Para especialista, somente com ações integradas será possível enfrentar, de forma eficaz, a disseminação das drogas
Para o professor de Ciências Políticas, José Luiz Bizelli, somente com ações integradas envolvendo a comunidade, polícias civil, militar e federal, governos municipais, estaduais e federal, será possível enfrentar o problema das drogas e desenvolver programas/ações eficazes de combate às drogas no Brasil. A afirmação foi feita durante o Seminário de Prevenção ao Uso de Drogas, promovido na última sexta-feira, pelo jornal Tribuna Impressa, de Araraquara, empresa na qual o Jornal da Cidade tem participação societária.
Durante o evento, que contou com presença marcante da população, incluindo dezenas de mães de dependentes químicos, foi lançada a cartilha Vamos descobrir um Brasil sem drogas/Um guia para a família, elaborada pela Secretaria Nacional Antidrogas. O seminário foi encerrado pelo general Alberto Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e Secretário Nacional Antidrogas.
Para o professor Bizelli, somente com ações integradas será possível enfrentar, de forma eficaz, o problema da disseminação das drogas na sociedade. O eficaz combate às drogas depende de uma ação integrada. Se a sociedade se mobilizar para isso, se houver vontade política e investimentos, haverá chances de realmente enfrentar esse problema. Não adianta as pessoas fingirem que ele não existe e se dar conta dessa realidade somente se um membro da sua família, por exemplo, se envolver com drogas. Apesar das conseqüências serem diferentes, esse problema atinge todas as classes sociais. Então, é uma situação que deve ser enfrentada pela sociedade como um todo e não por determinados setores dela, disse o professor.
De acordo com Bizelli, no Brasil, estima-se que cerca de 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) é gasto na saúde pública, anualmente, em ações relacionadas à reintegração e assistência social de dependentes de drogas, além de investimentos em programas de saúde e segurança. Nos Estados Unidos, a estimativa é de que esses custos giram em torno de US$ 100 bilhões, segundo o professor.
José Bizelli destacou os altos valores envolvidos nessa questão, fazendo uma comparação com a crise do setor energético pela qual o Brasil está passando. Os valores gastos com situações relacionadas às drogas significam o dobro dos gastos calculados com todos esses problemas que o País está passando em função da crise do setor de energia elétrica. Com essa crise, estima-se que os valores gastos terão um impacto de 3% a 4% do PIB, afirmou.
De acordo com o professor, entre as drogas lícitas, como o tabaco, cerca de 2,2% do PIB anual é utilizado para tratamentos de doenças causadas pelo uso do fumo. Entre os anos 95 e 97, mais de R$ 300 milhões teriam sido gastos com internações decorrentes do uso abusivo e da dependência de álcool e outras drogas. Nos Estados Unidos, os gastos totais relativos aos diagnósticos de dependência de drogas, das mais diversas, teriam passado de US$ 902 milhões, em 93, para US$ 2 bilhões, em 97.
"Campanhas preventivas são importantes"
Questionado, pelo Jornal da Cidade, sobre a eficácia das campanhas governamentais de prevenção contra o uso de drogas e a facilidade cada vez maior de acesso dos adolescentes e jovens a elas, o professor disse que as campanhas são válidas do ponto de vista da prevenção. Porém, para o real problema da disseminação das drogas no País, torna-se necessário investir em outros tipos de ação, que atinjam de forma mais eficaz os usuários.
Um drogadido (usuário/dependente de drogas) vendo uma campanha de prevenção, certamente não se sente atingido por ela. A campanha de prevenção é importante para que a pessoa não chegue a ser um dependente químico. Mas, para lidar com as pessoas que já estão envolvidas com as drogas, é necessário ter uma política pública forte de tratamento desses indivíduos. Esse tratamento não deve se limitar ao físico, como também, no sentido de restaurar algumas relações dessa pessoa com a família e com a sociedade. Muitas vezes, esse indivíduo está numa situação de prisioneiro fora do sistema penitenciário. Assim como o preso não vê alternativa para ter uma vida social integral, o drogadido está dentro da sociedade sentindo que nada do que ele fizer possibilitará que caminhe para uma vida mais saudável, do ponto de vista psicológico e humano. Essa falta de perspectiva também deve ser tratada pela sociedade. É nesse momento que eu acho que isso não é um papel somente do Estado, porque essa é a sociedade que nós estamos construindo, disse.
O médico psiquiatra Edson Henry Takey falou sobre os custos financeiros e de desagregação social da família de um drogadido. Segundo ele, quando há um usuário de drogas dentro de casa, toda a família fica doente e necessita de orientação e ajuda psicológica.
Experiência caseira
O ator Felipe Camargo foi convidado especial do seminário, contou sua experiência pessoal com drogas e elogiou a iniciativa de realizar o evento. Esse seminário é muito importante para a sociedade. A cartilha que está sendo distribuída é bem clara, explicativa e pode ajudar muito as pessoas que estão envolvidas, direta ou indiretamente, com esse assunto, disse.
Com 40 anos de idade, o ator contou que sua primeira experiência com uma droga lícita, o álcool, foi dentro de casa. Aos 14 anos, experimentou maconha pela primeira vez. Segundo ele, a principal motivação que o levou à recuperação foi o filho, Gabriel (do casamento com a atriz Vera Fischer).
Foi numa festa de Natal em casa, quando eu tinha 12 anos, que eu conheci o álcool. Meu avô, ingenuamente, ofereceu uma bebida para eu experimentar. É claro que bebi pouco, mas, algum efeito aquilo causou dentro de mim. Estou contando isso para vocês saberem e entenderem que a droga não está somente nas mãos dos traficantes. Aos 14 anos de idade, por exemplo, eu conheci a maconha através do meu irmão mais velho. Com o tempo, me tornei um dependente. No caminho das drogas, acabei passando pela cocaína e por remédios para dormir. Agora, graças ao NA (Narcóticos Anônimos), em agosto vou completar cinco anos longe do álcool e das drogas. Com muita dificuldade, recuperei a minha dignidade e o meu livre arbítrio, porque agora escolho o que quero fazer e sei que não posso beber ou me drogar, disse.
O ator disse que o papel da família e dos pais, de forma mais especial, é fundamental na prevenção ao uso das drogas, no sentido de educar e orientar os filhos para que não enveredem por esse caminho. Para as pessoas que têm filhos ou parentes próximos que são usuários de algum tipo de droga, buscar ajuda em grupos de apoio que desenvolvem trabalhos direcionados aos familiares também é fundamental para a recuperação de um dependente químico, na opinião de Felipe Camargo.
Vera Campos, mãe da adolescente Maria Augusta, que foi estuprada e degolada em março deste ano, em Araraquara, por usuários de drogas que queriam dinheiro, também deu um depoimento durante o seminário. Entre outros apelos, ela cobrou ações mais fortes e eficazes da polícia e dos governos municipal e federal no combate às drogas e em relação à prisão dos traficantes.
Cerca de 65 mil cartilhas serão distribuídas em todas as casas de Araraquara, durante os próximos 20 dias.