Bebês prematuros podem apresentar um tipo transitório de alteração,que se corrige com o passar do tempo. A doença congênita, porém,requer tratamento por toda a vida
De acordo com a endocrinologista Cibele Cabogrosso, o hipotireoidismo é uma deficiência na produção do hormônio da tireóide, que pode acontecer por defeito na formação ou na posição da glândula - ela fica no pescoço, mas pode desenvolver-se sob a língua. Com isso, há uma ausência de hormônio ou a quantidade existente é insuficiente para o organismo do bebê. O tratamento resume-se em fazer a reposição deste hormônio aos níveis corretos, regulando o funcionamento dos órgãos.
Mas, se a doença não for diagnosticada e tratada logo nos primeiros meses de vida, a deficiência vai acarretar um retardo no crescimento físico da criança, além de levar a sérias alterações neurológicas, cardíacas, intestinais, entre vários outros distúrbios.
A partir do diagnóstico, nós fazemos uma avaliação da deficiência para determinar a quantidade de hormônio que o bebê precisa receber. A reposição é feita com um comprimido, que pode ser amassado e diluído em água. Então, passamos a acompanhar todo o desenvolvimento, peso e medidas da criança, para ir adaptando esta dosagem, explicou a médica.
Segundo ela, uma em cada 4 mil crianças nasce com hipotireoidismo. A principal dificuldade, nestes casos, é a adesão da família ao tratamento. Porque o hipotireoidismo congênito não tem sintomas inicialmente e é difícil a família aceitar que um bebê, aparentemente normal, tenha que tomar um remédio pelo resto da vida. Mas, se ele não tomar, quando manifestar os sintomas, já terá seqüelas irreversíveis, comentou.
A médica ressaltou que, no primeiro ano de vida da criança, o crescimento e desenvolvimento são extremamente rápidos. O hormônio da tireóide é responsável pelo funcionamento do organismo (metabolismo). Por isso, o nível hormonal precisa estar devidamente equilibrado para permitir que o amadurecimento dos órgãos, sistemas e tecidos seja correto.
Sintomas
O bebê com hipotireoidismo, geralmente, nasce com aspecto normal, porque recebeu os hormônios da mãe durante a gestação. Mas, se não receber tratamento logo nos primeiros meses de vida, vai manifestar sinais da doença, mostrando-se uma criança excessivamente tranqüila. É um bebê que não chora e dorme o dia todo. É aquele bebê que a mãe diz que não acorda nem para mamar, é uma criança mole, que tem choro rouco, tem o intestino muito preso, porque o metabolismo é lento, observa a endocrinologista.
Outra característica importante destacada pela médica é o inchaço generalizado. Como os órgãos não funcionam direito, existe uma retenção exagerada de líquidos. A língua da criança fica grande, obrigando-a a permanecer com a boquinha aberta. Esse inchaço atinge os músculos e vai prejudicando o intestino, o coração e tudo o mais, disse.
O crescimento físico desta criança também será lento, ela vai ficar pequena, vai demorar para sentar, para andar e, silenciosamente, ela vai estar sofrendo uma deficiência mental que não poderá ser recuperada depois.
Se você diagnosticar quando ela tiver seis meses de vida, essa criança já terá um retardo mental e físico. Ela vai ser uma criança com estatura menor, que demora mais para fazer as atividades, uma criança que vai se destacar por não conseguir acompanhar os coleguinhas da mesma idade. O principal objetivo da triagem neonatal é iniciar a terapêutica no primeiro trimestre de vida para aumentar a probabilidade de se alcançar um desenvolvimento neuropsicomotor normal, concluiu.
Transitório
A endocrinologista Cibele Cabogrosso explicou que nem sempre o hipotireoidismo no recém-nascido é genético. Ele pode ser uma deficiência transitória, que é muito comum em bebês prematuros. A criança nasce sem que sua tireóide esteja completamente desenvolvida. Ela recebe a reposição hormonal até que a glândula amadureça (o que leva cerca de um ano) e comece a produzir o hormônio adequadamente.
Hiperplasia adrenal congênita
Outra doença que também exige reposição hormonal desde os primeiros meses de vida da criança é a hiperplasia adrenal congênita. Também conhecida como síndrome adreno-genital, a anomalia é causada por uma deficiência na produção de corticóides (hormônios da glândula supra-renal). As crianças que nascem com esta doença apresentam dois problemas sérios: a masculinização e a dificuldade em reter sódio. Sua freqüência é de um para cada 10 mil nascimentos.
A perda de sódio (sal mineral) pode manifestar-se a partir da segunda semana de vida do bebê, levando a quadros severos de desidratação. Se não for identificada imediatamente, leva a criança à morte.
No caso da masculinização, as meninas são as mais prejudicadas, pois acontece uma alteração na genitária externa (os grandes lábios tornam-se enrugados e, por vezes, fundidos, o clitóris é maior que o normal e a área genital fica escura). A doença também pode manifestar-se de forma atenuada e, se não for tratada, leva à infertilidade a longo prazo. Nos meninos, a doença costuma ser assintomática nos primeiros anos de vida, mas também pode ser percebida com um aumento exagerado do pênis.
O tratamento é feito com a suplementação de cortisona e as meninas podem precisar de cirurgia plástica para correção da anatomia genital. Sem a reposição hormonal, no entanto, as crianças (meninos e meninas) vão apresentar aumento progressivo do clitóris/pênis, pêlos pelo corpo, acne, aumento da massa muscular e crescimento desproporcionais à idade cronológica, resultando em diminuição da estatura final do paciente.
Porém, o tratamento iniciado precocemente e feito de forma adequada por toda a vida, garante sobrevida normal aos pacientes. Esta doença também pode ser diagnosticada pelo teste do pezinho, mas esta cobertura não faz parte dos exames realizados gratuitamente pelo SUS e pode ser identificada pela manifestação dos sintomas.