambiente de muita pobreza material. Quando alfabetizado, aprendeu a telegrafar e trabalhou como ferroviário durante 30 anos. Nesse período, ele já apresentava sensibilidade às desigualdades sociais. Quando moço, eu me perguntava por que Deus criou o mundo, por que existe sofrimento, por que existe a dor. Conheci uma parábola do Evangelho que achei muito oportuna. Chama-se O Sal da Terra. Jesus falava que nós somos o sal da terra. O sal é a base da alimentação. Comida sem sal ninguém come. Se eu sou o sal da Terra, eu tenho que dar sabor à vida do próximo: dar emprego, orientação, remédio. Eu cresci com a intenção de fazer isso, conta.

Ainda moço, Paiva começou a cuidar de indigentes. Chegou a Bauru em 1942, época em que começou a trabalhar em um lar de desamparados. Havia falta de casas. Então, eu criei uma organização para dar casas para a viuvez e fundei uma associação para poder arrecadar fundos: a Sociedade Beneficente Cristã, afirma.

Na época, a entidade comprou 100 alqueires de terra, na região de Bauru, onde foi construída uma casa para funcionar como abrigo para crianças, que foi inaugurada em 1960. As crianças iam à escola e trabalhavam na parte agrícola. As moças cresciam aprendendo artes, culinária etc. Casamos, nesse tempo todo, 28 moças relembra.

Nesse período, também teve início o trabalho de assistência a doentes mentais, coordenado por Paiva. Vinha à nossa porta muita gente com doenças mentais e não existia, aqui na região, um hospital para doentes mentais. Então, fizemos um local com 10 quartos para homens e 10 para mulheres. Nós pedíamos vagas no hospital de São Paulo, e conseguíamos algumas. Mais tarde, construímos um hospital, disse.

Na década de 50, a sociedade construiu uma casa para abrigar famílias e outra para atender doentes com tuberculose. Paiva colaborou, ainda, na criação de uma entidade de apoio aos portadores de aids.

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