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O apagão e a podridão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

De todo esse noticiário divulgado pelos meios de comunicação e os brilhantes artigos de autoria de intelectuais ilustres, gostei mais foi da frase de um político baiano chamado Aleluia, por ironia do destino: O apagão apodrece a carne, o sorvete e as pessoas. Básico, como diria o Macaco Simão. Num país cujo povo tem por tradição pular a cerca, o escuro fará com que a posse carnal seja banalizada a ponto de ser desprezada pelo excesso. Imagine o que vai acontecer no feriadão institucionalizado. Três dias por semana sem trabalho. Quanta gente vai fugir de casa para não ter que ficar pagando o tal débito conjugal.

Pelo menos uma pessoa vai se derreter à luz de vela, como aquela que as almas caridosas colocam junto ao corpo coberto por jornais do anônimo atropelado. Chama-se Fernando Henrique Cardoso. Desde quarta-feira estamos terminantemente proibidos de recorrer ao Código de Defesa do Consumidor para nos defender dos cortes de energia elétrica e sobretarifas. A imposição veio na forma de uma Medida Provisória, editada por FHC, que contraria a lei anterior que ele mesmo promulgou e que chegou a considerar um exemplo para o mundo civilizado. Qualquer semelhança com os atos institucionais dos tempos da didadura militar pode ser mais do que mera coincidência. Os direitos garantidos a todos os indivíduos deste imenso País estão sendo demolidos a canetadas. Liminares são incapazes de encher de água os reservatórios e movimentar as turbinas geradoras de eletricidade. Isso é verdade.

Vamos ficar no escuro, de qualquer jeito. Não chega a ser uma tragédia. Mais de 2 bilhões de pessoas não têm uma lâmpada sequer em casa, dos 6 bilhões que povoam o Planeta. No Nordeste brasileiro, somente 30% das famílias têm energia elétrica na zona rural. O problema é a paralisação da economia e suas conseqüências: desemprego, fome, queda do PIB, atraso em todos os setores. Como disse o maior filósofo brasileiro vivo Millôr Fernandes, já ninguém duvida; a energia elétrica é indispensável ao progresso do Brasil. Os brasileiros, nem tanto.

O motivo desse imbroglio foi a trapalhada nas privatizações no setor energético. Vendeu-se o que estava feito e dando lucro e não foram exigidos novos investimentos na geração de energia. Faltaram postes para transmitir a força de regiões mais favorecidas pelas águas. Até o fim da semana ninguém do governo se entendia sobre a possível estratégia a ser cumprida. Estão aceitando palpites até do engraxate da Rodoviária de Brasília. A cada dia, os consumidores são surpreendidos com novas notícias sobre o plano de racionamento que vai se imposto pelo Governo a partir de junho. Depois de alguma discussão para chegar a um consenso, o Parente e o genro concluíram brilhantemente que as famílias de baixa renda estarão sujeitas a cortes. De cada quatro bicos de luz do barraco, um não poderá ser utilizado porque senão a gambiarra no poste da frente será cortada. Nos cortiços onde o relógio para medir o consumo é único para todos os cômodos alugados, haverá sorteios semanais para ver quem toma banho. Enquanto isso as distribuidoras de energia querem compensações porque o lucro vai cair com a economia dos consumidores e mais funcionários terão que ser contratados para realizar os cortes. Qualquer medida que venha a ser tomada, sabemos de antemão, não vai funcionar. Porque, na verdade, a turma que dirige esse setor é incompetente até para apagar o abajur. Diante disso tudo, resta comprar velas pois não há luz no fim do túnel. Eu cá, já tenho a minha, mas não para caminhar nas trevas que tanto me deprime. Quero acendê-la em louvor a Santa Luzia, padroeira dos cegos, para que nos guie, com paciência, nesse poço de escuridão. Pensando bem, acho melhor a opção do Millôr da gente se juntar ao saque geral em curso nos altos escalões da República.

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