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Modernidades

(*) Antonio Delfim Netto
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Já se disse que governar é abrir estradas, que governar é resistir às pressões e, mais recentemente, que governar é modernizar o país. As duas primeiras simplificações pertenceram, pela ordem, ao nosso presidente Washington Luís (década dos 20) e ao presidente Kennedy, dos EUA (década dos 60), ambas no século 20. A última, já no século 21, é de autoria do atual presidente do Brasil. Após seis anos de governo, é preciso esquecê-la, porque em matéria de modernização nós vamos indo muito mal. Na política, honestamente, não é possível falar em modernização da prática, pelas razões conhecidas. Na economia, se considerarmos o objetivo maior do desenvolvimento do País, os tempos modernos nos têm proporcionado grandes recuos, mal compensados por pequenos avanços.

O exemplo maior desses recuos é o atual problema da energia: até 1990, à custa de enormes investimentos, o setor energético brasileiro viveu um período de expansão, ampliando a geração e montando uma rede de distribuição que sustentaram o desenvolvimento industrial, colocando o Brasil na posição da oitava economia mundial. É importante notar que os investimentos decorreram de um eficiente planejamento estatal, sempre atualizado, que indicava a necessidade das obras com aproximadamente 10 anos de antecedência. Sob esse aspecto, não há dúvida que a verdadeira década perdida foi a dos anos 90, com especial destaque para o período pós 94, quando o planejamento estatal passou a ser tido como uma heresia e as decisões de investimento foram deixadas a critério do setor privado. Isso porque a idéia de modernidade que orienta nossos economistas neo colonizados se resume à crença fundamentalista nas virtudes do deus mercado... Na verdade, essa ideologia vem funcionando como um refúgio, onde se escondem formas preguiçosas de enfrentar os problemas, uma espécie de não-governo...

Infelizmente, o caso da energia não é o único exemplo de imprevidência que certamente resultará em mais uma frustração do nosso processo de desenvolvimento, se não agirmos rápido. Trata-se da inapetência do governo em engajar-se num programa vigoroso de expansão das exportações. Da mesma forma que no caso da energia, a área financeira do governo (aí incluído o setor fiscal) vem subestimando a dimensão do problema que ronda as nossas contas externas. Em nome da modernidade, reage epidermicamente a quaisquer sugestões de estímulos ao setor exportador, tem ojeriza à palavra subsídio e ignora a necessidade da urgente racionalização do sistema tributário que restringe o poder de competição de nossos produtos no exterior. Os países que interpretam corretamente o termo modernidade, tratam de eliminar impostos e não hesitam em subsidiar suas exportações, enquanto nós continuamos acumulando déficits comerciais e aumentando perigosamente o déficit em conta corrente. As dificuldades de financiamento externo estão crescendo e não se observa de parte das autoridades financeiras um gesto revelador de que estão conscientes do problema e que têm a necessária disposição de enfrentá-lo. Se não nos engajarmos numa verdadeira cruzada para expandir as exportações, não será nenhuma surpresa a crise cambial, tão previsível quanto a mil vezes anunciada crise energética.

(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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